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Você está grudado em mim

24 agosto, 2006

 

Houston, I got a problem. Many problems, by the way. Um deles, (talvez o menor de todos) é meu vício em chiclete. Eu masco chicletes o dia inteiro. Minto, o dia não..às vezes extrapola, vai até a noite. Já dormi com chiclete na boca e acordei no meio da madrugada pra jogar fora. Tudo começou quando eu era criança. Meus pais não costumavam me dar doces, então, foi minha própria avó materna a responsável por me apresentar à substância. Me apaixonei instantaneamente. Um verdadeiro mundo de sabores, texturas, possibilidades e brincadeiras se descortinou à minha frente… Logo aprendi a fazer bolas e a competir com os amiguinhos para ver quem fazia a maior. Ganhava várias vezes.

Ganhava também restos de chiclete grudados na sobrancelha e em minha indefectível franja à moda Juruna, que eu usei durante longos anos de minha infância.

Brincava ainda de grudá-lo nos dentes e imaginar que tinha dentaduras coloridas, esticá-lo e depois aos poucos ir chupando o fiozinho, enrolar no dedo indicador…Chiclete tem cheirinho, consistência e estará pra sempre associado ao conceito de infância, peraltices, liberdade…

Minha avó logo percebeu que eu estava exagerando no consumo dessa massa de látex colorida artificialmente e restringiu meu prazer a uma unidade por dia somente. O combinado era sempre depois do almoço, mas como eu não podia esperar de jeito nenhum, consumia logo após o café da manhã, fingia que jogava fora um tempo depois, mas na verdade grudava a massinha em algum lugar da geladeira….pra mascá-la mais tarde. Assim ela durava até o fim do dia…

Meu preferido era o Ploc. Sabor delicioso e forte de tutti-frutti, pigmentos artificiais até a última potência de seus compostos químicos e consistência que ficava cada vez mais resistente com o tempo. No fim do dia eu tinha a impressão de estar mastigando um pedaço de pneu. Era ótimo. Me entretinha. Como a maioria das coisas que eram boas em nossa infância hoje são uma bosta, o Ploc de hoje fica molenga e perde o sabor rápido. Odeio.

No ginásio, como não poderia deixar de ser, escolhi a goma de mascar como tema de um trabalho para a Feira de Ciências do colégio. Para isso visitei a fábrica da Adam’s. O lugar recendia a Bubbaloo de melancia, e logo na entrada do complexo, que ficava em um mezzanino, ao olhar para baixo me deparei com uma gigantesca batedeira que misturava uma quantidade imensa de goma, macia, cor-de-rosa, doce, cheirosa. Pensei seriamente em me atirar de lá de cima.

Um vício se caracteriza e se torna preocupante a medida que começa a atrapalhar sua vida social. Já passei constrangimentos por conta do chiclete. Toda a vez que meu namorado vai me beijar, tenho que dar aquela paradinha estratégica e esconder o dito cujo no canto da bochecha, o que, convenhamos, quebra todo o timming romântico da coisa. Mas a manobra não é nada perto da cusparada urgente na iminência de um beijo preliminar a algo mais caliente…o que acaba tendo o efeito contrário, óbvio. O chiclete também já foi parar em locais estranhos do corpo dele… Não vou me assustar se, num dia crítico, ele se virar e dizer: Há um chiclete entre nós….

Já cuspi chiclete no pé de uma professora. Sem querer, querendo…mas é que fui falar e puff!…lá se foi a goma disforme e babada pairar sobre o bico fino do sapato preto da mulher.

Se você odeia pessoas que grudam chicletes embaixo de cadeiras e bancos públicos, então você me odeia e não sabe (ou sabe, e me odeia por muito mais que isso…sei lá) Só não grudo chiclete em poltrona de cinema. Aí é sacrilégio. Mas grudo em banco de igreja… Porém, raramente jogo chiclete no chão. Grudo em algum papel na minha bolsa pra jogar fora mais tarde…já perdi várias informações importantes anotadas em papéizinhos por conta disso…

Alguém disse por aí que o chiclete é o cigarro das crianças. Elas sabem que faz mal pra digestão, que dá cáries e mais uma série de mexericos, mas continuam mascando.

O chiclete, tal qual o cigarro, também sempre esteve envolto numa certa aura de contravenção, rebeldia, sempre foi ligado ao rock…pode reparar. James Dean mascava chiclete em Juventude Transviada, Elvis idem e as cocotinhas espevitadas da época se apresentavam com sua saias rodadas, os cabelos presos em rabos-de-cavalo e a boca vermelha sorrindo provocante naquele movimento frenético de mascar chicletes. A goma de mascar é praticamente uma instituição americana. Em American Grafitti ela quase faz parte do elenco.

Freud deve explicar, talvez eu não tenha saído da fase oral (o que explica MUITA coisa…), talvez eu seja mesmo infantil, imatura, (e quem acha que não é é um idiota, todos somos. É preciso ser um pouco) ou talvez eu simplesmente só goste de mascar chicletes, oras. Eu não tenho uma só cárie. Iêi!!!

O chiclete me dá sensação de estar fazendo alguma coisa, saca? Mesmo quando não estou fazendo nada. Acho que masco por que preciso que minha boca esteja sempre em movimento (!) por ser hiperativa, necessito que várias áreas do meu cérebro estejam trabalhando simultaneamente e garanto o expediente da responsável pela coordenação motora, com o chiclete….

Já disse aqui: Vou fundar um grupo de apoio para os viciados em chicletes. –Se existem os ‘Devedores Anônimos’, Introvertidos Anônimos e os Dependentes de Sexo Anônimos, porque não um Mascadores de Chicletes Anônimos?

Ploct!

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