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Transamerica – latina

3 junho, 2009

Sou uma observadora do gênero humano. Adoro observar pessoas, comportamentos, manias, aparência. Não em tom de julgamento, mas de análise, absorção e processamento das diferenças entre nós.

Observando, somos capazes de compreender melhor o outro. Analisando, pondo-se no lugar de outrem, exercitamos a humanidade em nós.

Ontem, voltando para a casa, presenciei uma cena curiosa no trem.

Logo ao entrar, dei de cara com um casal diferente. O homem, jovem, pinta de cantor de rap, bem apessoado, estava acompanhado de uma morena alta, vistosa, cabelos negros e lisos compridos, boca carnuda, olhos delineados e com cílios bem longos.

Não pude deixar de reparar (e creio que nem os demais presentes) no generoso decote que usava. Estava bem frio e ela usava uma blusa colante vermelha com um generoso decote que deixava à mostra o belo colo de seios fartos, por cima, um pesado casaco de couro.

Pela altura e proporções exageradas, ficava claro que se tratava de um transex.

Ela estava de mãos-dadas com o companheiro e pareciam felizes.

Foi quando fui surpreendida por sua voz grossa, chamando a atenção de um outro homem.

-O que foi? Eu vi você cutucando o seu amigo e dizendo “olha só esse traveco!” – ela disse

-Eu não fiz nada! Eu fiz alguma coisa? – tentava se justificar o outro.

– Se liga, depois leva uma na cara e vai ter vergonha de ter falar que apanhou de um traveco! Eu não te fiz nada, nem te pedi nada, me deixe em paz!

Depois disso, um silêncio constrangedor.

O suposto preconceituoso desceu na estação, deixando o lugar ao lado do transex, vago, onde me sentei.

Pude observar que ela estava bastante perturbada, os olhos marejados, a boca trêmula, fazendo menção de que iria chorar.

Provavelmente havia se sentido aviltada, envergonhada, espinafrada, marcada.

Estava ali uma cidadã normal, voltando de sua jornada diária de trabalho (ela havia comentado algo sobre situações no escritório) com seu parceiro de relacionamento, (não cabe a nós especular qual o tipo de relacionamento que tem), feliz, provavelmente em dia com suas contas, ou talvez devendo uma coisa aqui e outra ali como todo mundo, não se envolvendo com a vida alheia e de bem com a dela mesma.

Mas é claro que pessoas preconceituosas, pobres de espírito, infelizes, amargas, que devem ter uma vida miserável emocionalmente, que mendigam atenção, a mínima que seja, nem que para isso tenham que envolver uma terceira pessoa em suas conversas para se projetar, de tão míseras, ínfimas, medíocres que são, foram capazes de desequilibrar alguém que, emocionalmente, parecia vulnerável e – porque não? – delicada.

Eu senti pena dela. Sério, senti mesmo. Ela estava agindo pura e simplesmente como uma mulher. Pude entendê-la por isso. Quis se defender porque, é raro encontrar (e talvez não houvesse, nem há, na verdade) alguém que tome duas dores.

Mas ela não queria fazer aquilo, não queria PRECISAR fazer aquilo. Só queria chegar ao seu destino, desfrutar da companhia de seu parceiro, aproveitar a viagem. Só quer viver em paz.

Eu vi que ela ia chorar…uma lágrima estava pronta pra cair. Seu companheiro apertou sua mão e pronto, a lágrima escorreu pela face, desnudando enfim sua fragilidade.

Não me contive, tirei da bolsa um pacote de lencinhos de papel e ofereci a ela.

Ela aceitou, com delicadeza e elegância, sorriu, me agradecendo e me olhando nos olhos.

Houve comunhão, identificação, solidariedade, ali houve, humanidade.

Eu juro que quis falar  – “ninguém merece essa sua lágrima, ninguém merece essa sua demonstração de que se importou ou foi abalada de algum modo” –  mas ao mesmo tempo, tive vontade de falar: chore.

Chore porque ninguém sabe quem é você. O que viveu e enfrentou até aqui. Ninguém conhece suas lutas, internas e externas, ninguém te sustenta, te banca, te nutre.

Então, porque diabos alguém se acha no direito de te julgar?

Mas eu não falei.

Mesmo assim, tenho certeza, absoluta, de que ela era uma garota esperta.

E que havia entendido meu recado.

5 comentários

  1. Pois é, a velha mania que as pessoas tem de olhar a vida dos outros… Eu digo direto, que quem muito julga os outros e fala de suas atitudes é pq é retraido, infeliz e inconformado por não ter coragem de mostrar quem realmente é, então julgando os outros se sente melhor… Ridiculos!!!!! Fiquei com pena dela tb, e revoltada pela situação…


  2. Realmente, é complicado pras pessoas se acostumarem com o que não faz parte de seu dia-a-dia.


  3. Texto inspirado, ótimo. Chorei até. bj.


  4. Talvez, se o ser humano tivesse sido criado sem o sentido da visão, fosse o ideal. Não julgaria seus semelhantes pelo que, supostamente ele consegue enxergar. Mas que nada. Raça filha da puta, com certeza adaptaria o olfato, ou talvez o tato, ou algum outro sentido para continuar a exercer seus pré-julgamentos. Tanto positiva como negativamente. O que importa é que tem que haver um julgamento. O mínimo que seja. Mas tem que haver. É da natureza do bicho. Julgar, rotular, botar pecha…
    Mas, do que ele gosta mesmo, é de sentar em cima do próprio rabo e meter o pau no rabo dos outros…
    Criaturas infelizes, desprovidas do mais básico dos sentimentos. Atiram pedras no telhado alheio, sendo que o seu também é de vidro.
    Pura falta de sensibilidade.
    Às vezes me pego nestas situações. Ora observando, como você, ora julgando, como o preconceituoso. E, tanto numa, como na outra situação, sinto um profundo pesar por mim mesmo e por meus semelhantes. Sei que isto nunca vai acabar. E mais uma vez, baixo minha visão, cruzo meus braços e procuro esvaziar minha mente do ultimo julgamento que fiz. Para, quando eu menos esperar, estar pronto para o próximo, que certamente virá.

    Amei sua sensibilidade…é apaixonante e quiçá seja contagiante…


  5. você falou de lágrima, sentimento e eu lembrei de um filme (uma comédia bobinha) que assisti semana passada, chamado “se paga bem, que mal tem?”
    numa cena, o personagem principal presencia uma discussão entre um casal gay e, com uma expressão de espanto, faz a seguinte observação: “oh..eles brigam feito gente de verdade!”



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