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Felicidade old school

16 abril, 2009

Eu adoro filosofar. E não me considero filósofa. Apesar de ser pimentinha, tenho profundos, silenciosos e intermináveis momentos de reflexão. E durante esses momentos, leio, mergulho em mim, estudo, aprendo, filosofo. Essa semana li sobre Epicuro.

Tem gente que acha que filosofar é ser capaz de erguer um sólido edifício de pensamentos coerentes e únicos.

Outros, acham que basta ler filósofos consagrados e esmiuçar seus sistemas de pensamento para então torná-los claros para outras pessoas, ou pior, há quem acredite que filosofia é só seguir a palavras de tais filósofos.

Mas filosofar e seguir a filosofia é simplesmente “viver bem” , não por acaso, um dos grande filósofos helenisticos chamado Epicuro – o pai do “epicurismo” e vá lá, do “hedonismo” – a comparava com a medicina, por exemplo. “Não se deve aparentar estar filosofando, mas deve-se sim, filosofar de fato, assim como de nada adianta fingir ser saudável, é preciso ser realmente saudável”, disse ele.

A filosofia para Epicuro era uma intervenção terapêutica, uma maneira de tratar o padecimento da alma.

E a meta de sua filosofia era sentir prazer em si mesmo.

A filosofia de Epicuro não é engessada e teórica, pelo contrário é descomplicada, acessível, apesar de repudiar o conhecimento supérfluo.

Malabarismos intelectuais são para ele, meros exibicionismos vaidosos, tagalerices vazias e inócuas, incapazes de transformar vidas. E ele queria fazer isso. Afinal para que serve uma filosofia que não trata de vida?

Para ele, a filosofia era quase uma religião, tanto que ele criou sua própria prece, que acho que serve pra gente hoje em dia:

“Os quatro remédios devem estar sempre à mão:

-das divindades não precisamos ter medo
– Não há dor na morte
– O bom é fácil de se realizar
– O ruim é fácil de suportar

Vai dizer que não é uma filosofia acessível? Podemos até decorá-la como um poema. Um colega de Epicuro, 2 mil anos depois resumiu sua filosofia: “Não há nada para entender, trata-se de algo para fazer” – (Gilles Deleuze)

– Das divindades não precisamos ter medo

Obviamente Epicuro estava falando de Zeus, seu deus, que nem de longe tinha sobre si o peso que o deus judeu-cristão que conhecemos, carrega. Para ele, Zeus existia para estimular os seres humanos ao atrevimento. Zeus permitia a seus filhos serem independentes das opiniões alheias  e desenvolver um estilo pessoal de vida e adoração a ele.

Esse deus definitivamente não é um juiz, que se diverte turturando a humanidade com culpa e remorso, ao contrário, é um deus passional que entende nossas falhas no pensar e agir.

Não é um deus doentio que exige nossa contrição, que nos obriga à disciplina sob a promessa do paraíso no porvir, ou caso contrário, à danação eterna. Chega desse deus de medo.

– Não há dor na morte

Todo mal e todo bem vem da sensibilidade: a morte é a privação dessa sensibilidade (Epicuro)

Na minha o pinião, pior do que a iminência da morte é a conclusão de que não se viveu.

Por isso, Epicuro, já adiantando o budismo, aconselhava “viva cada dia como se fosse o último ou considere um só dia como sendo sua vida inteira”

Viver não é especular sobre a hora da morte ou sobre a vida após a morte mas o constante exercício de aproveitar o momento.

Não alimente medos inúteis.

-O bom é fácil de realizar

Aqui o bicho pega. Epicuro defende a idéia de que para ser feliz o homem precisa de pouco. O que vai de encontro à filosofia de vida de nossa sociedade atual, ávida por consumo, carente de valores, destemperada, desequilibrada quando se trata de reais necessidades humanas. O engraçado é que ele também bate de frente com a doutrina cristã no combate das “paixões da carne”. Para ele, essas paixões são fundamentais para a felicidade do ser humano. ” A voz da carne diz: não se deve sofrer, ter fome ou frio. Quem sacia essas necessidades pode competir com Zeus em matéria de alegria.”

Muito poucos se contentam somente com essa idéia simples de felicidade.  O espírito não está separado da carne e com alegria, dor, desejo e outras paixões, nossa consciência se mantém sempre alerta. Desejo e carne estão portanto, sempre ligados.

Mas para Epicuro existem três tipos de desejo: naturais e necessários, naturais e não necessários e não-necessários.

E com isso, quem diria, Epicuro já era “verde”, carbon-free e avant-garde: ele nos estimula a sempre questionar se, de fato, vale a pena possuir mais coisas ou se queremos possuir só para satisfazer nosso desejo de status.

Por outro lado, Epicuro era bastante descontraído quanto à matéria sexo. Se para excitar e satisfazer uma mulher ou homem for necessário fazer piruetas, se humilhar ou ferir o amor próprio, para ele ficava claro que não se tratava de uma vida sexual saudável e não-natural. Fora isso, ele diz: vale tudo, desde que se preserve o necessário à vida.

 – O ruim é fácil de suportar

 Como um claro defensor do hedonismo, da felicidade e da vida, aqui, Epicuro falava sobre o “ruim” em termos de morte. Assim sendo, ele esperou o final de sua vida com vinho e banhos quentes. Nas termas, bebendo vinho cercado de amigos e discípulos, acabou reafirmando sua filosofia com a própria vida.

Ele não temeu a morte mas se habituou a pensar nela. Assim como Sêneca, que dizia: ” Quem faz assim pratica a liberdade de pensamento, pois quem aprendeu a morrer, desaprende a ser escravo”.

Grande cara, esse Epicuro. Sabia o que era ter Fogo nas Entranhas.

One comment

  1. Gabi, esse post bateu lá no fundo… Eu, química, com marido filósofo (cujo diploma ele quer pôr fogo qualquer dia desses)…

    Agora, filosofar realmente é preciso… E é preciso ter uma agilidade pra não deixar a vida sufocar isso, hein?!

    Saudades, miga!!! Beijão!!!



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