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Dura lex sed Panex

15 novembro, 2006

 

Eu odeio televisão. Sério, odeio. E esse ódio tem raízes justamente no fato de eu ter trabalhado no meio, como produtora, tradutora e legendadora de séries e filmes e diretora de dublagem durante um tempo razoável de minha vida.

Como legendadora, eu era obrigada a assistir ao aparelho por mais de 10 horas por dia. E a época que trabalhei como produtora foi, de longe, o período mais workaholic sem noção que já experimentei, mais até do que trabalho em jornal diário. E olha que esse último é MUITA pauleira. Não tinha tempo para absolutamente nada além de trabalhar. Comprometi minha saúde e minha sanidade mental (essa eu nunca possui em grande quantidade, mas, enfim) e talvez por isso eu associe televisão à escravidão, afinal. Até rima, olha aí.

Escravidão, indução, persuasão, manipulação, imposição, coação, obrigação, sujeição…tudo isso eu associo à televisão. É claro que poderia incluir na lista palavras como “diversão” e “informação”, mas consigo me divertir e me informar por outros meios, e no entanto…Adoro séries e filmes, claro, mas por isso mesmo evito me deixar dominar por eles. Séries eu vejo de vez em nunca (sim, eu não fui contaminada por LOST…a última vez que fiquei fatalmente viciada foi com X-Files e Millenium dos quais sou fã até hoje) e  quanto a filmes, prefiro alugar DVD ou ir ao cinema, minha grande paixão (se bem que Telecine Cult é tudo de bom…) mas, chega de filosofia de boteco.

Toda essa introdução foi só pra falar que, em meio a um intervalo necessário de trabalho, para aliviar minha cabeça e pôr meu cérebro de molho, resolvi sair da frente do computador e me jogar no sofá por 15 minutos para assistir televisão. Mal sabia eu que ao invés de me relaxar tal decisão teria o efeito contrário.

Primeiro, porque minha mãe está sincera e tristemente adicta em programas de culinária. Não aguento mais. Preciso ter minha casa novamente…NOW!, Como bem diria Jack Bouer. Segundo, porque a maioria dos programas sobre o assunto na TV aberta ( pior, ela estava assistindo TV abertaaaa!) são grosseiramente MAL-FEITOS e eu, como cri-cri perfeccionista e profissional do meio, inevitavelmente presto atenção a TODOS OS ERROS e até no que não é necessariamente erro… trocando em miúdos, é um inferno.

E terceiro, porque essa merda de País é extramente machista. As mulheres aqui são machistas…O que tem a ver uma coisa com outra? Explico.

Tudo começou com um comercial de panelas. Até ai, tudo bem, intervalo de programa de culinária, nada mais marketeiro e conveniente do que um comercial de panelas, mas o problema não foi esse. Abre: o dito cujo mostrava cenas de várias donas de casa frustradas usando frigideiras velhas com teflon vencido. Num rompante de revolta, todas elas saem de casa e lançam as frigideiras na caçamba de um caminhão de lixo que eventualmente cruzava as ruas do condomínio fechado e perfeitinho onde moravam, no melhor estilo Desperate Housewives. Corta: Inserts de cenas demonstrando a performance de frigideiras da marca em questão, com seu teflon perfeito e duradouro. Corta: logotipo da marca, uma menininha em plano aberto, usando um vestidinho e trancinhas e segurando uma frigideira, seguido do grand finale, em off: “Panex, uma nova geração de panelas para uma nova geração de mulheres”. Fim.

Fiquei revoltada. E olha que não sou feminista, já falei: o feminismo é coisa de mulher mal-comida. Mas fiquei revoltada porque o comercial está simplesmente fora da realidade das grandes metrópoles brasileiras do séc XXI que, creio eu, seja o público-alvo do produto. 

No comercial só havia mulheres. Hoje em dia sabemos que a coisa não é bem assim. Os homens também cozinham, também compram panelas, também se revoltam por essas panelas serem de má-qualidade, também decidem se tal marca é melhor do que outra, também são donos de casa, criam filhos sozinhos e mais uma série de outros papéis que antigamente cabiam só às mulheres.  Mas o mais revoltante, pra mim, no caso, foi o slogan escancarado e paradoxal: Uma nova geração de panelas para uma nova geração de mulheres? Que porra é essa? Nova geração de mulheres que continua fazendo exatamente o que a geração passada fazia? É o fim da picada, vai dizer? E pior é que um filme desses passa por uma equipe enorme para ser aprovado e veiculado…será que ninguém atentou pra isso? Burrice, incompetência profissional, preconceito e falta de criatividade, tudo em dois minutos, só pra você!

Conclusão: decidi desligar a televisão e voltar pro trabalho.

Updêite: Quer ver outro exemplo de idiotice em massa? O comercial das Tintas Coral.

Ele mostra um casal, em seu quarto, com um bebezinho que brinca com um controle remoto em cima da cama. Sem querer, de repente o bebê aperta um botão do controle e o quarto escurece, cortinas se fecham, uma música de motel começa a tocar e a cama (redonda) começa a girar. O bebê morre de rir, claro, e os pais fazem aquela cara de “Ihh e agora?” – Aí o narrador diz que mudanças são necessárias na vida e as Tintas Coral fazem parte dessas mudanças. De repente o quarto ganha tons pastéis, uma cama normal (retangular) e os pais brincam candidamente com o bebê sobre ela.

Razão da revolta: Sim, eu sei que quando os filhos nascem muita coisa muda na vida do casal, inclusive a a rotina sexual, mas porque deixar a coisa descambar? A “peteca cair”? Não vejo relação alguma, sério.

Moral da peça: Quando os filhos nascem fica-se assexuado não se pensa nunca mais em sacanagem e vira-se um careta porque não se transa mais, agora somos “pais” = gente chata e estressada. Ponto.

É ou não é lavagem cerebral de falso moralismo? Depois a galera se pergunta o que deu errado na vida, no  relacionamento, na criação dos filhos…  de repente, me surgiu uma outra idéia de frase célebre para estampar camisetas:

“Dá pra fazer diferente”  É uma máxima. Serve pra tudo.

15 comentários

  1. Altamente justificada a sua revolta!

    Também vi esse comercial e achei muito estranho. Até mesmo porque os homens hoje estão tão interessados em cozinha quanto mulheres.

    E, digo mais, eles são mais perfeccionista que as mulheres com relação ao que usam na cozinha. Tenho amigos que vão pra cozinha no final de semana e fazem coisas fabulosas, gostam disso. Assim como conheço diversas mulheres que não suportam e não vão pra cozinha.

    Precisamos é mudar logo a geração de panelas!


  2. Ah! eu tb achei o fim da picada. affff.

    quanto a propaganda da Coral, é isso mesmo. Por isso que a maioria reforça essa opinião cada vez mais zoada de família. Infelizmente isso acontece muito. A troca da vida de casao pela vida de pais. Afe, haja terapia.


  3. Essa propaganda da Coral é terrível.


  4. Gabi, quando vi a propaganda da Coral, pensei: “eu não tô vendo isso. Isso não é verdade”. Mas era. Fiquei boba com aquela escrotice toda.

    Mas quer saber? Aposto que, assim como a gente achou a propaganda uma tosqueira, muita gente achou bonitinha. E aí fico preocupada. Com relação às peças que mostram a mulher como “rainha do lar”, também fico pensando se não há muita gente com essa mentalidade ainda. Acho que sim, mas espero estar errada.

    Já li até texto de escritora badalada do momento louvando a força e a coragem da mulher de jornada dupla. Pelo que vejo por aí, apesar de a mulher trabalhar fora e tudo, ainda existe essa coisa de que cuidar de casa é pra mulheres. E o mais doido e doído disso é que elas se acham, ainda que vítimas, também heroínas porque conseguem cumprir a jornada dupla, tripla… Não pensam que, dividindo as tarefas com o homem, cada um fica com uma jornada e meia de afazeres profissionais e caseiros, e com mais uma jornada inteira para a diversão e o prazer. Tem muita mulher que vem com aquela: “homem não leva jeito pra trabalho doméstico. Se eu deixo ele passar roupa, fica tudo horrível!” Eu fico pensando se não é uma forma de vaidade essas das trabalhadoras de dois ou mais turnos. Vaidade não faz as pessoas morrerem de anorexia como aconteceu com aquela moça novinha que tá aí na mídia? Pois então. Vaidade também faz as mulheres virarem burras-de-carga que, depois de um dia inteiro de trabalho, ainda acham bonito passar, lavar, cozinhar…

    Beijão pra você. Tô com saudade.


  5. E os imbecis pensam que ficaram sutis com o tempo. Que as técnicas de persuasão se sofisticaram e toda essa bobagem. Claro, talvez o grosso do público possa não perceber, mas ao tentarem serem mais “subjetivos” em seus conceitos tradicionais e sua moral provinciana burguesa de m**** só deixa ainda mais flagrante sua hipocrisia. Que lhes é inerente assim como tudo mais.

    A sociedade tem que fingir que não é mais preconceituosa, que compreendeu o papel da mulher, que aceita os homossexuais, que as novas formas de família foram metabolizadas, que não existe racismo, etc. Pouca coisa mudou. Seja neste aspecto, seja em outros. Seja aqui no Brasil seja lá fora.

    Aqui, ainda pior. Porque, como dizem, de Império para República pouco se alterou. Como Machado de Assis ilustrou, a Padaria “Império” apenas mudou o nome, trocando a placa para “República”. O resto permaneceu grotescamente igual. Os valores, os costumes, os preconceitos, as oligarquias.

    Filmes, novelas e propagandas, dentre outros, são apenas a parte mais visível desta porcaria toda. Está aí.

    “È o fim do mundo, como nós sabemos”. Mas o conhecimento é uma maldição. E quem o tem, não há como voltar atrás. E, ao contrário do Michael Stipe, eu não me sinto muito bem. Resta o niilismo, que resolve muita coisa e evita muitas dores. Mas, no fundo, tudo é muito menos simplista do que gostaríamos.
    Abraços,


  6. Concordo com o que você disse mas acho que a (má)qualidade dos programas de TV não está relacionada com o a das propagandas. Até porque temos algumas peças maravilhosas.
    Essa da Panex foi um tiro no pé!


  7. 1 – Que medo, a Panex ainda EXISTE?
    2 – Programas de TV nas tardes brasileiras? Prefiro fazer tratamento de canal.. é bem menos sofrido.
    3 – Filhos atrapalham a vida sexual de um casal, pode apostar.. se vc sabe como reverter isso.. sou capaz de pagar pra ver… ¬¬

    bj


  8. Realmente a televisão caiu subtamente de nível.
    O que muito bom pois faz com que lemos textos bons quanto os seus e faz com que vejamos mais dvd´s e filmes.
    O machismo realmente continua e acho que não por culpa dos homens!

    ;**


  9. Társis. Vc viu a frase que quero estampar na camiseta? Quer uma? Mando fazer.

    Nem precisa pagar pra ver, baby…te mostro de graça mesmo.


  10. Errrr… O que é televisão mesmo, é de comer????


  11. “Pacta sunt servanta” – Homem lavando louça??? Tá maluca??

    Homem não pode lavar a louça porque, invitavelmente, acabará rebolando com o esfregaço circular da bucha na panela.

    Aliás, homem que é homem só bebe cerveja no bico. E se for brindar, que o faça com a fundo da garrafa (brindar com a boca da garrafa é perigoso. Pode ser que as salivas se encontrem, e aí seria como um beijo). E cortar as unhas só com os dentes.

    E tenho que ir. Mandar a Olivia esquentar a janta se não hoje eu não como…

    😉


  12. Por sorte eu fico sabendo disso somente por aqui. E isso é um prazer triplo, senão mais.


  13. Pensei exatamente a mesma coisa quando vi o comercial das panelas…


  14. Eu trabalho com publicidade e acho que não é bem por aí.


  15. Você só está indignada porque viu televisão. Não veja, não morra de raiva – eu nem tenho tv, vivo feliz. Acho que as mulheres estão dançando nesta de fazer tudo. Minha sugestão é que usemos os úteros para o que existem. Ao invés de exigir salários iguais devemos ficar em casa, subvencionadas pelo governo, recebendo 3 mil dólares para simplesmente gerir o lar: veja bem gerir. Para isso precisamos de um homem que sustente a casa – e precisamos de babás, enfermeiras, faxineiras, cozinheiras (que também terão suas auxiliares em suas respectivas casas) e simplesmente eduquemos os filhos. Que terão mães e não loucas desvairadas preocupadas com as contas. Que, por terem pai, mãe e subvenção do governo (ao invés de dar lucro para especulador estrangeiro e subsídios para paradas estranhas) serão felizes sem violência etc. Acabem com a televisão e acabem com o feminismo e o mundo será feliz aposto.



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