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Não se reprima

1 outubro, 2008

Queridolha, me responda:

Qual foi a última vez que você comeu um bolo de chocolate, daqueles fofos, cheio, mas cheio de cobertura e recheio de mousse, com calda, com morango e chantilly tomando toda a dimensão do pequeno prato de sobremesa tal qual uma nuvem fofa e alva, a metáfora perfeita do paraíso celestial…e lambeu os dedos? E sentiu o PRAZER que esse mísero doce pode te proporcionar? E sentiu suas veias queimando, borbulhando de endorfina e serotonina ao longo de seu corpo, e ficou zonza, rindo à toa, lambendo os lábios, com os olhos brilhantes, o coração acelerado…e se lembrou de que as únicas coisas capazes de te deixar assim são: aquele cara (ou mina) especial, aquele beque jamaicano puríssimo e…o tal bolo de chocolate?

Pois é, eu entro nessa lista aí. Não me lembro de ter comido um bolo desse tipo há tempos. E nem de ter sentido tamanho prazer ao comer um doce (ao comer um doce, que fique bem claro!) há um bom tempo, já.

Sabe porque? Por que sempre que provamos, ou mesmo sequer nos IMAGINAMOS comendo algo do tipo, nos reprimimos de imediato. E todo o prazer em potencial que poderíamos vir a sentir, é transformado em toneladas e mais toneladas de…

CULPA.

Sim, ela. Nossa velha amiga. Nem tão amiga minha, só conhecida…porque em muitas assuntos eu já me libertei dela, but…

Pode reparar. Entra século, sai século e a mulherada SEMPRE arruma um motivozinho para se trancafiar numa nova prisão. Como se já não bastassem as prisões que a mente feminina se auto-impõe, a sociedade vai lá e sempre arruma uma modinha pra mulherada se flagelar. Só pra não perder o costume.

Século passado eram a moral e o sexo, os grande motivos da repressão feminina. Aos poucos estamos nos libertando, apesar de faltar um longo caminho.

Agora é a estética.

Antigamente a mulher não podia ter apetite sexual. Hoje em dia ela não pode ter apetite algum, ponto final.

Bem, para mim ambos estão amplamente ligados, conforme esse texto aqui.

Mas a ditadura da magreza está tomando proporções catastróficas. Ser magra, hoje (obs: ser magérrima, de preferência) é tão importante quanto ser honesta. Magreza virou virtude. Ao menos entre as mulheres, porque os homens podem até ser gordinhos que a gente perdôa, mas, a cobrança entre o gênero feminino é implacável.

Só falta a fulana por que é magra no currículo: “Fulana de tal, executiva, 34 anos, Pós-graduação – MBA – MAGRA…”

Nossa cultura não aceita mulher acima do peso – e nesse caso, temos uma ironia aí – essa cobrança acaba virando ela própria, um peso extra, a própria cultura que a define.

Se a mulher não é magra, sofre franco preconceito de suas colegas e esse só é aplacado (de leve) se ao menos ela mostrar que se esforça 24 horas por dia para emagrecer. Aí sím, ela vai deixar de ser vista como fraca, desleixada, fora de moda e indisciplinada e será agora digna de piedade: “ah, coitada! Ela é gorda! Mas quer ser magra! Há esperança para sua pobre alma!” – Ou seja, o julgamento estético ganha caráter moral aí…  a mulher volta ao tribunal, à sua prisão, seu calabouço particular…e se auto-flagela com as cobranças alheias, arrancando nacos não só de seu corpo, mas de sua alma, a cada chibatada.

Uma gordinha feliz, bem-resolvida e de bem com a vida é um padrão antagônico demais para a cabeça das magrelas-psicóticas. As magrelas são as inquisidoras dessa nova era de extremos burros, onde as mulheres realmente livres, queimam na fogueira das vaidades.

Hoje em dia as mulheres sobem na balança com o mesmo medo e ansiedade com que se ajoelhavam nos confessionários e é por essas e outras coisas que quando resolvemos comer um doce delicioso encaramos o ato como sendo uma transgressão, um pecado. O que era um pecado contra o corpo, passou para uma esfera mais profunda, a da alma.

Ser magra passou a ser virtude no âmbito social, no mercado de trabalho, nos relacionamentos e na psiquê das mulheres, que, coitadas não conseguem lidar com o seu próprio peso, que dirá o da liberdade, não é mesmo?

3 comentários

  1. A única coisa que tenho a dizer é que engordei uns 8 quilos e que tenho que emagrecer urgentemente. E não é nem pela ditadura da magreza, é mais pela ditadura das minhas calças, que quase não cabem mais, ou cabem, quando eu pulo do armário que não tenho. Veja bem. É um horror. Estou me sentindo com um corpo pré-Homer Simpson. Acho que já estou até ficando amarela e careca. Quando a gente se vir novamente (quando? não aguento mais…) vai tomar um susto. Estou parecendo um pão de queijo. Que merda.

    Beijo, te amo.


  2. Outro dia comprei a revista Vida Simples justamente porque ela tinha um lindo bolo de chocolate na capa e a matéria era sobre culpa, ou melhor, sobre não tê-la, principalmente nos grandes prazeres da vida. Se eu achar no site te mando o link. Se antes eu não tinha culpa, agora não tenho mesmo!!!!
    beijo, Ju.


  3. O pior é saber que a gente não nasceu culpado, mas que aprendeu a deixar essa coisa entrar em nossa cabeça por ouvir demais o que os outros dizem. Abomino a culpa e felizmente aprendi a me livrar dela em vários sentidos.
    Beijos estratégicos…



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