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Quão cedo é agora?

17 maio, 2007

A relação mãe e filha nunca foi assim, uma coisa tranqüila. Ao longo do tempo, eterno objeto de estudo de psicólogos e psiquiatras, sempre foi ponto de conflito, diferenças, referências e traumas.

Mesmo quem convive bem com sua progenitora, carrega dentro de si resquícios dessa ligação, a maioria das vezes contraditória, paradoxal, confusa. Lembrei-me de “Sonata de Outono” de Ingmar Bergman.

Minha relação com minha mãe não foge à regra.

Hoje ela veio me visitar.

Mudei-me há pouco. Isso indica que ainda tenho caixas de papelão cheias e espalhadas pelos cômodos, esperando o momento e os móveis certos para serem devidamente esvaziadas, certas peças do mobiliário ainda precisam ser cuidadosamente escolhidas e compradas, outras já estão por chegar, enfim. Está tudo uma baguncinha. Aquela coisa de mudança.

Toca a campainha. Uma. Duas. Três vezes. Impaciente. Grito um “Já vai”, clássico e abro a porta. Lá vem ela. Empurra a porta de leve e entra na sala com passos rápidos, olhar faiscante. É filha de Iansã, faladeira, nervosa e mais baixinha do que eu. Pois é. Acreditem, ela é terrível.

-Oi tudo bem? Te liguei, você não atendeu… – diz, deixando a bolsa sobre a cadeira e escaneando minuciosamente a sala com o olhar, a procura de qualquer coisa para criticar…

-Oi mãe…olha eu…

-Nossa, você ainda não comprou as cortinas? Gente do céu, abre essa janela…(ela corre até a grande vidraça da sala e a abre).

Achou.

-Está aberta eu só não queria abrir tanto e…

-Humm, que cheiro é esse? Você tá cozinhando? – fala enquanto se aboleta para a cozinha e abre a panela…

– Ia começar mas você chegou..

-Ih, tá queimando…

-Não, NÃO está, mãe. É só a água que está fervendo… – reviro os olhos, passo a mão no rosto, de nervoso.

-Ai que lindo está seu banheiro! Lindo, adorei…tá um barato! Ih, mas é todo branco, você tem que limpar bem, todo o dia…olha só, tsc – meneando a cabeça enquanto passa o dedo indicador no chão do banheiro e verifica a quantidade de pó…

-Mãe, ou eu cozinho ou eu limpo o banheiro, calma, vou passar um pano depois e…

-Você tá bem?

-Tô. Tá tudo bem. – Sorrio amarelo – E você?

-Também. Tua avó e a Shadow estão com saudades… – comenta, desconversando, desvia o olhar e dirige-se a outro cômodo….

Minha avó e a gata. Sei.

-Eu acho que você devia por o guarda-roupas mais pra cá…não sei, não está muito rente à cama?

-Não, não está. Já mudamos a cama três vezes e essa é a melhor posição…

-Nossa, cama fofinha…- ela diz, sentando-se e dando leves pulinhos para sentir a densidade do colchão…

-Tá feliz?

-Muito.

-Te trouxe casquinha de siri congelada e bolo de fubá – mexendo na sacola. E mais umas coisinhas…

Ela me trouxe muita coisa. Tupperwares cheios.

-Poxa, obrigada.

-Bem, tenho que correr e você precisa trabalhar, certo?

-Certo.

-A que horas entra?

-Daqui a pouco…

O que vai fazer de almoço?

-Arroz, feijão, legumes, filé de frango grelhado… quer almoçar?

-Não! Não! Preciso voltar, estou cheia de coisas pra fazer… – diz, enquanto abre a geladeira…

-Obrigada por trazer as coisas. Minha manteiga não vai se sentir mais tão solitária – digo, fechando a geladeira.

Ela dá uma gargalhada sonora.

-Não ponha muito sal.

-Não, pode deixar.

-Tchau, fique com Deus. – Dá um beijo na minha testa.

-Tchau, toma cuidado.

Fecho a porta.

Quem sabe agora, saudavelmente longe uma da outra, consigamos finalmente nos entender… quem sabe.

4 comentários

  1. Gabi, sei exatamente o que você quer dizer quanto a melhorar a relação materna com ela longe. No meu caso, um oceano de distância fez milagres!
    Beijo, Ju.


  2. “escaneando minuciosamente a sala com o olhar, a procura de qualquer coisa para criticar”…

    Nossa, minha mãe faz exatamente a mesma coisa. Sempre.

    E depois ainda nega. Será que as pessoas são tão ingênuas a ponto de achar que seus olhares passam despercebidos?


  3. nossa.
    Vi minha mãe aí.

    Minha relação com ela é pé de guerra! mas não deixo de amá-la.
    Mães são iguais, mas as nossas são smepre melhores!
    rsrsrsrss
    Beijos!


  4. Querida, em todos esses anos nesta indústria vital, passamos por muitas situações parecidas, muitas dores divididas. Nós duas já quase morremos e sabemos o valor q quase morrer tem. Nós temos mães cheias de traumas e complexos, q nos deixaram traumatizads e complexadas com um monte de coisas, enfim… Nós sabemos muito bem como é pesado qdo o convívio com a mãe não é lá dos melhores. Principalmente qdo ela não é feliz e acha q a culpa é sua, mesmo q não admita nunca. Mas agora q a gente já é dona do nariz, sabe muito bem que não é por aí.
    Sabe q melhora mesmo qdo se muda? Acho q as mães têm uma sensação de posse muito louca c/ relação aos filhos. E aí qdo o ninho fica “vazio”, e elas podem finalmente cuidar das próprias vidas e lutarem p/ serem felizes por si mesmas, se tocam q não somos propriedade delas. A gente pode até ter alguns traços parecidos, se pega falando as mesmas frases de efeito e asneiras e fazendo aquela careta estranha qdo aparece um fio de cabelo branco aqui e ali. Mas definitivamente somos outras pessoas, temos nossas próprias convicções, preferencias sexuais, posicionamento político e sabemos que modelo de calça jeans fica melhor no nosso corpitcho e que, nem sempre, a cor original do cabelo nos deixa mais bonitas.
    Sair de casa é um acontecimento libertador. P/ as duas. Libertador não pq se deixa de brigar, pq ela vai continuar dadno palpite na nossa vida, na casa, na roupa, etc. É libertador p/ vc, Gabi, por razões óbvias e vai ser p/ ela tb pq vai ter a oportunidade de ver o q a maioria das mães mais temem: as filhas crescem, casam-se e, com sorte, conseguem ter ou ser aquilo que as mães mais desejavam p/ si mesmas.



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