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Obrigado, não

2 abril, 2009

Já dizia a música da Rita Lee.

A palavra obrigatoriedade não me é vista com bons olhos de maneira alguma. Tudo que é obrigatório implica na cassação de nossos direitos de escolha e isso, ao meu ver, é um verdadeiro crime.

Obviamente que, numa utopia, todos teriam bom senso e fariam para si e em prol de outros a melhor escolha possível. Porém, isso infelizmente não existe e em seu lugar construiram-se as regras, algumas para nossa própria proteção e que precisam ser cumpridas. Algumas.

Estou falando sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, assunto em pauta para votação no STF desde ontem, 1º de abril de 2009 e que vem se arrastando por longos oito anos entre medidas provisórias e precárias. Obviamente estou ciente de todas as implicações e legislações trabalhistas que envolvem esta questão, mas, mesmo assim, creio que este ainda não seja o ponto central de toda discussão, por incrível que pareça.

Eu fui escolhida pelo jornalismo, não o escolhi. Comecei trabalhando muito cedo, 19 anos, numa multinacional de mídia. Na época cursava química, mas logo me desinteressei pelas ciências exatas e resolvi apostar em humanas, definitivamente minha praia.

Prestei vestibular para os cursos de cinema (área de especialização da empresa onde trabalhava) e jornalismo. Também pensei em optar por Rádio e Televisão, já que estava bem envolvida com os dois na época, mas depois de ter avaliado o currículo do curso e comparando-o com os demais vi que jornalismo seria muito mais abrangente culturalmente. E foi. E assim fui lançada nesse mundinho vil.

Os anos passados na faculdade figuram entre os melhores da minha vida. Não me arrependo nem por um segundo da profissão por mim escolhida. Ok, talvez depois de ver meu extrato bancário no fim do mês, mas,fora isso, escrever, produzir, correr atrás da notícia, apurar, avaliar, estudar e me aprofundar sempre foram atividades prazerosas e por isso fáceis, pra mim. Tive ótimos mestres, colegas, grandes desafios e diversas descobertas.

Passei por muitos lugares, jornais, revistas, estações de rádio, produtoras e TVs e tive a oportunidade de trabalhar com toda sorte de profissionais, os bons, os ruins, os medíocres, os graduados e os sem-diploma.

Por isso, sem querer paracer simplista ou dona da verdade, digo a vocês: a obrigatoriedade do diploma de jornalismo é tão necessária quanto é uma bicicleta para um peixe.

Conheci pessoas altamente graduadas incapazes de imprimir o mínimo de estilo a um texto. Incapazes de prender a atenção do leitor. Do ponto de vista técnico, seus textos eram impecáveis: lead correto, informações preciosas e verdadeiras, opiniões de especialistas para transmitir credibilidade, português incorruptível e sem a mínima graça. Técnicos e frios como uma bula de remédio. Vazios, inócuos. 

Todos os seus textos eram praticamente iguais, seguindo a fórmula pré-estabelecida de como um texto jornalístico precisa ser. O que, convenhamos, qualquer um consegue fazer, se receber instrução para tal.

Mas, felizmente, também convivi com pessoas que tinham talento NATO para escrever.

E que não precisaram estudar teoria da comunicação, lingüistica, discurso, história da imprensa… simplemente sentavam-se à frente do computador (e na época eram aqueles trambolhos com monitor de fósforo verde)  e davam à luz a textos belíssimos e não menos informativos, esclarecedores, inspiradores, verdadeiros, bem apurados, puramente “jornalísticos” do que os do “com diploma”.

Com a diferença de serem extremamente bem escritos. Desafiadores. Questionadores. Que incitavam à reflexão, à discussão, que faziam rebuliço, que causavam algum tipo de comoção.

Mas eu, eu sou uma idealista romântica. Sou movida pela paixão, preciso de algo que estremeça meu íntimo, que seja capaz de me fazer rever conceitos, por isso admiro tais profissionais e seu trabalho.

Eu, eu sou apenas uma jornalista especializada em cultura pop e comportamento e, cultura, ora quem precisa disso? Inda mais pop! POP!

 Não tenho a retórica e a frieza  características aos gigantes do jornalismo. Não tenho o distanciamento nem a tão almejada imparcialidade nas apurações. Sou total e completamente incapaz de escrever um texto sem colocar nele um pedaço de mim. E isso, em matéria de jornalismo, é um crime.

Mas um dia, um grande jornalista e mestre chamado Aloysio Biondi, pegou uma matéria escrita por mim sobre o governo Collor no Brasil, olhou bem nos meus olhos e disse:

– “Você tem talento, você vai longe”

Sabe, ele podia até falar isso para todas as aluninhas dele, mas sendo quem ele era e conhecendo-o e admirando-o como eu fazia (e ainda faço), por mais que eu não tenha acreditado e que muitas vezes ainda duvide de suas palavras, creio que ele estava sendo sincero.

E querem saber, tais palavras de ânimo ditas por alguém com o cacife e o estofo de Aloysio Biondi valem mil vezes mais do que um diploma pra mim.

Por conta de tais palavras não desisti, como muitas vezes tive vontade.

Portanto amigos, eu lhes digo, por mais que minha opinião seja parcial, simplista, apaixonada e sem base:

a obrigatoriedade do diploma em jornalismo é mera muleta para os sem-talento.

E tenho dito.

One comment

  1. meu pai, esta sofrendo sem diploma de jornalista mais coloca muito jornalista no bolso (sem querer puxar o saco ;x )



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