Archive for junho \26\UTC 2009

h1

O pobre menino rico

26 junho, 2009

Em 1985 eu tinha 9 anos de idade já possuía o disco mais vendido do mundo, sabia todas as suas letras e coreografias. Treinava em frente ao espelho. Até apresentei algumas no colégio.

Ontem, dia 25 de junho de 2009 o cantor e autor do mesmo disco, Thriller, esse que marcou minha infância e que, de uma forma ou outra despertou meu gosto pela música negra, faleceu em decorrência de uma parada cardio-respiratória em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos da América, seu país.

Não pretendo fazer mais um post sobre a trajetória de Michael Jackson, menino prodígio e problemático da família de muitos irmãos e que foi maltratado e forçado pelo pai a trabalhar no showbusiness, perdendo assim, a infância e a inocência.

Vocês vão ser soterrados por posts e reportagens do tipo. Na internet, na TV na mídia impressa. …

Eu só queria dizer que, claro que o impacto de sua morte me atingiu, mas, de alguma forma, foi suavizado pelos longos anos que nos mostraram sua franca decadência.

Comecei a lamentar por MJ quando surgiram os primeiros boatos sobre seu envolvimento com pedofilia, seus discos cada vez piores, mal produzidos, suas esquisitices e declarações infelizes.

Percebi que um dos homens mais talentosos e ricos do mundo era total e completamente infeliz.

Que mesmo sendo aclamado como rei do pop, tendo a marca de maior vendagem de discos do mundo, ele não se sentia apropriado, amado e aceito.

Talvez não pelas pessoas que importavam para ele. Sozinho na multidão.

Adorado por milhões e mal-amado por quem realmente importava.

O pobre menino rico.

Talvez ele não quisesse ser pop star. Talvez isso, na cabeça de quem é maluco por fama, dinheiro, poder e badalação seja um absurdo, mas talvez fosse a vontade dele. E precisava ter sido respeitada.

A violência tem várias faces e pode surgir dos lugares mais improváveis, muitas vezes se esconde sob a frase “Eu sou seu pai, eu sei o que é melhor para você”.

Existe um egoísmo implícito nessa frase. Mas que ninguém ousa contestar, não é mesmo?

Micheal era brilhante. Dançarino e cantor fenomenal. Foi talhado para o estrelato, foi fabricado, cada mínimo detalhe, roupa, cabelo, gestos, sorriso…foi tão fabricado e tão modificado que acabou virando um monstro.

Talvez por sentir-se preso em seu próprio corpo. Talvez por querer ser uma outra pessoa. Totalmente diferente, com uma vida e uma história diferentes.

De algum modo eu o entendia. E sentia pena.

A fama cobra um preço cruel: a perda de sua identidade – Estão aí: Britney Spears, Michael Jackson, Elvis, Kurt Cobain e muitos outros ícones que se perderam de si mesmos no limbo do estrelato – para provar tudo isso.

Será que vale a pena?  Será que a fama é uma droga que quanto mais consumida mais te afasta da realidade do mundo e de seu verdadeiro eu?

Existe uma dose segura de fama? Qual é a receita?

O que é sucesso, afinal?

Ganhar o mundo e perder sua alma?

RIP MJ.

h1

Mulheres Possíveis

24 junho, 2009

Ando muito sem tempo. Sério, sorry por isso. Ainda estou formulando um texto legal sobre um certo assunto aí…posto no fim de semana.

Mas enquanto ele não sai, aqui vai um pouco de Martha Medeiros que é sempre genial e cujo texto tem tudo a ver comigo e creio eu, com vocês.

Abraços, saudades

—————————————————————————–

‘Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails.
Faço ainda, revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.

Seu pai e sua mãe acreditem, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias.

Cinco dias!

Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se há ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante’ .

Martha Medeiros – Jornalista e escritora

h1

O não-amor

12 junho, 2009

Já se falou tanto em amor e paixão… Que tal falarmos do que não é amor ???

Se você precisa estar se relacionando com alguém para ser feliz, isso não é amor. É carência.
Se você tem ciúme, inseguranças mil e é capaz de fazer qualquer coisa para manter um relacionamento  mesmo sabendo que não é amado, isso não é amor. É falta de. Falta de amor próprio.
Se você acredita que “ruim com ela(e), pior sem ela(e)”,  que sua vida fica vazia sem essa pessoa; não consegue se imaginar sozinho e é incapaz de ter vida própria ou seja,  existe em função do outro,  isso não é amor. É dependência.
Se você acha que o ser amado lhe pertence; sente-se dono(a) e senhor(a) de sua vida e de seu corpo; não lhe dá o direito de se expressar, de ter escolhas, desejos, sonhos que não sejam iguais aos seus, isso não é amor.  É egoísmo.
Se você não sente desejo; não se realiza sexualmente; prefere nem ter relações sexuais com essa pessoa, porém sente algum prazer em estar ao lado dela, isso não é amor. É amizade. (ou Frigidez.  Consulte um médico)
Se vocês discutem por qualquer motivo; morrem de ciúmes um do outro e brigam por qualquer coisa; nem sempre fazem os mesmos planos, não tem os mesmos valores; discordam em muitas situações; não tem gostos em comum, nem amizades , são incpazes de fazer concessões um pelo outro, mas sexualmente combinam perfeitamente, isso não é amor. É desejo.
Se seu coração palpita mais forte; o suor torna-se intenso; sua temperatura sobe e desce vertiginosamente, apenas em pensar na outra pessoa, isso não é amor. É paixão. (ou medo. ou dor de barriga, sei lá)

O príncipe encantando não existe. E você lutou para deixar de ser a princesa, anos atrás, lembra-se?

Pois é.

(Quem Inventou o amor, me explique por favor – R. Russo -adaptado por mim)

h1

Transamerica – latina

3 junho, 2009

Sou uma observadora do gênero humano. Adoro observar pessoas, comportamentos, manias, aparência. Não em tom de julgamento, mas de análise, absorção e processamento das diferenças entre nós.

Observando, somos capazes de compreender melhor o outro. Analisando, pondo-se no lugar de outrem, exercitamos a humanidade em nós.

Ontem, voltando para a casa, presenciei uma cena curiosa no trem.

Logo ao entrar, dei de cara com um casal diferente. O homem, jovem, pinta de cantor de rap, bem apessoado, estava acompanhado de uma morena alta, vistosa, cabelos negros e lisos compridos, boca carnuda, olhos delineados e com cílios bem longos.

Não pude deixar de reparar (e creio que nem os demais presentes) no generoso decote que usava. Estava bem frio e ela usava uma blusa colante vermelha com um generoso decote que deixava à mostra o belo colo de seios fartos, por cima, um pesado casaco de couro.

Pela altura e proporções exageradas, ficava claro que se tratava de um transex.

Ela estava de mãos-dadas com o companheiro e pareciam felizes.

Foi quando fui surpreendida por sua voz grossa, chamando a atenção de um outro homem.

-O que foi? Eu vi você cutucando o seu amigo e dizendo “olha só esse traveco!” – ela disse

-Eu não fiz nada! Eu fiz alguma coisa? – tentava se justificar o outro.

– Se liga, depois leva uma na cara e vai ter vergonha de ter falar que apanhou de um traveco! Eu não te fiz nada, nem te pedi nada, me deixe em paz!

Depois disso, um silêncio constrangedor.

O suposto preconceituoso desceu na estação, deixando o lugar ao lado do transex, vago, onde me sentei.

Pude observar que ela estava bastante perturbada, os olhos marejados, a boca trêmula, fazendo menção de que iria chorar.

Provavelmente havia se sentido aviltada, envergonhada, espinafrada, marcada.

Estava ali uma cidadã normal, voltando de sua jornada diária de trabalho (ela havia comentado algo sobre situações no escritório) com seu parceiro de relacionamento, (não cabe a nós especular qual o tipo de relacionamento que tem), feliz, provavelmente em dia com suas contas, ou talvez devendo uma coisa aqui e outra ali como todo mundo, não se envolvendo com a vida alheia e de bem com a dela mesma.

Mas é claro que pessoas preconceituosas, pobres de espírito, infelizes, amargas, que devem ter uma vida miserável emocionalmente, que mendigam atenção, a mínima que seja, nem que para isso tenham que envolver uma terceira pessoa em suas conversas para se projetar, de tão míseras, ínfimas, medíocres que são, foram capazes de desequilibrar alguém que, emocionalmente, parecia vulnerável e – porque não? – delicada.

Eu senti pena dela. Sério, senti mesmo. Ela estava agindo pura e simplesmente como uma mulher. Pude entendê-la por isso. Quis se defender porque, é raro encontrar (e talvez não houvesse, nem há, na verdade) alguém que tome duas dores.

Mas ela não queria fazer aquilo, não queria PRECISAR fazer aquilo. Só queria chegar ao seu destino, desfrutar da companhia de seu parceiro, aproveitar a viagem. Só quer viver em paz.

Eu vi que ela ia chorar…uma lágrima estava pronta pra cair. Seu companheiro apertou sua mão e pronto, a lágrima escorreu pela face, desnudando enfim sua fragilidade.

Não me contive, tirei da bolsa um pacote de lencinhos de papel e ofereci a ela.

Ela aceitou, com delicadeza e elegância, sorriu, me agradecendo e me olhando nos olhos.

Houve comunhão, identificação, solidariedade, ali houve, humanidade.

Eu juro que quis falar  – “ninguém merece essa sua lágrima, ninguém merece essa sua demonstração de que se importou ou foi abalada de algum modo” –  mas ao mesmo tempo, tive vontade de falar: chore.

Chore porque ninguém sabe quem é você. O que viveu e enfrentou até aqui. Ninguém conhece suas lutas, internas e externas, ninguém te sustenta, te banca, te nutre.

Então, porque diabos alguém se acha no direito de te julgar?

Mas eu não falei.

Mesmo assim, tenho certeza, absoluta, de que ela era uma garota esperta.

E que havia entendido meu recado.