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Chinatown é aqui

24 agosto, 2006

 

Eu moro na Liberdade. Sim, mas além do fato parecer incrivelmente poético, trata-se de um bairro, no centro de São Paulo, conhecido por abrigar a maior quantidade de japoneses por metro quadrado do Brasil.

A cidade de São Paulo, inclusive é considerada a maior colônia do Japão, segundo o Museu Histórico da Imigração Japonesa.  

Posso comer sushi a qualquer hora do dia a míseros 10 reais e o dono da padaria daqui não é o tradicional português,  mas o seu Missao que me cumprimenta com um “konichiwa” (a saber: Boa tarde, usado depois das 10 da manhã) todos os dias quando vou comprar pão.

 Todas as manhãs os idosos fazem ginástica oriental na praça, ao som da rádio Taissô. Os letreiros das lojas são todos em “kandji”, como é chamada  a escrita oriental, inclusive os de bancos como Sudameris, Bradesco e Itaú. Outro estabelecimento que empresta charme à Praça da Liberdade é o Mc Donald’s, com seu luminoso e nomes dos sanduíches na língua da terra do sol nascente. 

Os postes de luz também são inspirados nas lanternas japonesas e a cada esquina há centenas de lojinhas e mercearias  que vendem todo tipo de comida asiática: japonesa, chinesa, coreana e até tailandesa. 

Aos domingos acontece a tradicional Feirinha da Liberdade, com barracas de comidas típicas e artesanato. Mas é claro que a grande coqueluche da festa são as lojinhas chinesas de importados (leia-se contrabando) que vendem desde camisetas da Puma a 20 reais, a cortadores de unha da Hello Kitty por 2 reais. O que mais atrai a clientela é a variedade e o preço baixíssimo. Você encontra de tudo, tudo mesmo.

Quer um isqueiro do Pica-Pau? Tem. Quer uma calcinha da Betty Boop?  Também tem. E como se na vida já não bastassem  os inúmeros e malditos indícios de que estou ficando velha, agora existe uma nova safra de produtos com personagens de desenhos animados que desconheço por completo. Um sapo estranhamente chamado por Keropi, uma japa-mau-humorada que namora um ninja com o nome de Puka e mais uma infinidade de animaizinhos e pokemons com nomes engraçados e representações idem capaz de deixar qualquer pai de filhos pequenos irremediavelmente demente. 

 Eu gosto do meu bairro. Talvez só aqui no Brasil japoneses, chineses e coreanos convivam pacificamente e compartilhem da mesma vizinhança. Isso é  muito legal. Mas há cerca de dois anos eu tenho visto coisas realmente tristes por aqui.

Apesar de estar localizado no centro de São Paulo, lugar notório pela violência e pela grande quantidade de mendigos e bêbados que vagam a esmo pelas ruas, o problema do meu bairro não é esse e sim a sujeira. Sempre fui uma admiradora da cultura oriental, li muito sobre budismo, fiz kung fu e tai chi chuan durante um bom tempo e pela culinária então, sou apaixonada , mas vou te dizer uma coisa, nem tudo são “sakuras” no que se refere à regras de higiene e saneamento básico desses povos. Não vamos generalizar, claro. Mas ao menos pelo que vejo por aqui, não é nada assim, de uma limpeza “hospitalar” 

Desde o começo a vida dos imigrantes não foi fácil. E a gente, é claro, dá um desconto. Logo que chegaram, no começo do séc XIX, a exemplo de demais imigrantes como os italianos, passaram a viver em cortiços. Um dos mais tradicionais ficava na rua Conde de Sarzedas, ladeira íngreme, onde na parte baixa havia um riacho e uma área de mangue. Um dos motivos que levou os japas a procurarem justamente essa rua foi o fato de que todas as grandes casas da época possuíam porões, e os aluguéis dos quartos no subsolo eram incrivelmente baratos. Nesses quartos moravam grupos enormes de pessoas em condições de higiene indescritíveis.

Depois de passarem por uma expulsão (no pós-guerra Getúlio Vargas rompeu relações com o Japão e mandou expulsar o povo do bairro da Liberdade, além de proibir a impressão e veiculação de qualquer mídia impressa em japonês) e já atuando fortemente no comercio local, melhoraram de vida, e sujeira e miséria nunca mais! Tanto é que a gente brinca com o fato de que não existe enterro de anão nem mendigo japonês… já viu um? O povo é forte e tem o poder de se reerguer em tempo recorde. A história prova isso.

Acontece que dos anos 80 pra cá, um grande contingente de chineses imigrou para o Brasil e se estabeleceu mais precisamente aqui no bairro. Com eles vieram os contrabandos, (eles dominam a 25 de Março, tirando o lugar dos árabes) a máfia por trás disso (que disputa lugar com a yakuza e a máfia coreana já estabelecidas por aqui anteriormente e que controlam outros tipos de atividades ilegais como casas de jogos eletrônicos, bingos e prostíbulos) e, uma profusão de restaurantes chineses que emporcalham praticamente todas as ruas da Liberdade.

Gosto de comida chinesa. O problema é o seguinte: Os donos dos restaurantes jogam os restos de comida na rua. Simples assim. Atravessam a porta com um panelão na mão, vão até a calçada e: splaft! Jogam os restos de comida ali mesmo, para a alegria de gatos, cachorros, ratos, baratas e seres semelhantes. Não sei se isso é costume na China, estou pouco me importando, até aí também é costume comer comida mastigada pelo chefe da tribo em algumas aldeias africanas, o caso não é esse.

Só sei que já cansei de denunciar essa prática suína para a vigilância sanitária e para a sub-prefeitura responsável, já tirei fotos e mandei juntamente com e-mails inflamados e gigantescos acusando diretamente estabelecimentos, já arrumei briga com metade dos chinas que vivem por aqui e nada foi feito. Nada. Daqui a pouco eu viro recheio de rolinho primavera e vocês nunca mais vão ouvir falar de mim.

Semana retrasada eu voltava sei-lá-de-onde e chutei um rato. Isso mesmo, chutei um rato e fiquei passada. Um rato enorme, uma ratazana preta que saiu correndo e entrou numa dessas casas de jogos eletrônicos abandonada. Voltei para casa com ânsia de vômito e esfreguei tanto meu pé (eu estava de tênis, no qual pensei seriamente em tocar fogo) que quase fico sem sola. As ruas daqui fedem e nos dias de calor a coisa beira o insuportável. Ilha das Flores deve ser agradabilíssimo perto daqui. 

Eu tenho muita vergonha disso. Porque japoneses e brasileiros se esmeraram muito para deixar o bairro habitável. Criaram instituições culturais que preservam a filosofia de vida oriental e a sociedade de amigos do bairro juntamente com a sub-prefeitura e outros órgãos comunitários pretendem fazer uma grande festa para comemorar o bicentenário da imigração japonesa daqui a dois anos.

Para isso estão pensando inclusive em trazer o imperador para conhecer a colônia brasileira. Que vexame seria. (se ele viesse, é claro…o que eu duvido muito) Poderia deflagrar uma guerra! No mínimo um incidente diplomático. Enfim, exageros à parte, só quis usar esse espaço pra botar a boca no trombone e dizer que este bairro não é mais a sombra do que um dia foi. O que no final das contas, é um pequeno reflexo do Brasil como um todo.

Logo as pessoas não suportarão mais tamanha porcaria, o movimento da feirinha aos domingos vai cair e aí o dinheiro vai desaparecer. Quem sabe assim os tais candidatos a vereador comos Woos e Wahs da vida façam alguma coisa, ao menos para mostrar serviço. Até lá, só usando máscara anti-gás e rezando para não chutar ratos enquanto se volta pra casa depois de um dia estressante de trabalho. Irrc!

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22 comentários

  1. PRIMEIRA!!! PRIMEIRA!!!! YYYYYEEEEBBBBBAAA.. Nem li o texto!! Depois leio com calma!

    PARABÉNS E SUCESSO!

    BEIJÃO


  2. Hooray! Welcome back, babe!
    🙂


  3. Que ótima notícia!


  4. eeeeeee!!!!! finalmente voce está de volta!!!! já estava tendo crise de abstinencia de Gabi na rede…. oba oba oba oba!!!!

    adorei amore! muito sucesso!!! te amo sempre!


  5. Ficou uma beleza isso aqui!


  6. divulguei no blog, como você MANDOU.
    :>)


  7. Que jóia, Gabs! Finalmente! Tô feliz aí com seu começo. Ah, e eu adorei o texto. Beijos.


  8. E quando eles não estão com a panela na mão, como você faz para diferenciar os chineses dos japoneses?

    Embora você não tenha me avisado do início do blog, hmpf, estarei aqui todo dia. Adorei o texto. Sucesso!


  9. Gabis, ADOREI seu espaço novo, assim como o texto de estréia! Muita, muita, muita sorte e good vibes!

    ps: Fogo nas Entranhas por acaso é o nome de um livro do Almodóvar? Hm, posso estar caducando, sei lá… anyway, adorei o nome do blog!

    Beijos, Gabs. 😉


  10. Tá chique demais esse recanto novo, sô! 😀 By the way, ótimo post de estréia!


  11. Ótimo texto, Gabi!!! Seja bem-vinda de novo à blogosfera!

    Beijos e até amanhã (me disseram que você vai nos ver 😉 )


  12. Grande reestréia, meu amor!

    Força na peruca!

    Gi


  13. Yuhú, chegou quem faltava!!! E mandou bem na estréia, dear. Beijones.


  14. Eu sabia que voce ia fazer um blog desse bons. Mas eu sabia porque eu sabia, voce nao me disse nada. Fez bem, foi uma bela surpresa. Mil beijos.


  15. Caracaaaa madrinhaaaaaaa!!!! Vc tem a incrível e mortal capacidade de sempre surpreender!!!! SUCESSO!!! Vc tem luz… só falta achar o interruptor!!!! huahuahau… O nome do espaço não poderia ser mais “tradutório” do q este… pode ter certeza!!! Bjim,Má.


  16. Olá!!!
    Muito legal o texto!! Estarei qui todos os dias!!!!

    =0*


  17. Oi querida, parabéns pelo blog. O nome já diz tudo. Virei aqui com bastante freqüência. Beijocas e muito sucesso


  18. Nossa… voce voltou com tudo, e silenciosamente (fiquei sabendo através do blog do Biajoni). Já assinei e voltarei.


  19. Oi Gab, cheguei aqui pela indicação do Bia. Então se você prometeu alguma prenda pra ele tá na hora de entregar 🙂

    Eu adoro a Liberdade. Sempre que posso vou lá para almoçar e depois comer a sobremesa na Bakery Itikyri.

    E olha, o keropi é um personagem bem antigo. Não conta pra ninguem mas eu tenho um cobertor com ele hahaha

    bjs


  20. Quando morava em Sampa, a Liberdade era um dos meus lugares favoritos, pois também admiro a filosofia, a culinária, as artes japonesas. E adoro o bairro. É uma pena saber que está ficando assim.


  21. A Saber –
    Konitiwa – Boa Tarde
    Ohayo Gozaimasu – Bom dia
    Konbawa – Boa noite

    Subarashii blog….

    Um abraço


  22. Olá Gabi,
    Li seu “desabafo” mas não localizei seus dados.. seu nome está onde??
    Sou de Curitiba/PR e pretendo passear na Liberdade em Out/07, é o aniversário de 15 anos da minha filha e ela não quer festa (que legal né?!) mas quer um passei no bairro japonês em SP. Ela estuda a lingua japonesa a dois anos (engaginhando ainda…) e adoramos a cultura japonesa. Poderia nos dar uma dica, roteiro… para podermos aproveitar bastante nosso passaio de 2 dias (sab e dom) será que abre domingo… }desculpe tantas perguntas, aguardo seu retorno, pelo jeito vc é uma pessoa muito prestativa,
    Um grande abraço,
    Noeli



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