Archive for maio \28\UTC 2009

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Rosas selvagens

28 maio, 2009

 

Eu, sincera e verdadeiramente espero que esteja tudo bem. Sério. Espero que você tenha achado seu caminho, que tenha encontrado alguém que te ame – e que você ame de volta, apesar de, para você, isso ser irrelevante – que tenha descoberto o sentido da vida e a salvação nas artes e na poesia, na fruição estética que tanto buscamos, em vão, como todo o resto…

Espero, francamente, que esteja ganhando dinheiro e gozando a vida. A vida, essa vadia infrene, essa algoz monstruosa, essa colombina de humor sombrio que nos faz engasgar com seu confete e que depois nos deixa perdidos, bêbados e sozinhos no salão, depois da festa…

A vida…

Pois é, apareci depois de tanto tempo, “um fantasma infausto de sua vida pregressa” como você gosta de inflar o peito e encher essa sua boca pra falar. Essa sua boca cheia de dentes alvos, que exibe esse seu sorriso ceshiriano, besta, mascarado, blasé. Esse sorriso lindo.

Essa sua boca…

Só passei pra dizer que, enfim, depois de tudo dito, não dito e maldito finalmente acabou. Não resta pedra sobre pedra, literalmente.

Espero que você esteja no controle de suas ações e dessa sua boca.  Veja bem o que você vai me falar…
Sabe, se você estivesse aqui, digo, fisicamente presente, se eu não estivesse feito uma idiota aqui, de pé, na chuva, apertando o botão desta porra de porteiro eletrônico sob o risco de levar um choque, se tivesse culhão o bastante para me olhar nos olhos, eu te diria para sair na chuva e… sentir a brisa.

Porque a chuva, a brisa, ah, seriam coisas concretas, capazes de tocar sua pele, já que memórias…

Memórias, meu amigo, não são reais.

Não há mais nada.

Se você quiser dar uma olhada no terreno onde antes havia nossa casa, bem, deixei um papel com algumas instruções… não sobrou quase nada, você não vai se achar, enfim…

Demoliram a garagem e nosso antigo quarto. Como não retiramos mais nada, e nenhum de nós deu as caras ou mencionou algo à demolidora eles… derrubaram tudo e…

Soterraram.

Soterraram móveis, roupas e tudo mais que havia, mas! Não, não fique triste.

Sobraram algumas fotos e aquele maldito buquê de rosas selvagens para alimentar sua pira funerária…

Porque você não desce? Porque não me olha na cara? Você sempre, sempre saiu pela tangente, nunca enfrentou nada, você…

Você saiu…

Está frio, estou batendo os dentes. E, eu só passei pra deixar alguns papéis e oficializar a condição.

Não há mais nada.

Tchau.

(Conto baseado na canção “Dog Roses” do disco Neptune, da banda britânica The Duke Spirit)

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Chamado selvagem

26 maio, 2009

 

Dentro de mim mora um grito…
De noite ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar.
Sou aterrorizada por essa coisa negra
Que dorme em mim;
O dia inteiro sinto seu roçar leve e macio, sua maldade.
Nuvens passam e se dispersam.
São estas as faces do amor, pálidas, irrecuperáveis?
Foi para isso que agitei o meu coração?
Sou incapaz de mais compreensão.
E o que é isso agora, essa face
Assassina em seus galhos sufocantes?
O beijo traiçoeiro da serpente.
Petrifica o desejo. Esses são os erros, solitários e lentos,
Que matam, matam, matam.

Sylvia Plath

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Happening

25 maio, 2009

 

Eu defino por pessoa do bem, aquela que segura os alicerces da barraca que protege a humanidade.
A mesma que abriga aqueles que querem tocar fogo na lona.

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A última fronteira

21 maio, 2009

 

Mulherzinhas modernas se gabam de ter conquistado o mundo: ganham mais do que homens, são PHD’s e  tem MBA’s, carros caríssimos, jóias, sapatos, iates, apartamentos, uma vida social agitadíssima, são cultas, viajadas, vividas, donas do próprio nariz, descoladas, e etc, mas ainda não romperam a última fronteira: não pensam como homens.

E isso, minhas amigas, fode com tudo o que elas conquistaram até hoje.

Porque, o que adianta você estar no topo do mundo se sua cabeça continua no fosso da paranóia eterna?

Sim, porque a mulher ainda não deixou de ser paranóica e provavelmente nunca vai deixar. E queridas, com certeza é isso que as impede de conquistar, finalmente, a supremacia.

Tô afim de lancer um livro, desses vagabundinhos, tipo manuais de auto-ajuda.

Já tenho até o título: “Pense como um Homem – A mulher, rompendo a última fronteira.”

E vai ter dicas práticas, do tipo:

1- Esqueceu de pegar o filho na escola? Não tem problema, fique calma. Você não é uma péssima mãe por isso! Simplesmente estava totalmente aterafada e buscar o filho foi um mero detalhe que passou batido! Fique tranquila, as tias da escola vão ligar pra você e vai ficar tudo bem, ligue o rádio e sintonize uma estação onde o campeonato estadual esteja sendo transmitido.

 

2- Não tem nada pra comer em casa? Também não entre em pânico, apenas chame uma pizza. Tudo bem que ontem e anteontem você também chamou, ao menos varie no sabor. Não pense em calorias muito menos numa dieta saudável. NUNCA. Pense apenas no prazer de saborear a pizza, beber um refrigerante enquanto zapeia feito louca a televisão. E acaba no canal de esportes.

 

3- Ele quer ir ao cinema, ao show ou ao aniversário da sobrinha no sábado? Nem pensar! Sair com as amigas é SA-GRA-DO. Diga pra ele que o relacionamento de vocês não vai dar certo se ele continuar pegando no seu pé sobre suas saídas ao sábados à tarde.

 

4-A casa ta uma zona, as roupas estão todas para lavar, não tem mais nem um copo para beber a porra de uma cerveja no armário? Não esquente a cabeça: saia, compre uma roupa nova, aproveite páre no barzinho lá da esquina e tome uma breja.

 

5- Sua funcionária precisou faltar pelo terceiro dia seguido? Tá folgando. Publique agora um anúncio de emprego para substituí-la.

 

6- Seu colega de trabalho veio com uma calça linda que deixa a bunda dele totalmente aparente. Convide-o para jantar, hoje, aborde-o na máquina de xerox. Não esqueça de elogiar a roupa.

 

7- Viu um Iphone diferente e que custa R$ 20.000,00? Compre, sem culpa.

 

8- Não procure um parceiro muito inteligente ou ele vai acabar pegando muito no seu pé, te desafiando intelectualmente, ou seja, vai te dar mais problemas além de todos os que você já tem no trabalho. Mire nos bonitos e fúteis. Ao menos causam boa impressão entre as amigas.

 

9 – Nunca fale sobre seus sentimentos. Está tudo bem, sempre. E se não estiver, ninguém tem nada a ver com isso, seja firme, resolva tudo sozinha, como uma mulher deve fazer, mesmo que isso te cause um ataque cardíaco.

 

10 – Compre um daqueles aparelhinhos descartáveis para mijar em pé. Incline-se para frente na hora em que for fazer, é importante dar aos demais presentes a impressão de que o seu aparelhinho é MAIOR e melhor que o dos outros. E o chacoalhe, antes de jogar fora. Faça disso um ritual.

 

Vai vender horrores. Literalmente.

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Volúpia

20 maio, 2009

…because I love you too much, baby

(PS: Vc consegue sentir a sofreguidão dessas garotas? Eu consigo…)

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Means to an end

18 maio, 2009

 

Há 29 anos um jovem inglês, natural de Manchester, se enforcou na cozinha de sua casa em Macclesfield.

Encontraram-no pendurado ao lustre, junto com um bilhete suicida: “Neste exato momento, espero estar morto. Não aguento mais”, enquanto o álbum The Idiot, the Iggy Pop girava, já sem som, no toca-discos.

Ian Kevin Curtis, nasceu em Old Trafford, Manchester, em 1956 e embora tenha sido um aluno brilhante, com grande talento para as línguas e poesia, não demonstrou muito interesse no sucesso acadêmico e planejou ser músico desde a mais tenra idade.

Até alcançar seu objetivo, fez alguns bicos como vendedor de loja de discos e como  funcionário público. Casou-se muito jovem e teve filhos ainda muito cedo, o que, de certa forma também lhe causou muita pressão e culpa posteriormente.

Foi depois de ver uma apresentação dos Sex Pistols em 1976, que Ian decidiu de uma vez por todas que ia ter uma banda a qualquer custo. Foi então que chamou os colegas  Bernard Sumner e Peter Hook, já que os dois já estavam há tempos procurando um vocalista, fez um teste e ganhou o posto e admiração dos colegas por sua voz baixo-barítono.

Os três recrutaram (e rejeitaram) uma sucessão de bateristas até a decisão de aceitar Stephen Morris como o quarto membro da banda, que a princípio se chamou Warsaw, até mudar seu nome para Joy Division, em menção à “Divisão da Alegria”, uma divisão de prostitutas judias que os nazistas mantinham durante a II Guerra, para seu deleite. 

 Ian era francamente germanófilo e no começo a banda enfrentou muita resistência e gerou polêmica devido à acusações de flerte com o nazismo.

Dizem as lendas do rock que foi a persistência de Curtis que garantiu à banda um contrato de gravação com a hoje lendária Factory Records, que na época era uma gravadora de fundo de quintal, pertencente a Tony Wilson.

  Ian convenceu Tony a deixar a banda a tocar “Shadowplay” no Granada Reports — um programa regional de televisão apresentado por Tony que eventualmente apresentava bandas de sucesso na Inglaterra.

 Ao ver a apresentação do Joy Division, Wilson tratou de fechar o melhor contrato de sua vida, que garantiu dinheiro e fama à Factory.

A marca de Ian, além de seu vozeirão grave e retumbante, era sua estranha maneira de dançar, onde na verdade ele reproduzia os movimentos espasmódicos do corpo durante um ataque epilético, já que sofria da doença. 

Aliás, o cantor teve vários ataques durante apresentações. Alguns leves, em que o público não conseguia distinguir epilepsia de esquisitice, e outros, mais graves, onde o show precisou ser interrompido e Curtis levado ao hospital ou ser atendido no palco mesmo, o que aumentou ainda mais a polêmica e a atmosfera soturna que rondava a banda.

A rotina de shows começou a deixá-lo cada vez mais frágil e suscetivel a ataques. Ele começou a tomar medicação pesada para conseguir seguir adiante com seu sonho, sem que a doença o impedisse.

Muitos desses remédios tinham como efeitos colaterais depressão, fobias, perturbações e até dor física.  Eis o porque da maioria das canções de Curtis serem terrivelmente deprimentes, falando de morte, violência, alienação e decadência, em todos os sentidos.

Ian Curtis foi fortemente influenciado pelos escritores William Burroughs, J G Ballard e Joseph Conrad — os títulos das canções “Interzone”, “Atrocity Exhibition” e “Colony” vieram dos três autores, respectivamente.

Ian também foi influenciado por músicos, não menos icônicos como: Lou Reed, Jim Morrison, Iggy Pop e David Bowie.

Joy Division é uma das minhas bandas favoritas e fez parte de momentos importantíssimos de minha vida.

Eu entendo Ian, às vezes. E lamento, por ele não ter aguentado mais.

Lá se foi mais um gênio.

Caminhe em silêncio
Não partas, em silêncio
Veja o perigo,
Sempre o perigo
Falação sem fim
Reconstrução da vida
Não partas

Caminhe, em silêncio
Não vire as costas, em silêncio,
Sua confusão, minha ilusão.
Emoldurando-se em uma mascara de ódio-próprio.
Confronta-se e morre…
Não partas

Pessoas como você acham fácil
Despido para enxergar
Caminhando pelo ar
Caçando pelos rios
Através das ruas
Em cada esquina abandonada tão rápido
Resignado com o devido cuidado
Não partas, em silêncio
Não partas

*Atmosphere

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Toda forma de poder

15 maio, 2009

 

Humberto Gessinger, o líder, crooner e letrista da banda gaúcha Engenheiros do Hawai não passa, nem de longe, no meu rol de ídolos do rock. Mas, tenho que reconhecer que, entre rimas fáceis, mal-ajambradas e muitas vezes ridículas, ele certamente produziu algumas pérolas de franca inspiração, tal como a letra da canção que empresta seu título a esse post –

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Toda forma de conduta se trasforma numa luta armada. A história se repete mas a força deixa a história mal contada… o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada. É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada. Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada. –

Fui convidada pelo meu ilustre amigo-blogueiro-e-colega-de-faculdade, Alexandre Inagaki a uma blogagem coletiva referente à lembrança dos três anos de ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital) à cidade de São Paulo, em maio de 2006.

Me lembro como tudo começou. Literalmente por conta da transferência dos líderes da facção (entre eles: Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola) para a prisão interiorana de Presidente Wenceslau e para a sede do Deic, aqui perto de casa em Santana, zona norte da capital.

Por conta disso, policiais, civis e praticamente toda a cidade de São Paulo, mais de 18 milhões de habitantes, uma das maiores cidades da América Latina, se viu à mercê de um grupo que, guardadas as devidas proporções, não fez nada mais nada menos qu aterrorizar a população, assassinando policiais, civis, estipulando “toque de recolher” e depredando patrimônio público, como forma de retaliação, revolta e demonstração de poder, num jogo desonesto, desumano, egoísta, tirano.

Se isso não é uma forma de terrorismo, me expliquem então o que é, porque acho que não entendi.

Na época foi o maior bafafá e assuntos públicos antigos e inacabados inevitavelmente vieram à tona. A questão da reforma do sistema prisional, do treinamento e ação policiais, reforma do judiciário, violação e limites dos direitos humanos no sistema carcerário, o governador na época (Cláudio Lembo) declarando que os ataques “eram previsíveis”, a opinião pública questionando: “se eram previsíveis porque não foram impedidos?” E enfim, como tudo no Brasil, muito barulho por nada. Não aconteceu nada, não deu em nada.

Vidas foram tiradas – estivessem elas envolvidas ou não, certas ou não, não cabe a nós o julgamento de pena de morte. Não cabe à ninguém. Cabe a nós medidas legais compatíveis com os crimes e não justiça pelas próprias mãos, porque esse caminho é tortuoso, cheio de atalhos, relatividades, ambiguidades – a cidade sitiada, pessoas apavoradas e, vejam só: pra nada.

Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada. Ontem, uma criança de 11 meses foi atirada, em chamas, pela janela de um ônibus na zona leste de SP (como bem me disse o Mr. Music).

 O que vai acontecer depois disso? Nada.

Você leu isso no jornal e provavelmente nem se lembra mais. O jornal vai virar banheiro de cachorro, embrulho de peixe…e esse bebê? Vai virar o quê? Um cidadão de bem? Ou um outro Marcola, revoltado, com 90% do corpo queimado, insandecido e doente para descontar na SOCIEDADE QUE NÃO FEZ NADA?

Literalmente nada. Nem a favor dele, nem contra ele.

 “Ou morre-se como herrói ou vive-se o bastante para se tornar o vilão?”.

É uma espiral descendente constante, é um Oroboros de erros, é a lei do eterno retorno, é um inferno perene.

Tudo por conta de jogos de poder. O poder público versus a polícia, versus criminosos versus á sociedade civil versus criminosos versus a policia versus o poder público.

Eu respeitei os toques de recolher na época e fiquei sabendo de colegas que tiveram membros da família, que faziam parte da Polícia Civil, mortos nos ataques.

Mas eu respeitei por medo. O medo é uma forma de poder. Um dos recursos mais utilizados no Brasil, aliás…e como disse o filósofo bufão, Humberto Gessinger : “toda forma de poder é uma forma de morrer por NADA”.

Yeah, yeah.