Arquivo da categoria ‘Pulp Fictions - pero no mucho’

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Mãos atadas

26 Dezembro, 2007

Eu, hoje, me vejo nua, sozinha e fria amarrada com as mãos às costas num quarto escuro.

Eu, que sempre achei um meio pra tudo e em tudo, não vejo nada, me encontro sem jeito e não enxergo caminhos.

Eu, que sempre lutei pelos meus sonhos, hoje só os contemplo e espero, impotente e inerte. Como uma criança que pula e se estica em vão, tentando alcançar algo que está além de suas forças.

Esses sonhos, por sua vez, flutuam ao meu redor lentos e etéreos como bolhas de sabão ou como peças de um móbile sem graça que o destino me preparou. São como instantâneos pregados numa parede branca, alegrando-a por poucos minutos, mas que imediatamente perdem a cor, queimando-se num fragor prateado, fundindo-se numa só coisa alva, infinita e indefinida, me deixando sem ação, sem direção, sem solução, sem intenção.

Me sinto de mãos atadas. Presas às amarras e escolhas da vida.

Não sei quem sou agora, nem quem fui, nem quem serei daqui para frente… e isso me assusta.

Só sei que hoje sou crisálida, ninfa paralisada num casulo verde e viscoso sem saber se vai virar borboleta ou enfim morrer meio lagarta.

Logo eu, que sempre me bastei, me garanti, me satisfiz, me fiz e refiz em mim mesma…

Logo eu, sempre tão fiel a mim e a meus princípios, encontrei você e me achei em ser sua.

Nego ao meu ego e me apego a ti.

Logo eu, que nunca fui frágil, agora me vejo escrava da sorte… e assim enfraqueço.

O que faço agora? Estou de olhos vendados na contramão de uma auto-estrada.

Porque ousei trilhar esse caminho e pago por isso.

Porque escolhi me perder de mim mesma para me achar em ti.

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Sliding doors I

21 Agosto, 2007

Cenas interessantes do metrô:

Um senhor, muito distinto, de terno e gravata, atendendo ao telefone:

-Alou? Alou? - segura o telefone com a mão direita e com a esquerda cobre o outro ouvido.

-A ligação tá ruim. Quem é? Alou? Ah…oi! A paz do senhor, irmão! Oi..alou? alou? - faz caretas, tira o telefone do ouvido, olha para o visor, volta a encostá-lo no ouvido.

-Aaaalou! A paz do senhor irmão! A PAZ DO SENHOR IRMÃO! - aumenta a voz enquanto, com uma das mãos, faz uma concha junto à boca e o bocal do telefone.

-EU FALEI A PAZ DO SENHOR IRMÃO! -grita. Todos em volta, olham.

-AH, CARALHO, VAI TOMAR NO CU! - afasta o telefone do ouvido, o desliga num ímpeto, o guarda no bolso do terno e desce na próxima estação.

 

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Memento Mori

16 Janeiro, 2007

Outra manhã em São Paulo. O tempo é aquela coisa indefinida: não chove e nem faz sol, de vez em quando um pé de vento desarruma os cabelos, você nunca sabe se leva blusa ou sai só de camiseta, se leva guarda-chuva ou se arrisca a voltar ensopado, se o trânsito vai atrapalhar sua vida ou se finalmente vai conseguir chegar a tempo ao trabalho. Por mais que todos os dias pareçam iguais, tudo pode acontecer.

Abigail acorda cedo. Hoje vai ao médico, o que é um evento, pois nunca sai de casa. Gosta de supervisionar e dar pitacos na faxina de Lurdes, sentar-se frente à televisão e acompanhar as receitas de Ana Maria Braga e o jornal do meio-dia, enquanto tricota uma malha interminável para o filho e reclama da política brasileira.

De vez em quando troca meia hora de prosa com a vizinha, Dna Guiomar, mas na verdade a acha muito futriqueira e intrometida.

A consulta é um check -up, com  Doutor Afonso, em seu consultório em Pinheiros. Ela gosta de Afonso, é um bom menino e a trata com muito carinho e atenção há vários anos.

-Parabéns Dona Abigail, 76 anos e uma saúde perfeita! Não há nada de errado com a senhora, está tudo como deve estar nessa idade. Só continue atenta à diabetes e ao colesterol, sempre. Logo logo e a senhora chega aos cem!

Sai do consultório tranquila, apesar da cidade fervilhar à sua volta. Observa e sente os elementos urbanos da megalópole infrene: prédios altos, pessoas correndo de um lado para outro, as parcas e mirradas árvores, o barulho constante do enorme canteiro de obras, ao longe.

Era tudo diferente em seu tempo de menina. No entanto, orgulha-se por estar viva, por ter vivido e sobrevivido às mudanças da vida, do mundo, de sua cidade.

Se dá conta do horário e apressa o passo. Seu filho Pedro ficou de pegá-la logo ali, na Rua Capri e ele está sempre com pressa, não gostaria de atrapalhá-lo de modo algum. Os jovens estão sempre com pressa…

Chegou antes do filho, no final das contas. Olha o relógio: 15h. Está exatamente onde haviam combinado: 15h na Rua Capri, em frente à casa amarela. Não custa nada esperar, oras.

Suspira e sorri, calma, levando a mão espalmada acima dos olhos, para protege-los do sol, enquanto olha para o fim da rua. 

É um belo dia afinal…

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La vérité

14 Dezembro, 2006

Duas e meia da manhã e eu aqui. Isso não  é lugar para uma moça… ok, soou como algo que minha mãe diria, mas tudo bem. Estou sendo generosa comigo mesma usando o termo ’moça’, claro. Há um espelho na minha frente, e apesar das muitas garrafas coloridas encostadas nele ainda consigo ver meu reflexo. Envelhecido. Patético. Triste. Sorrio torto e levanto um brinde a  mim mesma.Viva a decadência! Tim-tim.

O barman está absorto assoviando uma melodia idiota e enxugando copos. Vira e mexe enche o meu com mais uma dose sem perguntar nada, sem ao menos me olhar na cara. Ele sabe o que quero e preciso, vem e me dá. Não me deixa faltar nada, absolutamente nada. Não torra meu saco com conversinhas sobre o tempo ou futebol  nem vem com aquelas cantadas vergonhosas e deprimentes que dão vontade de vomitar. Não. Ele chega, olha meu copo, enche e volta a pegar o pano de louça. Não trocamos palavra. É, com certeza, a melhor relação que já tive na vida.

Esse lugar é como minha casa. Eu o freqüento já há um bom tempo. Nas noites de quinta e sábado acontece o baile da terceira idade. Adoro ver a felicidade no rosto dos velhinhos. Eles têm uma certa ingenuidade, ou vai ver é uma espécie de sacanagem light, daquelas inofensivas, do tipo que não existe mais no mundo.

Fico aqui, braços cruzados sobre a ponta esquerda do balcão forrado de couro carcomido, bebendo e observando a entrada dos velhacos. Eles invadem o recinto faceiros, sorridentes, excitados feito pré-escolares em dia de excursão.

Os homens chegam com seus chapéus panamá, calças de tergal vincadas, bocas arreganhadas mostrando as dentaduras frouxas ou os dentes de ouro, e as senhoras com seus vestidinhos de jérsey, excesso de rouge nas bochechas e grandes brincos pesando nos lóbulos moles das orelhas.

Parecem querer continuar a viver só para aproveitar momentos como esse. E ainda por cima agem como adolescentes contraventores, comprando Viagra escondido com o barman como se fossem comprimidos de ecstasy. É divertido.

Me enternece ver tanta energia, alegria, esperança. Me impressiona pensar que talvez eles sejam duas ou três décadas mais velhos do que eu e no entanto possuem muito mais vontade de viver…

Estendo o copo para o barman…

Durante os outros dias da semana é tudo a mesma coisa. Um lugar fechado, escuro, cheirando a mofo e álcool, não muito bem frequentado, com bebida barata e música brega. Mas gosto daqui…me parece confortável. Acolhedor seria a palavra exata.

Eu poderia estar em qualquer outro lugar. Poderia estar aprendendo alguma coisa, fazendo algum curso, pintura em porcelana, linguagem de surdo-mudo, sei lá… poderia fazer um trabalho voluntário, cuidar de pessoas tetraplégicas, trocar fraldões e garantir meu lugar no céu, se é que existe um. 

Ou poderia estar em casa, lavando, passando e limpando, dando comida pro gato e vendo “A Tarde é Sua, com Maria Dulce” na TV, recebendo minha aposentadoria e gastando-a  inteira na compra de remédios e sopas de saquinho. Eu poderia. Mas não estou.

Estou nessa poçilga, enchendo a cara, inchando, aplacando minha amargura, sedando minha consciência, destruindo meus neurônios…tentando te apagar da memória. Porque você está gravado em cada uma de minhas células. Está imerso em cada poro da minha pele. Seu gosto está preso em cada uma de minhas papilas gustativas e seu cheiro impregnado em minhas narinas.

A verdade é que eu deixei você me destruir quando partiu. É isso. Não consegui, lutei e perdi, me deixei dominar e mergulhei num poço sem fundo…essa é a verdade.

Clichê até medula. A vida é estupidamente clichê, por vezes… A verdade está nos clichês.

Escolhemos ou somos escolhidos? O corpo domina a mente ou a mente domina o corpo? Temos mente? Temos corpo? Algo nos pertece de fato? Qual é a verdade, afinal? Existe uma? Várias?

A verdade… a verdade…a verdade está entre o décimo quinto e o trigésimo drink….

 E eu preciso descobri-la….

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Se cada dia cai…

29 Novembro, 2006

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

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Strange Fascination

24 Novembro, 2006

 Sonhei com você noite dessas. Tava tudo muito confuso, assim, sabe como é sonho, né?

Só sei que eu estava divinamente trajada com um mini-vestido preto de seda, um corset e botas de vinil preto que iam até os joelhos e saltos altíssimos, um cabelo do tipo “Tina Turner in a bad hair day” e olhos fortemente pintados de preto. Modéstia às favas, eu estava maravilhosa. Até peitos eu tinha! Tinha uns peitos lindos, fartos…transbordavam do corset! Só em sonho mesmo…pfff

Eram os bastidores de algum show, possivelmente o meu, é claro….tinha muita gente da técnica correndo pra lá e pra cá, luzes, câmeras, produtores, contra-regras, maquiadores, roadies , mulheres de roupas íntimas e esquilos prateados…É. Esquilos prateados… É SONHO, PÔ!

Então, aí deu que um cara me puxou pelo braço e falou: “Você precisa conhecer alguém” e seguiu me arrastando por um longo corredor. Eu me deixava levar, extasiada, meio fora de mim (devia estar chapada…). Ia sorrindo, conversando, brincando com todos e bicando golinhos de champanhe de copos alheios… até que vi você.

É… você estava lá. Você. Assim, exatamente, assim. Esses olhos bicolores, esse sorriso perfeito. Perfeito…você é perfeito…oh deus…VOCÊ!

Terno branco, impecável…digno do “White Thin Duke”, voz grave e um perfume fenomenal, meio cítrico, meio amadeirado. Uma mão, mantinha elegantemente no bolso da calça, a outra, estendeu, firme, esperando meu cumprimento…

Imediatamente o sorriso que eu trazia sumiu de meus lábios, juntamente com o sangue que costuma corá-lo e o que restava da pouca sanidade que tenho, esvaiu-se. Me senti tonta e minhas pernas pareciam feitas de maria-mole, fraquejei e me apoiei na parede. E você…VO-CÊ veio me amparar.

Aí não aguentei. Te abracei forte e chorei HORRORES. Chorei de soluçar… meu rímel manchou seu terno branco deixando no seu peito uma enorme mancha negra, mas você nem ligou, me abraçou de volta e sussurrou no meu ouvido com aquele sotaque britânico que me faz congelar: ”Finally, it’s a pleasure to meet you”

Eu só me lembro de ter pedido infinitas desculpas por me comportar daquele jeito patético, mas o que eu podia fazer?  Eu não esperava. Não esperava encontrar meu ídolo. Não esperava….se fosse qualquer outro, tudo bem, sabe? Eu iria ser blasè…mesmo se fosse o Morrissey…! -Se bem que o Mozz nem iria querer me conhecer - ok, podia ser o Robert Smith…o Iggy! Mas enfim…não você. Com você não dá. Desmontei. E olha que odeio babação de ovo de qualquer tipo, em cima de qualquer um!

Dave, baby…desculpe…desculpe, desculpe. Tenho tanto o que conversar, tanto o que perguntar, tanto o que te sentir..tanto, tanto, tanto…desculpe. Desculpe! Oh Deus, o dia da minha vida e eu o transformo numa total e completa vergonha!

Minha avó, de manhã:

-O que aconteceu, teve algum pesadelo essa noite?

-Ué, porque? - perguntei enquanto mexia o café com leite, desatenta

-Você chorou. Chorou dormindo…as lágrimas escorriam, precisava ver! Até soluçava! Fiquei com medo de te acordar …

-Ah é? - levantando os olhos e mirando os de minha avozinha, admirada…

-É ! Que foi? Sonhou com teu pai?

-Não… - levando a xícara aos lábios, olhar perdido, sorriso besta - Sei lá, vó…nem lembro….

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AVISO:

David Lloyd bate-papo com fãs em São Paulo (Pra quem não sabe, David Lloyd é o ilustrador de V de Vingança, de Alan Moore)
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O inglês participa amanhã (sábado, 25/11), a partir das 16h, de um bate-papo com os fãs, na Fnac Pinheiros.

Na pauta estarão logicamente o projeto Cidades Ilustradas e a sua obra. A conversa será mediada pelo jornalista Paulo Ramos (TV Cultura) e por Roberto Ribeiro, da Casa 21.

Quando: Sábado, dia 25 de novembro, a partir das 16h
Duração: 1 hora
Local: Fnac Pinheiros - Fórum de Eventos (3° andar)
Av. Pedroso de Moraes, 858 - Pinheiros
Tel: 11 4501 3000
Entrada franca

(Eu vou!)