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Epifania

12 outubro, 2006

Não fuja. Não fuja dos sentimentos. Sejam eles quais forem. Bons ou ruins. Porque eles são a única coisa que realmente valem nessa vida.

Tua casa, tuas roupas, teus bens, teu status, teus títulos e diplomas, tudo o que você conquistou ou tudo o que lhe foi dado, não importa. Tudo vai acabar um dia, vai ser repassado, vendido, carcomido, vai virar pó, vai ficar ultrapassado, vai virar espólio. As pessoas e criaturas que você ama, teus amigos, tua família, teu cachorro, teu gato, tua tarântula de estimação, tuas plantas, tudo vai ter um fim.

Tratam-se de seres vivos e seres vivos estão sempre em movimento, de um modo ou de outro, quer você queira ou não, quer você aceite isso ou não, quer você perceba ou não, quer você entenda ou não. Seres vivos morrem, adoecem, padecem, mudam. Vão embora. E sentem. Portanto, se você é um ser vivo, aja como um: sinta enquanto é tempo. Sinta tudo a sua volta ao máximo, pessoas e coisas, enquanto ainda detiver a doce ilusão de possuí-las, enquanto ainda estiverem próximas a você.

Sinta seus odores, bons ou ruins, a textura de suas peles, de seus pêlos, de seus cabelos, a falta deles, a curva de seus lábios, de seus ombros, a forma de seus dedos…repare no brilho de seus olhos, nos movimentos de seus corpos, no arqueamento dos cílios…observe quando andam, quando se deitam, quando correm, quando dormem….ouça a ternura de suas vozes, o timbre diferenciado de seus sons…do latido, do miado, do gemido, do suspiro, do grito, do sussurro, do choro.

Prove o gosto único da saliva, da lágrima, do gozo, do suor… sinta o doce calor do bolo quente, o salgado sangrento da carne, o amargo abrasador da bebida o ácido corrosivo da fruta.

Deixe que o vento desarrume os cabelos, bagunce a roupa, espalhe os papéis, abra as janelas, feche as portas, desfolhe as árvores, levante telhados, derrube objetos… ouça o que ele diz, as coisas que ele traz de tantos lugares diferentes e inimagináveis os quais talvez você nunca, jamais poderá visitar…repare como ele também se movimenta..às vezes com doçura, às vezes com fúria. O vento também sente. Sinta-o de volta.

Ame. Ame, ame, ame. Perdidamente, loucamente, intensamente, com todas as suas forças. Apaixone-se. Encante-se. Enleve-se, Maravilhe-se. Iluda-se. Voe. Flutue. Doe-se total e incondicionalmente. Sorria. Gargalhe. Embriague-se. Impregne-se. De bebida, de amor, de prazer, de alegria, de amizade, de contentamento, de orgulho, de bondade, de júbilo, de existência. De momentos.

Odeie. Pragueje, esmurre, destrua, queime, arda,absorva, xingue, amaldiçoe, abomine, execre, deteste, grite, brigue, esbraveje. Expurgue. Consuma-se até não sobrar mais nada disso em você.

Entristeça-se. Chore. Queixe-se, lastime-se, reclame, deplore, constranja-se. Perca-se de si mesmo. Mergulhe no lago glacial da angústia…aquele que fica no poço escuro da auto-comiseração. Vá até o fundo. Fique ali, imerso, estático…entre em apnéia.

Feche os olhos… tenha vontade de morrer. De nunca ter nascido. Lamente. Por ter tentado, por nunca ter tentado, por ter ido, por nunca ter ido, por ter conhecido, por nunca ter conhecido, por ter se envolvido, por nunca ter se envolvido, por ter escolhido, por não ter escolhido, por ter feito, por não ter feito, por ter falado, por não ter falado… arrependa-se. Do que fez, do que não fez, do que poderia ter feito…. Sorva seu próprio veneno.

Envergonhe-se. Olhe nos olhos da desilusão, ouça o riso sarcástico da impotência, resigne-se com a indiferença da total falta de controle sobre tudo e todos, sobre si mesmo… e pranteie. Pranteie até desfalecer.

Olhe para a casa vazia, a cama vazia, a vida vazia, o coração vazio a alma vazia e encha-a, encha-a de melancolia, de desgosto, de decepção, de revolta, de confusão. Entranhe-se. Estranhe-se. Feche-se. E purgue, expulse tudo isso de sua alma. Vomite. Expie. Limpe-se. Purifique-se, como num batismo…e então, VOLTE.

Volte…volte… nade aos poucos para a superfície…porque você precisa de ar, de luz, porque já não é mais a mesma pessoa e as coisas já não são as mesmas. Porque seu tempo ali acabou, como tudo acaba um dia. Nade, esforça-te…ponha a cabeça para fora… Aspire! Inspire! Grite. Encha os pulmões de ar até senti-los doer. Você está vivo, afinal. Está de volta e pronto para encarar tudo de novo…Isso é viver. Isso é sentir. Isso é ser… humano.

No dia quem você passar para o outro plano, morrer, vestir o terno de madeira, ir pro céu, pro paraíso, para a luz, virar poeira, desaparecer, ir pro inferno, pro sheol, pro valhalla, desencarnar, sabe-se lá-no-que você acredita ou não acredita, não haverá nada terreno ou material que você poderá levar, NADA. Você vai exatamente como veio. Nu, em todos os sentidos. Exceto por sua alma.

E ela é o templo dos sentimentos. O baú onde eles estão guardados. É isso que vai sobrar, no final.

As lembranças, a experiência. O que ficou registrado de tudo o que viveu. O que fez sua vida valer a pena. O que vem depois disso ou o que você vai fazer com isso é outro assunto…e eu sinceramente não sei, nem me preocupo muito. A única coisa que gostaria de dizer é apenas: sinta.

“Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento” – Clarice Lispector

(Texto de Out de 2006 – Mas é atemporal – Feliz Natal e Ano Novo)

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26 comentários

  1. PORRA! PORRA!!!!! Vomitaste como eu não saberia! Tá muito Gabi, obrigada por escrever pra eu poder ler.

    Beijo.


  2. Uau! An epiphany indeed! É a fotografia de uma chama ardente. Surge, aquece, ilumina e um dia vira cinza. Obra prima.


  3. Eu queria viver o entendimento. Humpf…


  4. Absolutamente perfeito! Conseguiu resumir em algumas linhas de um post TODA a filosofia de vida que levei 30 anos para encontrar. Te amo!


  5. Esta é a nossa garoouuta!! 😀

    Sem palavras. Arrasou. Lavou minha alma. E não foi numa máquina de última geração e com Omo Progress não… foi na mão mesmo, ali, na beira do rio… alma bem lavada e agora exposta à garoa fina que cai em Sampa. Uma hora ela seca.

    Com o perdão das palavras idiotas, por aqui fico.

    Beijo, Gabs.

    ps: minha mãe adoroooou você! 😀


  6. Nossaaaa…


  7. ai gabi.
    obrigada por essa feladaputice.
    tanta gente precisando ler isso.


  8. gabs,
    viver é sentir tudo intensamente…
    e a frase da clarice pra fechar foi simplesmente perfeita… adoro ela… e adoro vc tbém!


  9. Lindo, Gabs…


  10. Esqueci de dizer que esse texto é a sua cara, Grandona. 😉


  11. Ler esse seu texto numa manhã melancólica e nublada ouvindo aquela versão de Hurt com Johnny Cash que você indicou com Jack Daniels on the rocks e um video de time lapse passando por trás da página é uma experiência indescritível. Sempre que volto leio inteiro. Adoro quando você escreve assim, com a alma.


  12. Vou mandar isso para uma pessoa, se me permite… Obrigada. E você sabe pq estou agradecendo.

    Beijos


  13. […] Update: Num claro sinal de zeitgeist (ou de que eu não faço idéia do que seja zeitgeist), a Gabs escreveu uma rica epifania. Gabs tem andado muito mais inspirada que eu… […]


  14. Olá. Lhe ví na página do Inagaki, no orkut, e cliquei na sua foto pela semelhança com a Bjork. Então ví o link para este blog. Não foi novidade. Eu já conhecia. Muito bom, aliás. Serei mais frequente. Au revoir.


  15. não, não, não, tudo isso não funciona. É propaganda falsa.


  16. Parece que mais alguém nesse mundo descobriu que o valor está no fim e não nos meios. Se bêbo, é por que quero sentir algo novo, diferente e que difícilmente está acessível quando sóbrio. Se desejo aquela gostosa, quero sentir todo o glamour que lhe foi dado, glamour que não tenho ou não provei ainda. Se quero dinheiro, não é a visão de peixes, onças, micos e outros na minha carteira que me faz sentir poderoso, mas sim o que esses bichos se transformam a cada momento de curiosidade por novos sentimentos ou reprises.
    Sim, eu quero sentir. Infelizmente os meios são limitados, pelo mesnos aos preguiçosos mentais, dependentes, pessoas sem atitude e criatividade.


  17. Oi Léa

    Isso não é propaganda. É minha opinião.

    Dê um tiro na cabeça, talvez funcione. Isso sim,te garanto que não é propaganda falsa.


  18. Qualquer opinião expressa é propaganda. Se será falsa ou não depende da sorte e copetência de quem aplicar.


  19. […] Epifania, por Gabi Franco […]


  20. Não concordo, Nando. Opinião é o direito de se expressar. Não tô tentando convencer ninguém a adotar meu modo de pensar e nem atestando por A+B que o meu modo é o certo e portanto deve ser adotado. Isso sim, é propaganda.


  21. Sabe quando a gente lê um texto e pensa: putaqueopariu eu queria ter escrito isso?
    Então, com esse foi assim. Tô babando.:)


  22. Maravilha! É um tóin na cabeça logo ao acordar, mas valeu. Muito. Obrigada. É bom ler o que a gente sente mas não sabe expressar tão bem como tu.
    Beijo.


  23. Achei curioso o título “Epifânia” para esse texto.

    Espero que “esses instantes que nos traem no caminho rumo ao sol (Ian Curtis)” sejam explicados algum dia.

    Mas se não forem…. 😀

    T§ – adoro vc.


  24. Não procure explicação e sinta. É isso.


  25. Oie é… Gabi né? Podes me dizer se o texto é de sua autoria? Gostei mto, queria copiá-lo, mas dar os devidos créditos. Poderia responder-me e informar-me seu nome completo? Bjos… Carol*.*


  26. […] já escrevi sobre curtir a intensidade dos momentos e fases da vida no texto “Epifania”…aliás, ele é o recorde de views aqui no […]



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