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A vida é uma questão de timing…*

26 setembro, 2006

FEDRA
(…)
Eu quereria à vossa frente caminhar.
Fedra, descida ao labirinto só convosco,
Só seria convosco encontrada ou perdida.

HIPÓLITO
Deuses! mas que oiço eu? Senhora, já esqueceis
Que Teseu é meu pai e que é o vosso esposo?

FEDRA
Por que supondes vós que perdi a memória?
Acaso, príncipe, deixei de ser quem sou?

HIPÓLITO
Senhora, perdoai-me. Confesso, corando,
Que ofendi sem razão inocentes palavras.
Minha vergonha não suporta o vossa olhar;
Senhora, eu vou…

FEDRA
Cruel! Ah! Tu bem me entendeste.
Falei bastante claro p’ra que duvidasses;
Ah! Vais conhecer Fedra em todo o seu furor:
Amo. Amo-te. Não penses que neste instante,
Inocente a meus olhos, me aprovo a mim mesma,
Nem que do louco amor que me turva a razão
Cobarde complacência nutra o seu veneno.
Objecto de infortúnio das iras celestes,
Abomino-me mais do que tu me detestas.
As minhas testemunhas são Deuses, os Deuses
Que acenderam em mim fogo fatal à estirpe.
Os Deuses que se gabam da cruel vitória
Sobre este coração duma frágil mortal.
Em espírito, tu próprio, recorda o passado.
Não chegava fugir de ti; cruel, expulsei-te.
Eu quis que me julgasses odiosa, inumana;
E, p’ra te resistir, teu ódio provoquei.
Afinal, que lucrei, com inúteis cuidados?
Tu odiavas-me mais, eu não te amava menos.
Infortúnio de novos encantos te vestia.
Enlanguesci, sequei nos fogos e nas lágrimas.
E, p’ra que o saibas, só precisas dos teus olhos,
Se um momento os teus olhos me pudessem ver.
Que digo? A confissão que acabo de fazer-te,
Indigna confissão, julga-la voluntária?
(…)
Olha o meu coração: fere-o com tuas mãos.
Impaciente já de expiar sua ofensa,
Sinto que sai do peito, ansioso desse gesto.
Vé, fere. Mas, se o julgas indigno dos teus golpes,
Se teu ódio me inveja um suplício tão doce,
Se de sangue tão vil não te quiseres manchar,
À falta do teu braço, dá-me a tua espada.
Dá-ma.

(Texto de Racine (1639-1699) para Fedra, de Eurípedes)

* – Paráfrase sobre uma das maiores verdade que ouvi nos últimos tempos. Frase do personagem Mr.Chow do filme 2046 de Wong Kar-Wai

2 comentários

  1. Muito lindo!


  2. Sempre achei que o episódio do Gênesis evolvendo José com a madama Putifar era uma puta chupada – ops – do enredo de Fedra. Ou é o contrário? Agora esqueci. 🙂



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