h1

O absurdo de ser feliz

1 março, 2007

A grande ousadia do ser humano consiste em querer ser feliz.

A busca pela felicidade, e o que essa busca implica, para a maioria das pessoas normalmente resignadas e conformadas com a própria infelicidade, é algo impensável, praticamente uma afronta, um desrespeito, um crime passível da mais dura punição.

E aí, se levado nesses termos, a coisa vira um ciclo vicioso no melhor estilo amargo que nem jiló: “se eu não sou feliz (por n razões, inclusive por sua causa) não vou deixar que você também seja”.

E então, o/a “infeliz” (nunca essa palavra fez tanto sentido pra mim) muda todo o foco da própria vida e se empenha totalmente em fazer terrivelmente infeliz a vida do outro.

E todos vivem infelizes para sempre. The End.

Assim se arrasta e se maltrata a humanidade.

Mexendo nos meus guardados outro dia, me deparei com o Mito de Sísifo, de Camus.

E nele (não vou perder tempo explicando o mito e nem quem foi Camus aqui, e nem tô com paciência na verdade…procurem na Wikipedia) o escritor e filósofo fala sobre a “sensação do absurdo” –  “aquela que pode arrebatar qualquer ser humano, em qualquer esquina e que é, em sua desoladora nudez e em sua luz, incompreensível”.

Você já deve ter passado por isso, e, como a maioria das pessoas faz, nem deu bola.

A sensação do absurdo é aquele tapa na cara que te pega de repente, no metrô lotado, depois de uma reunião inútil de trabalho, depois de outra briga homérica no casamento, depois de ver sua conta bancária ir para as cucuias ou depois de assistir, diariamente, a miséria humana, espalhada por toda a parte, de todas as formas possíveis e imagináveis…

A sensação do absurdo é aquele momento em você pára e se pergunta: “Pra que tudo isso, afinal? Era essa a vida que eu queria? Para onde estou indo? Pra que todo esse esforço?”.

Se você nunca parou para pensar nisso, pode esperar. Um dia, em meio ao ritmo automático de sua rotina, esse porquê vai aparecer. Ou não…pfff… posso estar te superestimando. Vai saber? Enfim…

A sensação do absurdo, na verdade, é o início da consciência. E o relâmpago do absurdo é decisivo. É nessa hora que você fica pensando: tô sonhando ou acabo de despertar?

Geralmente essa pergunta é impulsionada pela infelicidade. E é aí que você percebe que fracassou. E o fracasso é inevitável. Quem deseja ser e ter somente o perfeito se frustra constantemente e acaba levando apenas um prêmio de consolação: o controle.

Mas o que é real, afinal? Devemos virar a mesa, procurar nossa felicidade ou deixar tudo como está?

 Não há uma resposta satisfatória. Ao menos não do jeito que você procura, como uma fórmula pronta: “duas gramas de questionamento + cem de ousadia + coragem e sorte = felicidade eterna”.

Só sei que precisamos tentar. Tentar, tentar, tentar. A vida e a busca pela felicidade consistem em tentar incessantemente. Ou não. Não há uma verdade absoluta.

Quem tem fixação pela verdade não enxerga um palmo na frente do nariz. Nunca está presente, está sempre além do momento. Vive ofuscado pelo absoluto e não enxerga a beleza da pluralidade que habita nos pequenos detalhes.

Para Camus, o auto-questionamento não está associado à descoberta de uma verdade. Ela não existe. O auto-questionamento e o que ele vai produzir depende somente da aceitação do absurdo. Quando tomamos consciência disso, temos força para tentar mudar. Mesmo que não dê em nada. Se não tentarmos, como vamos saber, afinal?

Como Sísifo, devemos tentar rolar a pedra sem cessar até o cume, conscientes de que jamais chegaremos lá… até porque a pedra desaba – no abismo do absurdo – assim que atinge seu objetivo.

A figura de um homem empurrando uma pedra enorme numa ladeira já é bastante auto-explicativa e mostra que a busca está longe de ser algo fácil e agradável. Mas essa parábola nos estimula à ação e a transformação constantes e acaba se tornando um paradoxo produtivo.

Encarar o absurdo acaba sendo um exercício contínuo de reflexão e consciência. Nossa mente é treinada para pensar logicamente, com unidade, sentido e objetivo, temos a tendência de evitar o absurdo.

“Não se descobre 0 absurdo sem ser tentado a escrever algum manual de felicidade. Mas como, com caminhos tão estreitos? No entanto, só existe um mundo.  A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. Inseparáveis”

Moral da estória: Se, para ser feliz é necessário fazer algo aparentemente absurdo para a maioria das pessoas, é capaz de que você esteja muito perto de tomar a decisão correta.

“É preciso imaginar Sísifo feliz” – Diz o autor, na última frase de “O Mito de Sísifo”.

O herói mítico vive, em meio a dor, uma alegria silenciosa com a pedra que rola, libertando-se do dever de conquistar o cume da montanha e entendendo que o verdadeiro sentido da felicidade está no empurrar.

Simples assim.

Concentrando-se no movimento de empurrar a pedra, ele se prende ao presente, e se livra do fardo de almejar o cume. O sucesso.

A felicidade, por fim, parece estar em TENTAR ser feliz e não em finalmente conseguir.

Até porque noções de felicidade mudam, objetivos mudam, pessoas mudam, a vida muda… e quando se chega ao cume, a pedra despenca novamente….e você começa tudo de novo.

Só então,  quando souber curtir o presente e finalmente se der conta de que o que vale é tentar, você vai poder finalmente responder: “Vale a pena. Eu sou feliz” – logo que a boa e velha sensação de absurdo te assaltar.

É isso.

15 comentários

  1. Os maldosos dizem que o Sartre não tinha foco. Tanto que era um olho pro lado e outro pro outro. Já o Camus tinha foco demais. Acertou direitinho a árvore com o carro…

    Falando sério, the best post ever, pretty babe. Parabéns.


  2. Tem tudo ver com o livro que estou lendo ( adorando): “Quando Nietzsche Chorou”. Lindo post!


  3. A primeira grande e dura verdade libertadora é que não existe felicidade. A busca pelo completo “não sofrimento – total bem estar” que aflige boa parte das pessoas simplesmente é infrutífera. E é bom que seja assim. A busca da satisfação parte do desconforto, da pressão que sentimos por buscar algo maior, “tesão”, afinal, vem de tensão. Ora, se encontrarmos a maldita felicidade que tesão nossa vida teria então? Camus acerta no seguinte: “O herói mítico vive, em meio a dor, uma alegria silenciosa com a pedra que rola, libertando-se do dever de conquistar o cume da montanha”. Não há cume da montanha a ser conquistado, nossa vida é desejo eterno, insatisfação eterna, e isso é que nos move, isso é que faz as pedras rolarem. Beijão😉


  4. hahaha…Sartre tinha um olho no peixe outro no gato…ô homem horrendo!

    Era preciso odiar a própria xavaska pra dar pra aquele cara…não a toa a mulher dele é considerada uma das mães do feminismo…hahaha.

    Explica muita coisa…


  5. Pense bem, Sartre é de um tempo em que bastava ser intelectual pra comer as meninhas, não precisava ser gatão, então.. rs..

    Bom, mas não era isso que eu ia falar.

    Na verdade vc sabe que o fardo de Sísifo me atinge em cheio, vc conhece todas as minhas razões e não é de hoje aliás, que isso sempre me incomodou.

    O budismo ajuda mas como me afastei dos preceitos, estou baleado, ainda tentando parar de cambalear – vc tb sabe.

    É difícil empurrar a pedra quando se está cambaleando.
    Ainda bem que com 4 mãos o peso do fardo diminui.

    Me lembrei de umna coisa:

    Sentado quietamente, Nada fazendo, A primavera vem,
    A grama cresce por si. — Zenrin Kushû

    Espero que a grama cresça por si.


  6. Putz, adorei esse texto porque ele me consola, serve como uma luva pra mim. Eu que vivo procurando essa tal felicidade em cada fenda, em cada lugar…e nas pessoas. Ando cansada de empurrar…queria conseguir algo. mas como foi escrito acima, é um de seus melhores posts.

    To contigo…cansada, feliz, triste, doida e deprê…ah e bêbada também.

    te adoro
    Gi


  7. existem textos que de conseguem ser simples e complexos… esse é um deles… vc conseguiu me fazer refletir de verdade! uma luz que veio na hora certo. parece piegas, mas é bem verdade.


  8. Eu adorei isso que você escreveu.


  9. Olá ex-grandona rsrsrs…
    Passei só pra avisar que exclui meu bloger antigo, o enxerido, e fiz esse amigosmix junto com um amigo meu, tá? rsrsrs…

    Beijossssssssss


  10. Já vi esse filme mais de uma vez. O final é péssimo.
    Excelente idéia resgatar essa obra de Camus, um autor que não tem merecido atenção por parte dos leitores mais jovens.


  11. Que coisa linda, Gabi!
    Eu acredito que o “empurrar da pedra” sempre serve para alguma coisa. Por mais pesada que ela seja, por mais íngreme ou esburacado que seja o caminho (o que não me tira o direito de reclamar BASTANTE dele, às vezes)…
    Alguma coisa boa para a sua vida você aprende, você tira de lá. Você cresce, você se torna um ser humano melhor… E assim seguimos empurrando uma pedra, duas pedras, três…

    Um beijo.


  12. Muito bem!

    Muitas vezes, as pessoas são infelizes justamente porque lhes faltam pedras para carregar. Eu presencio isso de perto. Mas não tem as pedras para carregar simplesmente porque colheu o que plantou.

    A felicidade é, foi e sempre será relativa, enquanto houver um pouco de humanidade em nós.

    Parabéns pelo texto. Ótima forma de começar uma terça feira.


  13. AAAhhhh Gabs…
    Não concordo que se ‘busca’ a felicidade…
    a felicidade vc cultiva de dentro pra fora.
    ou vc é feliz ou não é…
    isto é plenitude, melhor dizendo é a SOLITUDE
    qdo vc tem claro que: nasce só, vive só e morre só e que as coisas dependem de vc unicamente e que tudo o que conseguir é ‘lucro da vida’ vc nunca sente este vazio de ‘infelicidade’…

    A solitude é a nossa natureza, mas não estamos cientes dela. Por isso ficamos estranhos a nós mesmos… e ficamos nesta de ‘busca’…

    bom eu vivo assim.
    eu quero cada vez mais a solitude e o que vier é lucro!

    bjaozao!


  14. Mas Thati, tb concordo que felicidade é de dentro pra fora.

    Tanto que é mudando de postura (não procurando o cume, mas aproveitando o momento) é que Sísifo a encontra.

    Mesmo pra isso,é preciso buscá-la. Inda que dentro de nós.

    Cada um de nós é um universo. “Conhece-te a ti mesmo”…disse o filósofo.

    Não é uma coisa fácil.

    beijo


  15. ai sim😉
    um bjão mto gdão!



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: