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Things to Remember*

27 setembro, 2006

Eles se conheceram num porão negro, sujo e enfumaçado onde era impossível se enxergar um palmo à frente do nariz, a não ser pelo estrobo, que revelava vez ou outra rostos fantasmagóricos tentando desesperadamente se refugiar da vida, de si mesmos, de tudo e de todos, ali, in the shadows.

A trilha-sonora devia ser alguma canção obscura de alguma banda soturna que exagerava nos efeitos climáticos e sintéticos dos teclados dando a impressão de que todos estavam num baile em algum castelo da Transilvânia ou numa cena de Rock Horror Picture Show.

Ela vestia vinil negro, usava uma coleira de tachinhas e coturnos e tinha os cabelos vermelho-cereja curtinhos e espetados para cima. Bebia uma bebida azul muito ruim e extremamente forte. Os olhos estavam pesadamente marcados de negro. Os lábios idem. Ela fugia. Fugiu da turba que se remexia extasiada pela música na pista e resolveu espairecer num lugar mais vazio ou “menos cheio” talvez…algo impossível de se achar ali, especialmente numa noite de sábado.

Resolveu subir até o mezzanino. Velas vermelhas e negras derretidas em castiçais de ferro fundido iluminavam mal e porcamente o local e todos se olhavam e conversavam de um modo incrivelmente blasè, como se mais nada na vida importasse, afinal, estavam todos mortos.

Eram altas horas da madrugada e ela já devia estar meio bêbada. Parou perto da escada que dava para a pista de dança e viu que descer aqueles degraus de madeira toscos naquele breu e no estado etílico no qual se encontrava seria praticamente suicídio. Foi aí que ele apareceu.

Vinha na direção contrária, subindo as escadas. Vestia uma camiseta preta com o nome Bauhaus estampado em branco, calças jeans rasgadas e coturnos, claro. Tinha os cabelos cor de mel escuro, com uma franja longa que cobria seu olho direito…moda naqueles tempos darks.

Estava suado, exausto. Havia acabado de fazer um show…era o tecladista de uma banda queridinha da “cena”, na época. E ela o desprezava por isso. Nunca gostou de lamber botas de ninguém. Odiava os pops, ignorava os famosos. Não seria agora que daria bola para um gotiquinho que se achava o Andrew Eldrich** da periferia. Levou o canudinho aos lábios negros e dirigiu o olhar a ele, despretenciosamente. Ele parou de subir. Olhou diretamente pra ela e sorriu. Seus olhos brilhavam, estavam alertas, transbordando adrenalina eram cheios de esperança e de uma puerilidade difícil de se encontrar naquele mètier de zumbis insolentes. Ela sorriu de volta. Sim, góticos sorriem. Mas só quando estão bêbados.

-Qual o sentido da vida? – Ele perguntou com a voz grave, inclinando de leve a cabeça, tentando dar um ar de seriedade à cantada mais filosófica que já havia passado na vida.

-Não faço a mínima… – ela respondeu rindo, dando de ombros, meio alta, desprendendo de leve o canudinho dos lábios e desarmando-se frente aquele flerte realmente digno de nota.

-Ahh… a gente pode descobrir juntos, o que você acha? – ele completou, piscando e estendendo a mão para ajudá-la a descer as escadas.

Ela sorriu, deu lhe a mão. E não fugiu mais.

Anos se passaram. Eles se tornaram grandes, melhores amigos. Mais tarde, inevitavelmente se afastaram. Amadureceram, passaram por poucas e boas na vida, aprenderam algumas coisas, outras nunca vão aprender, deixaram de pensar que eram descendentes de alguma estirpe de vampiros da Romênia, de vestir só preto e de frequentar lugares que vendiam whisky chamado “Ajax.”

Arrumaram empregos com crachá e seguro social, e entenderam de uma vez por todas que melancolia e rebeldia não pagavam as contas. Mas lá no fundo, nunca, nunca deixaram de sonhar, de gostar das mesmas coisas, dos mesmos livros, das mesmas músicas, de tudo. Inclusive um do outro. Por conta dessas voltas malucas que a vida dá, se reencontraram e ainda hoje, procuram o sentido da vida. E quem aqui, afinal, pode dizer onde está ele? Talvez esteja nisso tudo, baby…talvez esteja nisso.

* (Título de uma música de Peter Murphy (essa aqui, se quiser baixar)

**Líder do grupo The Sisters of Mercy

Esse texto é dedicado a um dos melhores amigos que eu tenho e já tive na vida. Por coincidência ou simplesmente pra provar que o mundo é uma kitchenete, temos o Ina como amigo em comum. E nenhum dos três sabia disso…! (mas não, gente, o Ina nunca foi gótico hauhaha)

Esse texto foi baseado em fatos reais. Foi assim que nos conhecemos de verdade. O blog dele ainda está no comecinho, precisa de uns ajustes e tal. Mas eu garanto que vai ser MUITO BOM.

Bem-vindo à blogsfera… Társis Schwald, seu trevoso do caraco. Te adoro!

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4 comentários

  1. o bom pra mim é que por ter ido ao satã (em 2000) consigo construir as cenas de maneira bem fiel. belo post de boas vindas ao sr. Schwald.

    meu último post é um assunto que tenho certeza vai lhe interessar e divertir. try it.

    beijoca.


  2. A cara ou a bunda?
    ó-te-mo.


  3. Sem pieguice, amigos são uma das coisas mais maravilhosas que podemos ter. E é tão bom quando encontramos alguém assim que tem tudo a ver com a gente! Longa vida a essa amizade que surgiu nas trevas mas é cheia de luz!


  4. Não sei se foi influência do seu post ou dos jornais que ando lendo, mas ontem sonhei com o sentido da vida, e nunca ri tanto.



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