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Existe uma luz que nunca se apaga…

23 agosto, 2006

                                  

O ano era 1990, algo do tipo. Não me lembro de datas nem em qual série da escola estava…deveria ser o colegial ou, no máximo, a oitava série. Só sei que eu tinha 15 para 16 aninhos e havia conseguido meu primeiro emprego há pouco. Professora de inglês. Ah, me lembro que eu era gótica também.O fato é que, dalí a alguns dias eu iria receber meu primeiro salário e já fazia uma listinha mental do que pretendia comprar: Coturnos Dr. Martens, (naquela época já eram super difíceis de achar) alguns livros, roupas, maquiagem e o melhor: CDs, já que eu estava investindo pesado em minha futura carreira de DJ e havia decidido que a música, com certeza, seria um assunto sobre o qual eu teria domínio pleno. Pretensão adolescente, claro. Hoje em dia posso dizer que não tenho domínio pleno nem sobre mim mesma…bem, xápralá.Recebi meu sagrado dinheirinho numa sexta-feira e havia programado o sábado seguinte para as compras. No dia de saturno, portanto, me levantei cedinho, tomei café, vesti minha kilt, meus coturnos velhos, minha camiseta regata preta, trancei meus cabelos longos e igualmente negros, marquei fortemente os olhos com kajal e me aboletei para a Galeria do Rock, em São Paulo. Meu destino: uma loja chamada “Soulshadow”, que ficava na galeria ao lado. Era o templo dos góticos na época. Vendia CDs importados e raríssimos, que nenhuma outra loja vendia. Aceitava encomendas e abastecia seu estoque com as últimas novidades da terra-santa. Não, não Jerusalém. Inglaterra.

Cheguei lá e o pequeno espaço estava totalmente tomado de urubus (não, não os pássaros. Os goths mesmo). Como a desenvoltura social não é lá uma das maiores qualidades da tribo (e eles tem alguma?) os cumprimentos não passaram dos usuais olhares furtivos e meneios de cabeça. E logo estavam todos debruçados sobre os vinis e os CDs organizados verticalmente em caixas.

Os dedos corriam rápidos, separando um CD de outro e as opções eram muitas: Siouxsie & The Banchees, Einsturzende Neubauten, Red Lorry Yellow Lorry, Coil, Bella Morte, My Bloody Valentine, Lycia, X-Mal Deutshland, Bauhaus, Joy Division… Fiquei perdida. Eu já tinha muita coisa, precisava de algo novo. Mas não queria nada pesado como Seraphim Shock nem viajante demais, tipo Black Tape for a Blue Girl. Sem saber o que fazer, peguei mais um do Joy Division (eu já tinha o Closer, peguei o Atmosphere) e mais uns dois CDs que não me lembro quais eram. Até que encontrei um amigo. Ele era mais velho e sacava pra caramba de música.

Como já éramos conhecidos, beijinhos no rosto eram permitidos. Demos algumas risadas e fizemos brincadeiras, irritando os outros mortos-vivos do lugar. Fomos para o balcão da loja, onde nos escoramos e engrenamos um papo:

-O que você tem aí ? Ele perguntou, levantando as sobrancelhas e olhando para os CDs na minha mão.

-Ahh… Joy Division…Bauhaus…tô perdida. Não sei o que levar – Expliquei, fazendo uma careta de desgosto.

-O que você quer? Romântica, ambient, darkwave…

-Não…num sei, quero algo melódico, do tipo Joy, não necessariamente romântica… quero algo melancólico, vai.

– Tipo, Smiths? – Falou, indo até a letra S e puxando um CD.

– O quê? Qué isso?

-Não conhece The Smiths? Ele fez uma cara de espanto, estupefacto com minha ignorância musical.

-Eu não…o que é?

-São ingleses, ótimos. Pós punks, super –melódicos…o guitarrista é bárbaro. Ouve um pouco, você vai adorar.

Olhei pra capa. Era legal. Uma foto em tons esverdeados de Alain Delon, meio que desfalecido.. (Lobão copiou a pose dessa capa no seu CD “Vida Bandida”) mas o título foi o que mais chamou a atenção :The Queen is Dead. Não tinha nada a ver com a foto. E soava agressivo.Uma mistura de tristeza e revolta. Exatamente como me sentia naqueles anos turbulentos. Decidi comprar. Foi assim, portanto, que fui apresentada ao meu disco preferido. À minha banda preferida. Foi o primeiro CD que comprei com meu dinheiro. Foi uma grana preta. E eu sou imensamente grata a meu grande amigo (que ainda é gótico e tem filhinhos góticos!) por ter me orientado em uma hora tão importante.

The Queen is Dead não é o primeiro CD dos Smiths. Se não me engano é o quarto da banda, vem depois de Meat is Murder. Mas, na minha opinião, é o melhor deles. Foi nele que ouvi, pela primeira vez, o vocal tenor-alto de Steven Patrick Morrissey, seus vocalises prolongados, as sôfregas oscilações e modulações de sua voz, seus gritinhos, sua respiração compassada, pura técnica e talento totalmente integrados à mais bela poesia que ao mesmo tempo misturava-se com o sarcásmo amargo de suas letras indignadas. Foi a primeira vez que ouvi os arranjos taciturnos, melódicos e sofisticados de Johnny Marr em sua inseparável guitarra.

Johnny Marr é um daqueles guitarristas que você identifica mesmo que ele esteja tocando com outros 200 guitarristas em uma ponta de 10 segundos num CD de ..sei lá…hino de time de futebol inglês. (no caso, hino do Manchester United) Ele tem um estilo diferente de qualquer outro, dedilha a guitarra suavemente e dela arranca gritos viscerais, palavras doces e sussurros velados. Movimenta os dedos com maestria, como se masturbasse docemente uma garota ingênua e virgem e a levasse ao gozo pela primeira vez. Pena ele ser bicha.

The Queen Is Dead é também o disco mais punk deles, agressivo na medida certa, sin perder la ternura jamás.

Morrissey, o bardo de Manchester, uma mistura de Rimbaud e Oscar Wilde é extremamente blasé e escarnecedor, como sempre foi. Sem misericórdia, humilha a família real britânica na faixa-título, sentencia Margaret Thatcher à morte em ‘Bigmouth Strikes Again’ (em que a vítima também é ele mesmo), ironiza a busca pelo sexo fácil em ‘Some Girls Are Bigger Than Others’, mete o pau na igreja católica (ui!) em ‘Vicar In a Tutu’ e tira sarro do “goticismo” em ‘Cemetry Gates.’ Isso sem falar do cinismo com que trata um assunto difícil de se abordar sem cair na pieguice, como o amor. O amor entre homossexuais, principalmente, como é o caso de ‘Never Had no One Ever’. E o tema chega ao ápice com ‘There’s a Light That Never Goes Out’ – minha música preferida deles: dolorida, trágica, melancólica, sarcástica, intensa, reveladora, corajosa, antagônica.

Tem também ‘I Know Its Over’, talvez uma das músicas mais tristes de todos os tempos sobre  fim de relacionamentos, juntamente com ‘Apart’ do The Cure (faz parte do álbum Wish) Terrível, no bom sentido. Já chorei muito ouvindo  ambas.

Isso sem falar da clássica ‘The Boy with the thorn in his Side’ que inspirou muitos gays a escolher São Sebastião (a boy with a thorn in his side..) como seu santo padroeiro.

The Queen is Dead é um daqueles CDs completos, manja? Daqueles que você gosta de todas as faixas e ouve, ouve, ouve…dez, cem, mil vezes. E ainda se emociona. E ainda suspira. E ainda descobre acordes absurdos que nunca havia ouvido antes e ainda se espanta com a sensibilidade da bateria de Mike Joyce e a precisão do baixo de Andy Rourke. É um daqueles CDs que faz você alçar a parceria Morrissey/Marr ao mesmo patamar que  uma Lennon/McCartney.

Escrevi esse texto, porque faz 20 anos que The Queen is Dead foi lançado. Escrevi esse texto porque esse disco e essa banda mudaram minha vida e abriram todo um universo musical diferente para mim, porque se eu for ligar todos os fatos, talvez tenham sido eles os responsáveis por eu ter escolhido justamente a editoria de música em jornalismo…

Escrevi esse texto porque, apesar de conhecer zibidilhões de bandas e sofrer sempre que tenho que escolher uma para ser minha preferida, (por achar que estou sendo injusta com as outras milhares que conheço) finalmente cheguei a uma conclusão:The Smiths é, definitivamente, minha banda preferida. The Queen is Dead…long life to the Smiths.

2 comentários

  1. Pois é…E viva os anos 80. Pena de quem não curtiu essa época em toda a trajetória. Depois dessa época faltou inspiração dos novos jovens.


  2. ADORO.
    Meu grupo de rock, meu disco, meu tudo.



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