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Memento Mori

16 janeiro, 2007

Outra manhã em São Paulo. O tempo é aquela coisa indefinida: não chove e nem faz sol, de vez em quando um pé de vento desarruma os cabelos, você nunca sabe se leva blusa ou sai só de camiseta, se leva guarda-chuva ou se arrisca a voltar ensopado, se o trânsito vai atrapalhar sua vida ou se finalmente vai conseguir chegar a tempo ao trabalho. Por mais que todos os dias pareçam iguais, tudo pode acontecer.

Abigail acorda cedo. Hoje vai ao médico, o que é um evento, pois nunca sai de casa. Gosta de supervisionar e dar pitacos na faxina de Lurdes, sentar-se frente à televisão e acompanhar as receitas de Ana Maria Braga e o jornal do meio-dia, enquanto tricota uma malha interminável para o filho e reclama da política brasileira.

De vez em quando troca meia hora de prosa com a vizinha, Dna Guiomar, mas na verdade a acha muito futriqueira e intrometida.

A consulta é um check -up, com  Doutor Afonso, em seu consultório em Pinheiros. Ela gosta de Afonso, é um bom menino e a trata com muito carinho e atenção há vários anos.

-Parabéns Dona Abigail, 76 anos e uma saúde perfeita! Não há nada de errado com a senhora, está tudo como deve estar nessa idade. Só continue atenta à diabetes e ao colesterol, sempre. Logo logo e a senhora chega aos cem!

Sai do consultório tranquila, apesar da cidade fervilhar à sua volta. Observa e sente os elementos urbanos da megalópole infrene: prédios altos, pessoas correndo de um lado para outro, as parcas e mirradas árvores, o barulho constante do enorme canteiro de obras, ao longe.

Era tudo diferente em seu tempo de menina. No entanto, orgulha-se por estar viva, por ter vivido e sobrevivido às mudanças da vida, do mundo, de sua cidade.

Se dá conta do horário e apressa o passo. Seu filho Pedro ficou de pegá-la logo ali, na Rua Capri e ele está sempre com pressa, não gostaria de atrapalhá-lo de modo algum. Os jovens estão sempre com pressa…

Chegou antes do filho, no final das contas. Olha o relógio: 15h. Está exatamente onde haviam combinado: 15h na Rua Capri, em frente à casa amarela. Não custa nada esperar, oras.

Suspira e sorri, calma, levando a mão espalmada acima dos olhos, para protege-los do sol, enquanto olha para o fim da rua. 

É um belo dia afinal…

3 comentários

  1. Não tem como não arrepiar lendo o texto, me fez pensar que qualquer dia pode ser o último dia, e isso dá uma puta responsabilidade.


  2. Eu queria fazer algumas piadas, mas vou passar desta vez. É uma merda sem tamanho esse ocorrido e nem me atrevo chamar de acidente, porque está na cara que foi descaso e incompetência de alguém – ou de muitos.

    Agora vai ficar aquele jogo de empurra, ninguém tem culpa. Quem tem culpa é quem morreu, estava vivo e literalmente caiu no buraco do descaso.
    Posso ver nessa cratera o novo símbolo da Cidade de São Paulo, porque mesmo com São Paulo dando muito para todos (nós migrantes) e sendo ainda a maior cidade do Brasil, ela é um enorme buraco.

    Para se viver bem aqui, é preciso ter grana, mas afinal se tu tem grana, não precisa viver aqui.. há lugares BEM melhores. E além da grana, é preciso ter o que? Sorte? O destino é guiado pelo descaso? Pelo karma? Pela incompetência?

    A incomentência do Estado hoje é como a morte: irremediável e absoluta. A vida é preciosa, vale muito, mas perto do lucro ela vale NADA.

    Embora haja margem para desdobramentos religiosos (e filosóficos) a vida NÃO devia acabar dessa forma. Causa mortis dessa senhora: INCOMPETÊNCIA ADMINISTRATIVA.


  3. esta lustração do Escher ficou perfeita! Ilusionismo … beleza sutil.😉



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