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Contramão

20 setembro, 2007

Será que eu sou a única?

A única que não acha o trabalho assim, tãão importante na vida?

Ok, ele paga minhas contas. Nada mais justo. O mundo precisa de mão-de-obra a todo momento, inclusive eu, que com o meu salário contrato outros serviços, como anteriomente contrataram os meus e assim a máquina funciona…

Ao contrário de muitos (brasileiros, pelo menos) adoro o que faço. Escrevo, crio imagens, roteiros e produzo vídeos, traduzo, legendo filmes, uns bons, outros ótimos, outros muito ruins, às vezes me aventuro a fotografar e estou feliz com a profissão que escolhi e com as habilidades que desenvolvi e continuo a aperfeiçoar.

Mas isso não é a coisa mais importante da minha vida. Não é quem sou. É o que faço. E meu trabalho não me define de modo algum. É só um aspecto da minha complexa pessoa.

Eu poderia ter escolhido qualquer outra profissão ao invés da que exerço agora. Poderia ter sido consultora de moda, veterinária, cineasta, professora (já fui), pesquisadora, arqueóloga, executiva, engenheira química (tb quase fui), atleta, (tb quase fui) maquiadora, psicóloga, escritora, cantora (tb quase fui) dentre muitas outras…

Me interesso por todas as que listei, sou estudiosa leiga da maioria e em algumas eu até arrisquei uma especialização, desistindo depois.

Ainda assim, isso não define quem sou.

O trabalho não é o que mais me importa na vida. Por isso, não me deixo escravizar por ele. Não é o que vejo por aí, no entanto.

Vejo pessoas abdicando da vida pessoal, de momentos preciosos, da própria saúde, da vida social e do lazer, enfim, de coisas que não têm preço e podem ser únicas na vida da gente, tudo em prol do maldito trabalho.

E a cada dia mais vejo as empresas e empregadores tirando proveito disso. É o velho ditado “você dá a mão, e eles querem o braço”. A ânsia de exploração do empregado e a necessidade de reconhecimento e dinheiro do trabalhador nunca vão acabar, ao menos enquanto ambos concordarem com esse jogo.

 É uma relação de comensalismo puro. Um tira proveito do outro. Bem, relação de comensalismo do Pica-Pau na verdade, porque um, COM CERTEZA, tira mais proveito do que o outro  (lembra do “dois pra mim, um pra você” do desenho do Pica-Pau? Pois é.)

Difícil falar sobre isso – respeito próprio e limites no trabalho – num país como o Brasil. Todo mundo tá careca de saber que aqui a taxa de desemprego aqui é monstruosa, falta mão-de-obra especializada, pois o povo tem pouco acesso à educação, o mercado é saturado, corrupto, cruel e a procura é desproporcionalmente maior que a oferta. Isso fora uma série de outros fatores.

Esse ambiente selvagem cria desespero no empregado e dá ao empregador a falsa idéia de que ele pode usar, abusar e explorar seu prestador de serviços o máximo que puder.

Por isso, hoje em dia o mercado tá cheio de neguinho exercendo a função de três e ganhando, quiçá, por meio. Sabem que se não fizerem isso, vão acabar no olho da rua, porque existem mais 5 querendo ganhar a mixaria que eles ganhas e fazendo o dobro do que eles fazem. Não por que são melhores. Mas por puro desespero, pura necessidade.

Ou isso é exploração pura e simples ou mudaram o nome da coisa e não me avisaram.

Desculpem, mas eu não faço isso. E por lutar por meus direitos, sou tida como chata, como metida, como qualquer outra coisa, mas eu simplesmente não faço além do que me foi proposto a fazer na entrevista de contratação. Se quiserem que eu faça mais, que me paguem. Meus serviços valem dinheiro. Porque só o trabalho do meu empregador é valorizado? Ele não precisa de mim, afinal? Porque me contratou?

É uma merda. Não quero isso.

Não estou mais no começo de carreira onde aceitava trabalhar 10, 15 horas por dia para APRENDER e para mostrar serviço. Afinal, não tinha família, trabalhava para pagar a faculdade, manter meus caprichos e para as pouquíssimas horas de lazer.

Hoje as pessoas à minha volta, a circunstâncias, perspectivas,  prioridades e necessidades mudaram.

Preciso de mais tempo e de mais qualidade de vida.  E isso não precisa implicar diretamente em falta de dinheiro e de trabalho. Tudo depende da qualidade e da quantidade do que produzo. Assim, empregador e empregado ficam felizes.

Num mundo perfeito (leia-se: num país decente) funcionaria assim, ao menos.

Minha vida vai além do meu trabalho. Muito além. Não abro mão.

E talvez só quem já tenha encontrado a morte, enxergue isso.

Uma pena.

13 comentários

  1. […] Ótimo post do blog Fogo nas Entranhas, chamado Contramão falando um pouco desses problemas com o […]


  2. Estou de pleno acordo com você. As pessoas hoje são criadas para trabalhar, estudam para trabalhar, vivem, praticamente, para isso. Tenho 22 anos, mas já passei três meses sem ter um único dia de folga, trabalhando muitas vezes até as três da manhã!!! Para chegar na empresa as oito e entrar numa reunião as oito e meia! E a situação era aquela, lucro gigantesco para a empresa, eu fazendo o trabalho de três pessoas e levando só um tapinha nas costas no final das contas.

    Eu acho muito legal trabalhar, realmente sinto prazer quando levanto da cama e sei que tenho alguns desafios, o problema é quando tudo começa a girar em torno do trabalho. Infelizmente, tem gente que vive para ele, talvez descubram tarde demais que são escravos, com carteira assinada, salário, direitos, mas escravos, senão tanto dos outros, muito mais de suas próprias mentalidades.

    Ah! Escrevi algo um pouco relacionado a essa sua indignação aqui… vou te citar porque… o teu texto diz muito.

    http://back.wordpress.com/2007/09/12/do-trabalho-ou-da-tontura-ou-das-escolhas/


  3. Ótimo! Seus textos têm sido algo como uma lavada na alma. Parabéns!


  4. Tá, confesso. Eu sou uma jornalista-isaura. Sou. Por alguns dos motivos que tão aí em cima. Alguns.
    Vejo mais meu chefe do que minha mãe (e MORO com ela).
    E é uma bosta!


  5. eu falo isso tudo sempre…🙂


  6. minha cara, você não é a única.
    eu SEMPRE pensei isso, enquanto estava numa faculdade de Publicidade & MARKETING… e as pessoas meio que me olhavam torto, quando eu dizia algo do gênero. um olhar meio de “ai, que vagabundo…”, saca? ou de “desse jeito, esse menino não vai muito longe…”.
    péssimo.


  7. Você não é a única.


  8. Eu sou avesso ao workaholic. Minha filosofia de vida é russeliana: ócio criativo, etc.

    E olá.


  9. Eu não vou mais trabalhar…aderi ao ócio, criativo ou não, vou escrever no blog…e olhe lá…vou arrumar alguém pra continuar me sustentando…muito melhor.


  10. Pensamento interessante o seu… bate com o meu tbm, rssss. Trabalhar demais PRA QUÊ??? Pra morrer e, depois, uma meia dúzia de herdeiros desocupados receber, sem sequer merecer por isso tudo o que vc construiu em toda sua vida??? Ganhar bem é bom; mas obssessão pelo trabalho é loucura… a vida é curta e temos de curti-la o/
    Abraços o/


  11. Este post é maravilhoso!


  12. É difícil pensar em harmonia e equilíbrio no trabalho quando pensamos na máquina de fabricação de merda que é esse país. É paisinho de quinto mundo e porque tem celulares e espelhinhos pensa que é de terceiro.

    Enquanto essas relações estão do jeito que estão (e indo para pior) fico pensando se não vamos voltar a 1600 e trabalhar por um prato de comida…

    Vou treinar nossos filhos para serem super-espiões😛

    beijo…


  13. Excelente texto, adorei!!!



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