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Parar é preciso

16 janeiro, 2008

Pois é, parece papo de elevador, mas o fato é que o tempo está realmente voando. Essa sensação de que estamos numa luta interminável contra o cronômetro, tentando administrar as milhares de tarefas que arrumamos para a cabeça durante as 24 horas do dia (e eu que jurava que elas haviam diminuído para 14!) está longe de melhorar.

E a má notícia: se você não aprender a se organizar, dizer não, parar para respirar e ser seletivo, vai pirar o cabeção ou ter um infarto muito antes dos 50.

O pior de tudo? Você saber que isso não é novidade mas só começar a levar o assunto a sério quando estiver numa cama de hospital (isso se chegar lá!) Pode apostar. O ser humano é assim mesmo, digamos… burro.

Longe de mim dar uma de terapeuta ou rainha da calma aqui, justo eu, doida, ligada no 220V desde que nasci. Mas é que é fato: há pouco mais de 10 anos a dupla de físicos e pesquisadores de Nova York James Tien e James Burns, provou que hoje percebemos o tempo passar muito mais depressa do que antigamente. Tudo culpa da tecnologia.

Segundo os cientistas, o chamado “tempo real de transmissão de informações” (do qual a internet e os celulares são veículos), é o que nos dá essa percepção, já que hoje em dia temos ciência de um número muito maior de acontecimentos em um curto espaço de tempo.

E como tudo na vida tem seus prós e contras, essa enxurrada de informações tem seu lado bom e ruim. O bom é que é realmente sensacional ter acesso a informações com mais rapidez e agilidade. Isso impulsiona a vida, afinal, essa tecnologia foi criada para ajudar a humanidade e não para ser uma fonte de angústias e doenças mentais.

O ruim é que, como citei lá em cima, se você não for seletivo, escolher quais informações te interessam quais tarefas são REALMENTE importantes em certos momentos da vida, não ter sensibilidade para perceber que é impossível abraçar o mundo ou que você não é um meta-humano, seu cérebro vai entrar em curto-circuito e sim, você vai desenvolver uma série de doenças mentais.

Isso sem falar que é sempre bom lembrar que o dia continua tendo 24 horas e cada hora 60 minutos e assim por diante…

Eu tive finalmente que aprender a parar. Hoje, com 31 anos, casada, grávida me vi obrigada a ter que puxar o freio de mão por conta da fase que estou passando.

Um bebê exige calma. Certas coisas exigem calma. E qual não foi minha surpresa quando me dei conta de que a maioria das coisas exige calma!

Vivemos dias de culto à rapidez. Tudo é rápido. Sentimos quase culpa quando somos obrigados a diminuir o ritmo, sair no horário no trabalho, tirar férias, pedir uns dias de descanso, admitir que não vamos conseguir fazer as coisas no tempo em que planejamos, nos desculpar até quando não conseguimos assimilar informações em tempo hábil. Isso é ridículo!

Fazemos tudo rápido e por conta disso não nos aprofundamos em nada, fica tudo na superfície, como se provássemos a vida, as sensações e as pessoas aos pedaços.

Aliás, já existe até um termo para isso, lançado pela revista Wired: snack culture ou “cultura dos pedaços”, que designa uma época de entretenimento total e instantâneo, com produtos feitos para serem consumidos rapidamente.

Essa superficialidade exacerbada não nos dá tempo para refletir sobre o que consumimos e sobre quem estamos nos tornando. Já repararam? Por isso tanta gente com crise de identidade por aí.

A rapidez dominou nossa vida e nossa cultura de uma tal forma que está abrangendo até nossa vida afetiva, o que acaba deixando mais feridas do que lições e criando pessoas emocionalmente doentes e inseguras.

Rapidez virou uma virtude. E ela NÃO É uma. É só parar pra pensar um pouquinho e reparar no quanto associamos viver depressa com felicidade e até mesmo com inteligência, esperteza. Uma pessoa ágil de pensamento e inquieta é taxada de inteligente, enquanto uma calma ou mais lenta é logo chamada de “lerda” e até de burra. Até as empresas pedem “rapidez” como requesito primordial para o preenchimento de vagas – “Superior completo, inglês fluente, rapidez…”

É preciso parar, gente. A não ser que você seja um paramédico ou salva-vidas, nem tudo nessa vida é preciso ser feito a 1.000 km/h.

De que adianta viver correndo, ansioso quanto ao futuro sem aproveitar o presente, já que ninguém sabe o dia de amanhã nem a hora da morte? – Memento Mori – Carpe Diem!

A ansiedade, junto com o estresse e a depressão são os males do século. E todos eles tem como fonte esse culto à rapidez, pode dar uma olhada.

Pois eu proponho uma outra seita aqui: a seita da desaceleração.

Que tal dizer não ao chefe e reservar um tempo para tomar um café com aquele seu amigo que você não vê há tempos?

Que tal visitar sua avó (se ainda for viva). E se ela não for, que tal parar um minuto e pensar que poderia ter aproveitado mais sua companhia enquanto ela era viva?

Que tal curtir mais sua vida, dando importância ao que é REALMENTE importante e – o que é de fato importante aqui – Não se sentir culpado por isso?

Eu já escrevi sobre curtir a intensidade dos momentos e fases da vida no texto “Epifania”…aliás, ele é o recorde de views aqui no blog.

Dê uma olhada nele. Ele resume tudo.

“…finalmente, constrangidos pela fatalidade sentimos que a vida passou por nós sem que tivéssemos percebido” – Sêneca in – Sobre a Brevidade da Vida.

Vou parando por aqui. Vou sentar ali no sofá fofinho e ler um pouco…

Beijos

5 comentários

  1. Estou lendo um livro sobre “devagar”, de Carl Honoré. E ele jornalista e correspondente estrangeiro se deu conta em uma fila de aeroporto, de que é preciso parar.
    Inclui tudo, inclusive, comer devagar, viver com mais calma, e até sexo com mais qualidade.
    O lance não é ser lerdo e sim escolher quando é realmente necessário ser rápido.
    Eu mesma me sinto engolida por muitas coisas, inclusive até pelas coisas que eu quero. Elas também me cansam. A resposta do meu corpo: pequenas doenças e confusão mental, cansaço, etc.


  2. Esse texto está lindo e tem muito a ver com tua realidade. Acho que vc merece dar um tempo e curtir nossa filha. Tudo em nossas vidas foi programado para isso. Agora sobre o Slow life e Slow food, acho que hj em dia já é uma questão de sobrevivência do homem como espécie e não simplesmente um fator de descanso emocional.

    Encontrei isso: “No final do Século XX, o Japão valorizava e buscava um estilo de vida “rápido, barato, conveniente e eficiente”, que proporcionasse prosperidade econômica. Porém, esse estilo também causou problemas tais como a desumanização, doenças sociais e poluição ambiental. Desejamos avançar no conceito de Slow Life, para alcançar estilos de vida ” calmos, relaxados e confortáveis, e passar de uma sociedade de produção e consumo em massa para uma sociedade que não agitada, mas que valoriza os bens e valores do coração”

    Se der certo…

    beijo


  3. Se eu já não fosse teu fã, me converteria nesse minuto. Como já sou, boto mais um tijolo na construção da enorme admiração que tenho por você, que escreve bem porque pensa bem. Olha, pensando melhor um tijolo é pouco, vou subir um andar inteiro depois do que li aqui.
    Até porque eu sou candidato às merdas que a vida reserva aos estúpidos que perdem o controle. Em dezembro parei no hospital e quase fui. Tá certo que quiseram me fazer de cobaia e isso é que foi foda, mas eu bem que podia nem ter ido là. Mas depois de umas férias, estou bem e em outro ritmo.
    Um grande beijo


  4. Post excelente e oportuno.
    Como você ressaltou, não é fácil romper esse círculo, pois somos permanentemente cobrados para manter o ritmo.


  5. “vida de artista pobre” é assim mesmo!
    Mas , as vezes, parar não é sinal de que ha algo errado…parar nem sempre é ruim…
    Tente aproveitar esse tempo, e tirar o melhor disso.
    bjim



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