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La vérité

14 dezembro, 2006

Duas e meia da manhã e eu aqui. Isso não  é lugar para uma moça… ok, soou como algo que minha mãe diria, mas tudo bem. Estou sendo generosa comigo mesma usando o termo ‘moça’, claro. Há um espelho na minha frente, e apesar das muitas garrafas coloridas encostadas nele ainda consigo ver meu reflexo. Envelhecido. Patético. Triste. Sorrio torto e levanto um brinde a  mim mesma.Viva a decadência! Tim-tim.

O barman está absorto assoviando uma melodia idiota e enxugando copos. Vira e mexe enche o meu com mais uma dose sem perguntar nada, sem ao menos me olhar na cara. Ele sabe o que quero e preciso, vem e me dá. Não me deixa faltar nada, absolutamente nada. Não torra meu saco com conversinhas sobre o tempo ou futebol  nem vem com aquelas cantadas vergonhosas e deprimentes que dão vontade de vomitar. Não. Ele chega, olha meu copo, enche e volta a pegar o pano de louça. Não trocamos palavra. É, com certeza, a melhor relação que já tive na vida.

Esse lugar é como minha casa. Eu o freqüento já há um bom tempo. Nas noites de quinta e sábado acontece o baile da terceira idade. Adoro ver a felicidade no rosto dos velhinhos. Eles têm uma certa ingenuidade, ou vai ver é uma espécie de sacanagem light, daquelas inofensivas, do tipo que não existe mais no mundo.

Fico aqui, braços cruzados sobre a ponta esquerda do balcão forrado de couro carcomido, bebendo e observando a entrada dos velhacos. Eles invadem o recinto faceiros, sorridentes, excitados feito pré-escolares em dia de excursão.

Os homens chegam com seus chapéus panamá, calças de tergal vincadas, bocas arreganhadas mostrando as dentaduras frouxas ou os dentes de ouro, e as senhoras com seus vestidinhos de jérsey, excesso de rouge nas bochechas e grandes brincos pesando nos lóbulos moles das orelhas.

Parecem querer continuar a viver só para aproveitar momentos como esse. E ainda por cima agem como adolescentes contraventores, comprando Viagra escondido com o barman como se fossem comprimidos de ecstasy. É divertido.

Me enternece ver tanta energia, alegria, esperança. Me impressiona pensar que talvez eles sejam duas ou três décadas mais velhos do que eu e no entanto possuem muito mais vontade de viver…

Estendo o copo para o barman…

Durante os outros dias da semana é tudo a mesma coisa. Um lugar fechado, escuro, cheirando a mofo e álcool, não muito bem frequentado, com bebida barata e música brega. Mas gosto daqui…me parece confortável. Acolhedor seria a palavra exata.

Eu poderia estar em qualquer outro lugar. Poderia estar aprendendo alguma coisa, fazendo algum curso, pintura em porcelana, linguagem de surdo-mudo, sei lá… poderia fazer um trabalho voluntário, cuidar de pessoas tetraplégicas, trocar fraldões e garantir meu lugar no céu, se é que existe um. 

Ou poderia estar em casa, lavando, passando e limpando, dando comida pro gato e vendo “A Tarde é Sua, com Maria Dulce” na TV, recebendo minha aposentadoria e gastando-a  inteira na compra de remédios e sopas de saquinho. Eu poderia. Mas não estou.

Estou nessa poçilga, enchendo a cara, inchando, aplacando minha amargura, sedando minha consciência, destruindo meus neurônios…tentando te apagar da memória. Porque você está gravado em cada uma de minhas células. Está imerso em cada poro da minha pele. Seu gosto está preso em cada uma de minhas papilas gustativas e seu cheiro impregnado em minhas narinas.

A verdade é que eu deixei você me destruir quando partiu. É isso. Não consegui, lutei e perdi, me deixei dominar e mergulhei num poço sem fundo…essa é a verdade.

Clichê até medula. A vida é estupidamente clichê, por vezes… A verdade está nos clichês.

Escolhemos ou somos escolhidos? O corpo domina a mente ou a mente domina o corpo? Temos mente? Temos corpo? Algo nos pertece de fato? Qual é a verdade, afinal? Existe uma? Várias?

A verdade… a verdade…a verdade está entre o décimo quinto e o trigésimo drink….

 E eu preciso descobri-la….

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7 comentários

  1. O problema é que entre o décimo quinto e o trigésimo quinto copo você já não tem habilidade nas pernas pra correr atrás da verdade, lhe agarrar o pescoço e meter uns quatro socos consecutivos sem dó nem piedade… por isso tantos tomam tanto, procuram se acostumar com o álcool, pois assim, um dia, eles conseguem pegar a safada de jeito.


  2. A verdade está nos clichês. Acho que vc tem razão. Nem sei se isso é bom, mas esse texto é um dos melhores que já li. Parabéns… 😉


  3. Foda.
    Reconforta pelo menos ter algum vício à disposição.


  4. Se a verdade estiver depois do 15º copo, vou viver pra sempre na mentira…


  5. Lindo, Gabs! 🙂


  6. é…eu já havia te dito que esse texto ficou um máximo!

    ;DD


  7. Eu tmb, e vc nao acreditou! Chata!!!!! 🙂



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