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50 Primeiras Vezes

3 outubro, 2006

A primeira vez que fui aplaudida

Eu tinha quatro aninhos e estudava música na escola da família (sim, parentes do lado da minha mãe foram donos de um conservatório musical por muitos anos).

Era algo do tipo “iniciação musical infantil”, aprendíamos os nomes e as formas das notas musicais que se apresentavam como personagens animados e subiam uma escadinha e depois a desciam, mostrando a diferença entre grave e agudo. A professora também dizia que elas gostavam de ficar “penduradas” num varalzinho de 5 linhas, chamado “pentagrama” e que cada uma tinha seu lugar ali. Umas gostavam de ficar no meio das linhas, outras entre elas. Cada nota tinha uma cor também. Eu particularmente gostava da vermelha (C) da verde (E) e da laranja (G). Não sabia porque, mas me eram agradáveis aos ouvidos.

Havia outros personagens também, notas que determinavam quanto tempo as coloridinhas deveriam ficar penduradas no varal…Eu não entendia a razão dessa medida de tempo. E se elas quisessem ficar ali pra sempre? Qual era o problema? Eu só sei que essas notas tinham milhares de nomes e formas engraçadas e eu não gostava delas porque seus nomes eram parecidos e complicados: breve, semibreve, colcheia, semicolcheia, fusa, semifusa…e eu ficava era cada vez mais CONFUSA. Mais tarde, um pouco mais velha, quando comecei a treinar solfejo então, passei a odiá-las terminantemente. Ódio este que perdura até os dias de hoje.

Bem, éramos um bando de crianças de quatro à seis anos numa sala cheia de instrumentos musicais. E tínhamos uma bandinha.(Minha primeira bandinha!!) Eu toquei chocalho uma vez, na música do Trem. Toquei triângulo também, na música do Pé de Laranja Lima e toquei casca de coco na música do Jumentinho. Mas nunca havia feito uma apresentação solo.

Paralelamente aos ensaios da bandinha, cada criança estudava um instrumento específico e o meu era o piano, por determinação de não-sei-quem em minha família, claro. Lembro-me até hoje de minhas mãozinhas sobre o teclado de marfim e da professora (Tia Mercedes) cutucando minhas costas, porque eu não podia ter uma postura curvada para tocar.

O desafio era me manter altiva, com as costas eretas e as mãos com leveza sobre as teclas, nunca de qualquer jeito, displicentemente. Eu quase sempre me esquecia de todo esse protocolo e Tia Mercedes cutucava minhas costas com uma certa freqüencia irritante, ao mesmo tempo que ajeitava meus pulsos para que não encostassem na madeira do piano. Eu ficava deveras entediada e irritada com tudo aquilo, claro. Sem contar que era total e completamente proibido “martelar” as teclas. Eu devia apertá-las com suavidade, mas com força necessária para conseguir tirar som delas. Era difícil controlar tudo isso. Meu dedinhos eram pequenos e muitas vezes eu não alcançava certas notas, mesmo com a mão aberta.

Lembro-me claramente também de minhas perninhas inquietas balançando sob o teclado acompanhando o ritmo da música. Eu achava divertido, fazia aquilo involuntariamente e de vez em quando me empolgava e chutava, sem querer, a caixa do piano. Aí a Tia Mercedes punha uma das mãos delicadamente sobre minha coxa esquerda indicando que eu devia parar, como sempre. Eu não gostava da aula de piano. Preferia tocar casca de coco na música do Jumentinho. E cantar, claro. Eu alcançava as notas com precisão e era elogiada por isso. Me sentia muito melhor cantando do que tocando. Pelo menos não levava tanta bronca.

Todo o final de ano a escola promovia uma audição com seus alunos, de todos os níveis, uma espécie de prova, para demonstrar às famílias o quanto os estudantes haviam progredido, ou não, durante o curso e dessa vez eu não iria me apresentar só com a banda, mas tocar Frére Jacques numa apresentação solo ao piano.

É óbvio que na época eu não entendia a importância ou a gravidade da coisa, só sei que treinei Frére Jacques à exaustão, tomei muitos cutucões nas costas, inúmeros tapinhas nas pernas e tive meu pulso quase aberto ao longo de algumas semanas, tudo para que a música saísse perfeita. Eu tinha apenas quatro aninhos de idade meudeusdocéu.

Eis que é chegado o fatídico dia. Vovó prendeu meu cabelo abundante e ondulado num rabinho-de-cavalo com um laço de cetim branco no alto da cabeça, pois “é feio cabelo caindo no rosto quanto se executa um instrumento” Ok. Se ela falou, tava falado. Devia estar frio e eu vestia uma cacharel de gola roulet branca e uma sainha jeans com babadinhos com aplicações de laise brancos nas pontas, meias-calças brancas e um sapatinho de verniz, tipo boneca, branco.

Eu odiava meias-calças. Elas limitavam meus movimentos, entortavam e caiam, o que quase sempre me obrigava a interromper o que estava fazendo para puxá-las até o meio da barriga na esperança de que não caíssem novamente em momentos extremamente importantes e decisivos como um Pega-Pega, por exemplo. Um saco. Não vistam suas filhas dessa idade com meias-calças. É bonitinho mas é um saquinho. Elas vão odiar. Lembrem-se disso.

Fiquei lá nos bastidores, enquanto outros alunos se apresentavam, esperando minha vez. A mestre de cerimônias apresentava os alunos: Frederico-num-sei-quem toca a Sonata numero tal em Ré Maior de Johann Sebastian Bach para cravo. Fulana de tal toca Debussy na harpa, Cicrano da Silva toca Dvorák no oboé e Gabriela, toca Frère Jacques ao piano.
Era a minha deixa. Eu deveria atravessar o palco e me dirigir ao piano grande e negro, do outro lado. Porque diabos o tinham posto tão longe? Arranquei novamente aqueles gemidinhos idiotas de ternura da platéia, pois (ok…tenho que pedir para pararem com as mesmíssimas brincadeiras, mesmo?) a diferença de tamanho entre eu e o instrumento era gritante e, de alguma forma, todos acharam aquilo lindo, maravilhoso, estupendo e gracioso.

Havia sido previamente alertada para que, assim que chegasse, regulasse a banqueta e assim o fiz, o que foi muito difícil, pois ela era dura e devo ter soltado alguma reclamação em voz alta, novamente arrancando risos da audiência. Não, naquela época eu ainda não falava palavrão. Ainda. Deve ter sido um inocente “ai, que coisa!” ou algo do tipo.

Respirei fundo e tentei subir na banqueta com classe, mas infelizmente isso não foi possível.
Ela era bem mais alta que eu e tive que pôr minha perninha sobre o banco de couro, apoiar minhas mãozinhas tentando me equilibrar e só então me ajeitar, frente ao piano. Novamente aqueles grunhidos na platéia. Aquilo estava começando a ficar ridículo.

Olhei o teclado e sorri. Estavam lá, durex coloridos (indicando quais eram as notas que eu deveria tocar) em cada tecla. Mas eu sorri porque eu sabia a música de cor, não precisava daqueles durex idiotas. A luz diminuiu e sobrou apenas um facho diretamente sobre mim.

Estendi os bracinhos com leveza sobre o teclado, os dedinhos posicionados estratégicamente sobre cada tecla, ajeitei as costas (fiquei feliz por ter me lembrado disso) levantei de leve o queixo e comecei a tocar a incrível, maviosa e grandiosa obra, Frére Jacques, do folclore francês. Toquei no tempo certo, as notas certas, em cânone, como havia treinado durante todos aqueles dias. Não me importei de estar diante daquele povo todo, nem me lembrei deles na verdade. Vovó estava lá, meus tios, tias. Queria tocar para eles. Meu primo estava lá. E eu queria mostrar pra ele o quanto eu havia evoluído enquanto ele ainda tocava triângulo na música do Pé de Laranja Lima.

Terminei e retirei rapidamente as mãozinhas levando-as aos joelhos. Tive uma certa dificuldade para “descer” da banqueta, quase caí e, na tentativa de me equilibrar, inevitavelmente acabei metendo a mão no teclado do piano extraindo um som um tanto dissonante, algo como – “plãimmmm”… – o que deve ter passado batido ou sido encarado como o grand finale, porque as palmas vieram logo depois.

Também havia sido previamente advertida a me dirigir à beira do palco durante os aplausos, olhar para todos e me inclinar de leve, em agradecimento. Fui e fiz exatamente conforme o combinado. Gostei daquilo. Todos batiam palmas, pareciam felizes, os sorrisos eram largos, alguns meneavam a cabeça comovidos e eu sorri também. Gostei daquilo. Não queria mais sair de lá. Me fez sentir muito bem. Devo ter feito tudo certo, enfim. Se fosse para receber todo aquele agrado a cada apresentação que fizesse, talvez parasse de achar as aulas de piano tão chatas. Só sei que fiquei levemente viciada naquela sensação, de recompensa, de reconhecimento pelo esforço despendido em prol da arte (Frére Jacques também é arte, oras)….até hoje.

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5 comentários

  1. Sabe o que adoro em você? Essa capacidade de rir de si mesma. Esse jeito gostoso de contar suas coisas como se fossem uma fantasia. É muito bom te ler…
    Beijos


  2. Uma história fofinha de glória infantil. Gostei.

    Só corrija um “tantando” que tem aí pelo fim. E pare de saracotear com as pernas, guria!


  3. Eu tenho poucas recordações da minha infância… sempre fui meio esquecida mesmo… Mas acho que a primeira vez que fui aplaudida foi quando dancei uma musica da Emilia no jardim alguma coisa… É aquela musiquinha assim: “ela é feita de pano, mas pensa como um ser humano”. Nunca gostei de subir em palcos!


  4. Mais uma estória deliciosa! Me lembrei do meu recital de declamação ( sim, isso existia). Se um dia eu tiver um blog, escreveo a respeito.


  5. clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap clap



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