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Hoje

12 agosto, 2008

Ela queria ser pragmática a ponto de saber o dia e a hora em que tudo acabou.

Sim, porque tem gente que sabe. E para ela, essas pessoas eram até mais felizes. Sim, porque são pessoas do tipo: “O rei está morto. Vida longa ao rei”, saca? – ela se perguntava, em pensamento.

Mas ela não era. Ela era uma pessoa confusa, que não guardava direito datas, não pagava contas no dia certo, esquecia o próprio número de telefone, datas de aniversário dos amigos e trocava senhas de cartões de banco.

Tudo o que ela sabia é que parecia ter acontecido em uma outra vida. E com outras pessoas.

Agora ela enxergava tudo com tamanho distanciamento, frieza e insensibilidade que o que se passou parecia fazer parte de um filme ou de um conto lido há longos anos.

Ela se lembra apenas de detalhes totalmente subjetivos, lembranças afetivas, cheiros, cores e sabores.

Seu rosto alongado, o sorriso certo, porém, para poucos. A estrutura longilínea, altiva, o cheiro cítrico de seu corpo e o jeito que rangia os dentes quando nervoso.

Os olhos negros e tristes. O semblante sério, dando a impressão de ser impassível. A perspicácia, a inteligência, os inúmeros talentos e uma queda para o humor negro.

E a loucura, a carência desmedida, a falta de controle, a invasão: de sonhos, de privacidade, de limites.

Tudo ruiu de repente. Pulverizou-se. Virou cinza e sumiu no vento.

Ele a encontrou num café outro dia.

Trocaram olhares, e ficou aquela sensação de “eu conheço essa pessoa de algum lugar”.

Mas o fato é que já não se conheciam mais.

Nunca mais.

Eram completos estranhos.

Ela pôs os óculos escuros e saiu da mesa, seguia demoradamente para a saída quando sentiu um toque leve em seu braço esquerdo.

Ela reconheceu o toque.

Dedos longos e finos. Discretos, porém firmes o bastante para que se fizessem reconhecer. Era ele.

Virou-se, inevitavelmente.

Os olhos se encontraram novamente por detrás das lentes escuras dos óculos de ambos. Não se preocuparam em retirar o acessório. Melhor assim. Eram confortavelmente protetores. Contra raios UV e antigos olhares penetrantes.

-Oi

-Oi…

-Você tá bem?

-Estou, e você?

-Também

-Você parece bem mesmo.

-Obrigada…er..você também? Heheh..o que se diz numa situação dessas?

-Se diz o que se quer dizer, Certo? Ainda vem aqui tomar café?

-Venho…não mudei todos os meu hábitos…

-É…ainda usa o mesmo perfume…

-Também. E você continua mordendo os lábios quando nervoso…

-Heheh..é.

-Bem, preciso ir.

-Tudo bem, eu também.

-Beleza.

-É.

-Então tchau.

-Tchau.

Ela se apressou e deixou a porta de vidro se fechar lentamente atrás de si. Ele ainda a observava, como se a esperasse voltar para dizer algo.

Ela não voltou. Como sempre. Ela nunca mais voltou. Continuou a andar, apressou o passo e atravessou a Avenida Paulista. Foi-se.

Mas isso não quer dizer que ela não gostaria de ter dito que esperava sinceramente que ele estivesse bem. Que estivesse com dinheiro e saúde. E cercado de amigos, vinho e boa música. Que tivesse encontrado alguém. Alguém que o amasse como ela não conseguiu amar. Ela gostaria de ter dito que queria vê-lo feliz. É isso.

Seja feliz, por favor.

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3 comentários

  1. Nossa! que lindo.
    Parabéns, eu gostaria de ter dito isso a uma pessoa….


  2. Acho que várias pessoas já passaram por uma situação dessas, com variações de lugar dentre outras coisas, mas o sentimento descrito por vc é perfeito! O pior não é se lembrar da relação, mas perceber que tudo passa, que os amorer não são eternos e nada como um dia após o outro! Excelente texto, sou seu fã!


  3. Adoro teus textos!Uma hora dessas, dê uma passadinha lá no Arquivo, que deixei um regalo lá pra vc.
    Beijão
    Lu



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