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Falta

23 agosto, 2006

Esta noite pensei em você. Desde criança eu me pergunto o porquê de ter nascido em uma família tão complicada. Aí vem a massa e diz:”famílias são complicadas”. Não sei. Não tanto quanto a minha talvez…talvez sim. Não quero comparar complicações, isso seria idiotice. Só sei que minha complicação é mais complicada, porque afinal, é minha.

Eu não me lembro do seu rosto. Eu não me lembro do seu cheiro. Não me lembro da sua voz. Não me lembro de você. Às vezes fico me olhando no espelho por longas horas…fico procurando em mim algum traço seu. A boca? Os olhos? Ou seriam suas as covinhas que insistem em aparecer nas minhas bochechas quando sorrio? De onde elas vem? De onde eu vim? Fui fruto de uma história de amor ou de um desejo egoísta? Toda grande história de amor é cruelmente egoísta.

Meu passado é um caleidoscópio quebrado. As diversas peças deveriam formar um desenho harmonioso, geométrico, perfeito, mas faltam espelhos e a luz não entra…tudo se perde, as contas caem e se espalham pelo chão encerado…

É tão difícil procurá-las e tentar consertar tudo… são pequenas, mínimas. Escondem-se nas reentrâncias de minha mente….estou a procurá-las a vida inteira. Em vão.

Você morreu no inverno. Era próximo do meu aniversário – “seu pai morreu” – foi o que disseram. E eu fui fazer a lição de casa.

Se você soubesse a falta que me faz. Se você soubesse a falta que me fez.
As lembranças surgem fragmentadas e eu morro de medo de acreditar nelas. Talvez sejam falsas. Talvez nem tenham existido e para suprir o vazio que você deixou, eu as tenha criado. Como saber? Era você comigo, segurando minhas perninhas e as rédeas enquanto eu andava à cavalo? Era você tocando flauta em cima da cama, e pondo meus dedinhos nos buracos, me ensinando a soprar? Era você lendo aquele livro? Era você? Quem foi você?

No alto do meus delírios chego a imaginar que talvez você não tenha morrido. Vai ver foi mais uma mentira das muitas que me contaram, para que eu parasse de fazer perguntas. E eu obedeci. Eu parei de perguntar, eu parei de procurar, de tentar entender. Eu sei, justo eu, a eterna inconformada, incansável. Desculpe…eu tenho força para enfrentar muitas coisas …para outras, não. Que ironia…

Eu queria tanto te encontrar. Eu queria tanto te mostrar a pessoa que me tornei. Eu queria tanto te contar o que eu tive que superar para chegar onde cheguei. Eu queria que você sentisse a força que aprendi a ter. As coisas que fiz…. tanto as ruins quanto as boas. Queria levar uma bronca tua. Um puxão de orelha. Ouvir a sua voz grave e retumbante, gritando comigo. Dizendo o que eu deveria ou não fazer. Me dando limites. Eu tive que testá-los sozinha. Eu quase morri por isso.

Você teria orgulho de mim? Você me acharia bonita? Uma mulher bela, forte, capaz inteligente? Me amaria, como te amo? Nunca precisei da aprovação de ninguém, só da sua. Eu trilhei caminhos tão escuros onde tudo o que eu quis foi poder pegar na tua mão. Eu conquistei tantas glórias, dinheiro, reputação só queria poder ter olhado em teus olhos, a cada objetivo atingido.

Eu escrevo, sabia? Eu escrevo tanta merda…eu só queria que você pudesse lê-las.

Vinte e nove anos, que mais parecem setenta e nove. Fica difícil refletir e dói respirar quando eu penso em você. O ar fica pesado e tudo ao meu redor congela. Meu peito arfa, me sinto sufocada. Eu grito, mas nada me alivia. Eu tento sorrir, eu sou uma mulher alegre, apesar de tudo…a gente acaba desenvolvendo técnicas para não morrer amarga e louca…

Você me faz falta. Você me fez falta. Você sempre me fará essa falta. A falta foi a única coisa que você me deixou. E eu me agarro a ela, com todas as minhas forças.

A neve pode esperar, esqueci minhas meias
Assôo o nariz, vou usar minhas botas novas.
Meu coração se aquece quando penso no inverno
Enfio minhas mãos nas luvas de papai
Eu vou na direção das correntes mais profundas…
Bela Adormecida me encara, franzindo a testa
Ouço uma voz ‘você tem que aprender a se virar…porque eu não vou estar sempre por perto…’
Ele diz: “Quando você vai se convencer? Quando você vai se amar tanto quanto eu te amo?
Quando você vai se convencer? Pois as coisas vão mudar muito rapidamente… todos os cavalos brancos ainda estão dormindo…”
Eu digo: Vou querer tê-lo sempre por perto
e você diz: As coisas mudam, querida.
Os garotos se descobrem quando o gelo derrete
E as flores brigam pelo sol
Anos se passaram mas eu ainda estou esperando…
Me perguntando: onde estará aquele boneco de neve que fiz?
Espelho, espelho meu, onde está o castelo de cristal?
Eu só consigo enxergar a mim mesma…deslizando sobre a verdade a respeito de quem sou
Mas eu sei, papai…o gelo está ficando fino…
Ele diz: “Quando você vai se convencer? Quando você vai se amar tanto quanto eu te amo?
Quando você vai se convencer? Pois as coisas vão mudar muito rapidamente… todos os cavalos brancos ainda estão dormindo…”
Eu digo: Vou querer tê-lo sempre por perto
e você diz: As coisas mudam, querida.
O cabelo está branco e o fogo trepida
Tantos sonhos na estante… você diz que gostaria que eu ficasse orgulhosa.
Eu também gostaria de ficar…
Ele diz: “Quando você vai se convencer? Quando você vai se amar tanto quanto eu te amo?
Quando você vai se convencer? Pois as coisas vão mudar muito rapidamente… todos os cavalos brancos ainda estão dormindo…”
Eu digo: Vou querer tê-lo sempre por perto
e você diz: As coisas mudam, querida.
Nunca mude.
Todos os cavalos brancos…

(Winter – Tori Amos)

3 comentários

  1. Li com prazer o teu blog, onde cheguei por acaso. Gostei. Voltarei. Parabéns! Te convido a me visitar. Grande abraço!


  2. Putz…

    Acho que como Pai.. fiquei.. meio arrasado.
    Me deu vontade de te por no meu colo.

    bj


  3. Nossa me identifiquei com oq vc escreve aki
    Linda maneira de se expressar…

    Tb cheguei aki por acaso



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