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Miséria S.A

2 abril, 2007

Sabe uma coisa que eu acho engraçada na sociedade? Bem, “engraçada” não seria a palavra. Tragicômica ou mesquinha cairiam melhor, para a humanidade em geral, aliás….mas, enfim, sabe o que? Essa cultura da falsa humildade.

É, essa idéia onde é proibido e visto como altivez o fato de você ter uma  auto-estima perfeitamente saudável, reconhecer os seus pontos positivos e  ressaltá-los, ao invés de estressar somente os negativos.

Não o tempo todo, claro. Isso seria o outro extremo do desequilíbrio. Egocentrismo. Uma coisa meio Clodovil Hernandez, que na verdade indica uma necessidade absurda de aceitação e não é, nem de longe, sinal de saúde emocional.

Mas apenas  saber reconhecer suas qualidades e ter ciência de seus defeitos. Simples. Saber seu próprio valor. Seu lugar na sociedade, no seu microcosmo. Não querer ser nem mais, nem menos do que se é realmente. Ser apenas você.

Aqui no Brasil o legal é ser miserável. Todo mundo precisa ser vítima, ser coitado.

É perfeitamente aceitável e até compreensível dizer que não pode, que não é, que não tem, que não consegue, que não tem condições, que nasceu cagado, que tudo aqui é difícil, que é feio, defeituoso, que é gordo, magro demais, baixo demais, alto demais, desengonçado demais, fora dos padrões demais…e segue a lista das desgraças…

Ah, que lindo! Que pessoa admirável!

Já o contrário é completamente inaceitável, visto como petulância. Eu mesmo, não raro, sou vista assim. Não ligo pra isso, dou risada. Quem me conhece sabe como sou, sabe de minhas dificuldades e meus pontos negativos. Não preciso me justificar. Ninguém paga minhas contas…mas é engraçado observar a coisa do ponto de vista socio-antropológico.

Ninguém agüenta o fato de você ter uma visão otimista de si mesmo.  Está todo mundo acostumado a rastejar por aí, bater no peito e dizer: – “Oh, como sou miserável! Tenham dó e exijam pouco de mim, portanto, já que sou um coitado” – E todos batem palmas, afagam a cabeça do idiota e respondem em coro “Somos todos!” – amém.

Isso é patético. E hipócrita. Porque todo mundo tem qualidades e defeitos e geralmente SABE quais são eles. Mas declarar isso em público? Ahh, impensável! Absurdo! Blasfêmia! Queimem o herege em praça pública!

Já dizia Tom Jobim, maestro renomado e reconhecido no mundo inteiro, que sucesso no Brasil era ofensa pessoal…

Querem um exemplo? Quando você recebe um elogio, quais são as respostas aceitáveis, de bom tom perante a sociedade? Ah, e não se esqueça: você deve proferir cada uma delas meneando a cabeça e olhando para o chão.

-Ora, imagine!

-Bondade sua!

-São seus olhos!

-Acha mesmo?

-Ah, pára com isso…

-Ah, fulano é muito melhor que eu

-Ah, não chego a ser um cicrano, mas dá pro gasto, né?

Entre outras. Completem a lista.

Mas ninguém acha natural você olhar diretamente nos olhos da pessoa e dizer:

-Obrigada, eu sei.

-Obrigada, trabalhei duro para isso

-Obrigada, minha dedicação valeu a pena

-Obrigada, vejo isso como um dom. Seria irresponsabilidade não usá-lo devidamente

-Obrigada, também acho

-Obrigada…você também faz (enumera as coisas que pessoa faz bem) muito bem (desde que você ache isso, claro!)

Me digam então, qual a porra do problema? Eu não posso simplesmente ACEITAR um elogio, me achar merecedora dele, oras?  Eu fico doente com uma coisa dessas…

Por conta dessa maldita adoração à miséria acaba-se criando um círculo vicioso: crianças moribundas, insatisfeitas consigo mesmas, frustradas e com baixa auto-estima viram adolescentes problemáticos que vão virar pais que por sua vez vão massacrar seus filhos com comparações cruéis, abusos morais, falta de compreensão e sensibilidade em entender que cada pessoa é única, com suas qualidades e defeitos,- e assim criam-se mais crianças moribundas, insatisfeitas e frustradas. Pessoas tristes.

A lista de doenças de fundo nervoso e emocional (psicossomáticas) que assolam a sociedade moderna estão aí para reafirmar o que digo: depressão, distúrbios do sono, distúrbios alimentares, síndrome do pânico, etc , etc, etc.

Miséria. Miséria humana. Miséria emocional. Miséria espiritual…”miséria, miséria em qualquer canto…”

É. Riquezas são diferentes. Pessoas também.

Ainda bem.

12 comentários

  1. odeio gente que se faz de vitima…
    e concordo com vc, não ha nada ‘errado’ em aceitar um elogio de bom grado! oras, se vc faz por merecer por que não?
    sempre odiei a supervalorização do negativo ou ainda nao ver as coisas todas que acontecem com os dois pólos sempre presentes: o positivo e o negativo (negativo leia-se: tirando algo positivo dele sempre!)
    lembro claramente na epoca do colegio em que me esforçava pra tirar boas notas e ficava put* da vida quando de 10 notas tirava 8 notas 10 e duas 7 por exemplo.
    ficava put* pq sabia que ao inves do elogio a um otimo boletim eu ouviria um sonoro: ‘ah que pena, tirou dois setes’…
    que foda.
    estas coisas são um perigo e a supervalorização do negativo, e do não-elogio vem de berço e de uma sociedade num geral…que nao vibra com as coisas que vc conquista e sim ressalta as que vc ainda nao tem.
    tem que ter muito cuidado pra não criar um loser ou um alguém que nunca se julgue o bom o bastante e nao seja feliz com aquilo que tem e que é.
    bjos
    tati


  2. meus dois maiores defeitos são minha genialidade e minha modéstia… reconheço que preciso lidar melhor com essas duas coisas pra ficar totalmente perfeito… hehehehe

    beijo!


  3. Foda esse texto, Gabs! Eu tb acho uó quem se faz de coitado! Me irrita, perco a paciência.

    Parabéns pelo texto! Adorei!

    Beijo! ;o)


  4. ainda bem.


  5. Verdade verdadeiríssima.


  6. Eu fiz muita força para me reprogramar e responder a um elogio com um simples “obrigada”. Às vezes ainda tenho umas recaídas, mas estão mais raras. Mas será que parte disso não vem um pouco do supersticioso medo de olho-gordo que a gente vê por aí? Parece que as pessoas só se acham seguras se os outros acharem que elas não tem nada a ser invejado. E não percebem que o problema está na pessoa que sente a inveja, não o contrário.


  7. Odeio também aquele fatalismo religioso deplorável. Graças a Deus, se Deus quiser, Deus queira…Deixem Deus em paz e façam suas próprias chances. Não usem o nome do Senhor em vão! Deus pode até ter parcela em todas nossas vitórias, mas somos nós, homens, quem fazemos nossa existência.

    Nosso futuro e nossas conquistas dependem de nossas atitudes. Graças a Deus.


  8. Realmente o texto ficou ótimo.

    Infelizmente eu vejo que não há equilíbrio. Ou a maioria se acha uma bosta ou se acha o máximo, não necessariamente nessa ordem.

    Fora quando isso envolve questões além do nível pessoal de produção e realização, tipo questões hierárquicas tradicionais, ou de poder sócio-econômico. Nas questões do trabalho, então, isso piora estratosféricamente.

    Engraçado que sempre fui criticado por meus amigos por “não ser modesto”, ou ser muito seguro, ou declarar meus dotes extraordinários (eheheh). Ao mesmo tempo, você me acha irritantemente modesto demais!?!
    Vai entender… (:O

    beijooo… e.. tu é a melhor, mesmo. 😀


  9. “Who is that girl?” Pq tanto charme p (não) ser conhecida? Vc sabe q assim só instiga mais. Certo?


  10. Sei não. Eu concordo contigo que a maioria das pessoas se faz de coitada, mas a maioria mesmo, sempre adota essa postura como se não fosse sua responsabilidade. É coitado pois não teve oportunidade, ou porque teve azar, ou porque os outros são malvados. Eu não vejo muita gente (na verdade, vejo pouquíssima gente) admitindo suas deficiências, seus erros.

    Tem um exemplo simples disso. A maioria das pessoas que contam detalhes de um acidente de automóvel, se coloca como vítima. É sempre aquela história de que alguém bateu em seu carro. Se a gente considerar que na maior parte dos acidentes, tem um culpado e uma vítima, é muita coincidência a gente conhecer somente as que não tiveram culpa.

    Concordo também com você que não há nada de errado em assumir nossas virtudes. Eu as tenho muitas e gosto de ser observado por isso. Mas o grande desafio é, na verdade, ter a coragem de admitir as deficiências e fraquezas. Não no sentido de dizer que é um coitado, sem sorte na vida. Mas admitir que fez alguma coisa errada, tendo tido a chance de acertar. Por preguiça, arrogância ou incopetência.

    Enfim, se a vaidade nos impede de assumir isso para os outros, que tenhamos, ao menos a coragem de assumí-las pra nós mesmos.


  11. Gá vc traduziu exatamente o que estou sentindo aqui na Alemanha frente aos dois brasileiros coitadinhos que estao na minha sala de alemao… tudo pra eles eh dificil, dizem o tempo todo que nao vao conseguir e isso está decididamente me dando vontade de mandá-los à merda!!!! Vou mandar seu texto pra eles “sem querer” por email…hehehehe… quem sabe eles voltam pra terapia!!!! Afff…. Saudades linda! Má.


  12. […] Quer um exemplo disso? “Ninguém agüenta o fato de você ter uma visão otimista de si mesmo. Está todo mundo acost… […]



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