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Mais-valia

23 janeiro, 2007

 Não se trata de nenhuma novidade, mas há tempos quero deixar aqui meu protesto. Tenho visto diversos amigos reclamarem e isso tem me deixado puta porque sei que tais pessoas são talentosíssimas, ótimos profissionais…mas a coisa está simplesmente fugindo do controle.

O fenômeno do desemprego no Brasil é uma das principais causas de assédio moral por parte dos empregadores, desgaste físico, estressse, doenças, danos psicológicos e má-qualidade de vida da população.

Acho que nossa geração deve ser uma das que é mais pobre que as anteriores. Já pensaram nisso? Sou mais pobre do que eram meus pais e meus avós, na minha idade. Talvez você também seja..repare, compare. Não é uma regra, mas…

Me lembro que, no final de minha infância, começo de adolescência, minha vida era muito boa, folgada, financeiramente falando. Isso há uns 20 anos. Sou uma neo-pobre, portanto. Decadénce …avec elegance.

Os patrões de hoje estão mais para feitores de escravos do que para chefes de departamento. Sabendo que o mercado não está nada fácil e que você precisa do emprego de qualquer jeito, eles usam e abusam do poder, da sua fragilidade, de sua boa-vontade e boa-fé, exigindo PhD em deglutição de anfíbios monstruosos e nojentos de todas as espécies.

Te pedem as coisas mais esdrúxulas possíveis, totalmente fora de sua alçada e competência.  Absurdos do tipo: “Liga pra minha mulher e pergunta se ela levou o cachorro no pet shop?” – Ok, fazer um favor UMA vez na vida, não custa nada…agora, deixar montar em cima e esporar? NUNCA! Afinal, a única coisa que vai me sobrar nessa vida patética será minha dignidade.

Isso aconteceu comigo raras vezes, mas aconteceu. Eu, que sou pavio-curto de carteirinha, tive meu cargo e minha paciência testados nos limites do insuportável. Na época, achei melhor encarar como sendo um lance kármico, que faria bem para minha elevação e purificação espiritual. Assim, quem sabe, teria a chance de nascer passarinho na próxima “encadernação”.

Já me peguei me trancando no banheiro do escritório várias vezes, esmurrando a parede,  fazendo boneco voodoo pro meu chefe, amaldiçoando sua estirpe na face da Terra, chorando, me embebedando, tendo princípio de gastrite (isso com menos de 30 anos) , deixando de ver meus amigos e me divertir e me perguntando que mal tinha feito para o Universo, afinal, se havia batido carne nas tábuas dos 10 Mandamentos por engano, jogado pedra na cruz ou qualquer coisa do tipo..

 Outras vezes eu simplemente mandei tudo às favas…e perdi o emprego, claro. Between the rock and a hard place.

Esses dias tenho visto uma amiga enlouquecer, literalmente. Depois de passar uns dois anos desempregada (detalhe: é jornalista formada e tem bom currículo) arrumou um emprego fora da área de comunicação para poder sobreviver e está simplesmente pirando. 

Não nos vemos mais, ela não tem tempo pra nada,  quando volta para a casa está completamente exausta, não consegue assistir televisão, nem ouvir música, nem se alimentar direito, não namora, não tem vida social – não ganha bem – e ainda por cima é obrigada a ouvir impropérios de seus superiores que, num jogo baixíssimo, vivem ameaçando de mandá-la embora.

Ela está um caco.

Pra que isso? Vale a pena? Ela quer sair de lá, mas precisa pagar as contas. Não tem jeito. Ela não vê saída. Cansou de esperar, de tentar, de bater de porta em porta. Ela não estava pedindo esmola. Estava oferecendo seu trabalho… É desesperador.

Somos uma geração de jovens com péssima qualidade de vida, doentes, estressados e mal-pagos. É isso.

Eu AINDA vou vender coco na praia. Ahh vou.

16 comentários

  1. Cansa, né?

    Não entendo direito para que lado é que o mundo anda indo. Acho que não é nem para lado algum, é para baixo, para o buraco mesmo.

    A gente acaba tendo que se adaptar e a engolir seco. E no final, acaba dando aula de Inglês, como eu, que não é um trabalho fácil, mas que é melhor do que durante a época em que eu era secretária, quando eu era praticamente babá dos chefes. E chefe, ultimamente, é uma merda.

    O que não entendo é o que acontece com o ser humano. Todo mundo começou a carreira sem ser chefe. Eram estagiários, subalternos, todo mundo já foi escravo, lerê lerê puro e simples. Todo mundo sabe da barra que é ser explorado e estragado mentalmente. Agora o que acontece com o cidadão quando é promovido? Tem sua memória apagada e automaticamente assume o papel de chefe e feitor? Ninguém lembra de como era ruim a forma com que eram tratados?

    O que quero dizer é que se todo mundo deixasse um pouco o karma de lado, quero dizer, lembrando de como era ruim e aliviando a barra do outro, tratando alguém como um ser humano que tem necessidades e sonhos, creio eu que as coisas seriam mais legais.

    Mas isso sou eu, que vivo no meu idealismo.

    Bah.


  2. Também sou idealista, Alê.

    Na verdade, não sei se sou idealista, ingênua ou burra.

    Talvez o limite entre os três seja muito tênue.

    Talvez eu seja os três.

    Love ya


  3. Sei bem como é isso… aconteceu comigo recentemente, só que eu mandei o emprego onde eu estava simplesmente tomar no ** e pulei fora. Não aguentava mais gracinha de chefe e outras coisitas mais.
    Tenho que pagar as contas? Lógico… mas o jeito é confiar em Deus.


  4. Esse sistema louco e pervertido nos empastela. Pior é que a maioria aceita essa situação como fazendo parte do jogo atual, como se esse capitalismo selvagem fosse o único capaz de produzir uma sociedade próspera.
    Eu também era rico e não sabia.


  5. Gabi, eu sei muito bem o que é isso.

    Sou formada em Análise de Sistemas desde 2005, e não consigo colocação na área. Já mandei tanto currículo que até perdi a conta. Hoje, eu trabalho, mas numa área administrativa que me angustia todo dia.

    Simplesmente não consigo sair daqui, e tenho chefes mega sanguessugas (cansei já de chorar as minhas pitangas pro Tarciso), é fogo.

    Uma vez eu explodi, mas comigo mesma, o que é um veneno para o corpo.😦

    Hoje em dia, lido com a frustração procurando me expandir, fazer uma pós, mudar um pouco de ares aos fins de semana… mas agora minha mãe está doente e tem sido flórida pensar nisso agora…

    A vida, às vezes, deixa a gente numa boca de caçapa…

    Beijos, moça, te cuida!


  6. Lamentável esse “poder” idiota que eles tem.

    Parece que todo mundo tem problemas com seus chefes, então não fui eu que piquei tempero verde na tábua dos 10 mandamentos, nem fui eu que em outra vida, ao passar por Jesús rumo à cruz o chamei de “Genésio”.

    Deixo abaixo uma msg do “filósofo e pastor alemão Malcom X Bacon s/ovo”

    “O poder não corrompe, o medo corrompe, talvez o medo de perder o poder”

    El Renegado


  7. Oi Renegado.

    O poder corrompe sim, mas a total falta dele também, penso eu.

    O segredo é o equilíbrio..mas não tá dando pra achar equilíbrio no cenário descrito acima…meio além das forças humanas…

    Mas adorei o Pastor Alemão Malcom X Bacon s/ovo…será que ele não tinha ovo mesmo? 0_0 pra ser revoltado daquele jeito…só podia ser isso…

    Beijos!


  8. Minha teoria é macabra.

    São 300 anos de escravismo e apenas 200 de democracia, e uma democracia BEM safada, ou seja…

    Seu patrão ACHA que pode tudo e na maioria das vezes ele.. PODE, até que se FODE.

    Pior é que mais que provado no mundo corporativo, que o pessoal que ganha razoávelmente bem e tem tesão em fazer o trabalho dá mais ceto, mais lucro, tem mais regalias e portanto mais responsabilidades, ou seja dá certo. Como vivemos num paés de QUINTO mundo que acha que é terceiro mundo.. Amsteríndia..

    Não me lembro de ter passado por nada tão exagerado. Ganho MUITO pouco em relação ao que faço, mas crio algumas minúsculas vantagens que outros lugares melhores não oferecem, ou se preferirem, pelo menos eu recebo em dia – sempre.

    Mas.. além do fator de equilíbrio e dignidade, deve existir o fator MEDO. Sim, pq vc pode ser um pirado que pode acabar prejudicando um pouquinho a empresa, ou um POUCÃO. Sempre existe um peixe maior – isso eu já cansei de ver no mercado. Nunca tive um patrão com peito de aço.

    eheheheh


  9. Oh yeah! Estamos fudidos. Somos oprimidos e não sabemos mais o que fazer para sair de um maldito círculo vicioso que nos acompanha.

    Não tem saída. Ou você engole o sistema ou ele te engole. ÁS vezes, a gente se enche e manda à merda, rs

    Eu ultimamente estou tendo que engolir. Então recorro a fantasias, florais de Back, meus amigos, meu amor, e Deus! é só ele mesmo.


  10. Bom, como tenho 15 anos e aos 18 pretendo ja estar cursando a faculdade de gastronomia espero que as coisas melhorem até la sabe ? Vejo que meus pais passaram dificuldades mto grandes mesmo, foi so agora que conseguiram se estabilizar e olha que eles tem 42 e 43 anos, esta cada vez mais dificil mesmoo !

    Abraços Adoro seus posts !


  11. ai. nem vou despejar a minha ladainha toda em cima de você. ms vale observar que quando eu pedi demissão do meu último “emprego” sai dizendo pros colegas de trabalho que ia vender coco na praia. hahahahahahahaha. vamo?


  12. Ah, os seres humanos são uma gracinha mesmo…

    Eu já tive um chefe que era um ser humano horroroso, uma pessoa realmente ruim. Em compensação já tive sorte também, meu primeiro chefe era um verdadeiro cavalheiro, europeu e tudo. E tive um chefe tão legal que virou meu amigo e me levou para comemorar quando eu consegui um emprego melhor graças ao que ele havia me ensinado.


  13. A realidade é cruel… e doída!!😦

    Abraços
    Daniel


  14. é a mais pura verdade…..meus pais sairam de casa com a minha idade, se sustentavam pagando todas as contas e MAIS a faculdade deles….e ainda viajavam pacas e davam mega festinhas!

    eu mal consegui pagar a minha facú e nem sei qndo vou conseguir sair de casa…..

    sad, sad, sad


  15. Este post me assustou! Pq é muita verdade em um post só. As vezes me olho no espelho e me vejo meio inconsequente, vivendo de freela aos 36, menos grana, mas… mais vida. Sua amiga vai pirar se continuar, eu pirei! E agora não tenho mais jeito, viva a inconsequência!


  16. Sinceramente, não sei o que é pior: ter chefe ruim, pentelho mesmo, abusado até, ou não ter chefe, emprego, grana e afins. Ultimamente tenho acompanhado essa segunda parte. Cara, é ruim. E não dá nem pra pensar em vender coco na praia pq sou péssima vendedora!
    Quanto a mandar emprego pras cucuias, ih, eu já fiz isso… é tão libertador…. mas eu tinha outro engatilhado, viu?

    beijo gabi.



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