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Restos de mim

1 dezembro, 2008

Em todas as vidas que vivi, trilhei deixando restos de mim pelo caminho, para que eu pudesse achar o trajeto de volta. Nem que fosse de volta para mim mesma.

Em todas as vidas que vivi eu amei e fui amada. Ao menos quem eu era na época, essa foi amada. A imagem que vendi, a imagem que idealizaram de mim, foi plenamente amada. Fui amada até a raiz de meus cabelos tingidos.

Em todas as vidas que vivi eu deixei e fui deixada. Lamentei e fui lamentada. Inda que por poucos segundos, porque, sabem como é… a vida continuou. A cada dia uma nova vida. Uma nova pele, uma nova lágrima.

Em todas as vidas que vivi eu traí e fui traída. Enganei e fui enganada. Nem que tenha sido por mim mesma ou pelos outros. Eu amaldiçoei e fui amaldiçoada. Eu paguei pra ver e fui à falência, mas também quebrei a banca. Eu testei meus limites, me queimei, mas ressurgi das cinzas.

Em todas as vidas que vivi eu quebrei e fui quebrada. Promessas, juras, confiança, janelas, vasos e pratos. Me arrastei, chorei, borrei a maquiagem, descolei o salto, rasguei a meia, fumei, bebi, me embriaguei e vomitei: minha moral, meus traumas, minhas verdades, minhas paranóias, meus próprios dogmas. E nunca acordei de ressaca.

Em todas as vidas que vivi eu aproveitei cada segundo como se fosse a última vez. E foram mesmo. Porque cada vez de alguma coisa é uma nova vez e a coisa não é nunca a mesma, e cada pessoa é um universo à parte, uma nova viagem intergalatica e eu sou apenas uma supernova, uma estrela (de) cadente, um corpo celeste orbitando a esmo pela eternidade afora.

Em todas as vidas que eu vivi, eu ensinei e aprendi. Mais um do que o outro e eles variaram de pessoas, situações, intensidades, lugares e paixões. Em todas as vidas que vivi, eu vivi e morri. E renasci a cada constatação, a cada final, que na verdade foram novos começos, a cada porta fechada, a cada beco sem saída. A cada sorriso perdido.

E assim eu sigo, rainha e prisioneira de meu próprio mundo. Um vento que sopra sem direção certa, propositalmente perdida, conscientemente instintiva.

E extremamente feliz.

One comment

  1. O personagem do Chaplin, no luzes na ribalta, acho que a última cena, tem uma fala que é o avesso intensivo do que está descrevendo, mas pelo lado da morte. O que significa que confirma todo o jogo de conquistas e perdas, com a diferença que, no caso dele, do personagem, as perdas são dramaticamente mais fascinantes. “Acho que estou morrendo, mas não tenho certeza, já morri tantas vezes”.

    Cesar Kiraly



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