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Rose

24 julho, 2009

Nunca falei disso aqui, mas há alguns anos, num desses intensos períodos de questionamentos existenciais que me acometem sazonalmente, encasquetei de estudar teologia e me envolvi com um grupo de voluntários de uma ordem religiosa.

Assim como a ordem dos Franciscanos, suportavam (na total abrangência significativa da palavra) marginalizados pela sociedade: mendigos, adictos, prostitutas, travestis, membros de tribos urbanas e quetais.

Depois de um período de treinamento teórico, estudando desde abordagem até defesa pessoal, saímos finalmente a campo. No começo foi bem difícil. Fiquei assustada. Você chega com uma idéia idiota e ingênua de que essas pessoas estão desesperadas por atenção, mas qual! Fomos xingados, achincalhados, vaiados. Fomos alvo de diversos objetos, desde frutas a sapatos de salto vagabundos e garrafas vazias de pinga. Foi assim sucessivas vezes.

Queriam-nos longe dali. Afastávamos os clientes, diziam as putas e os travestis. Afastávamos os compradores, diziam os traficantes. Chamávamos a atenção dos transeuntes e principalmente da polícia, que rondava as cercanias de tempos em tempos, ” para a nossa segurança”, diziam. E isso era ruim para os comuns àquela região.

 Pensei bastante em desistir, mas, apesar do paralelo não ser lá muito feliz, sentia como se estivesse conquistando a confiança de um animal machucado: primeiro as mordidas e, até ele entender que você não quer seu mal, vai um tempo.

E levou realmente um tempo, até que eu conseguisse conversar decentemente com algumas pessoas ali sem que ambas as partes se sentissem ameaçadas.

Fiquei cerca de um ano mais ou menos, frequentando a cracolândia e a região da Estação da Luz duas vezes por semana, conversando com prostitutas, travestis, drogados, ajudando com doações de roupa, remédios, literatura, o que fosse.

Mas, o que mais precisavam, por mais incrível e piegas que pareça, era de amor e atenção.

Conheci figuras interessantes. Um mendigo que havia viajado o mundo, perdido tudo e falava inglês e francês fluentemente, uma prostituta que se orgulhava de ter comprado uma casa própria e pago faculdade para os filhos com a prostituição, uma “família” de travestis (dois irmãos e um pai), um pastor que adorava pregar em prostíbulos, um traficante que possuía uma bala de revólver perdida em seu corpo e muitas crianças que de crianças já não tinham mais nada. Eram velhos em corpos infantis. Haviam tido a inocência arrancada, numa espécie de estupro emocional. A quintessência da tristeza.

Todos eles, sem exceção, adoravam conversar. Adoravam falar, falar, falar. Quase não me preocupava em replicá-los, apenas ouvia, ouvia, ouvia atentamente, ora sorrindo, ora com um gesto, uma onomatopéia que sugerisse interação e atenção.

Foi um exercício pra mim, uma faladeira compulsiva. Foi um exercício em todas as esferas possíveis e imagináveis de minha diminuta existência, aliás.

Um dia fui convidada para uma festa de aniversário que dois travestis fariam para uma colega. Ela estava completando 24 anos de vida e a festa seria na casa deles.

Fiquei reticente em ir. Frequentar a casa já seria um passo significativo no relacionamento e, sinceramente, não sabia se estava preparada para tal. Por outro lado, identifiquei o convite como sendo um gesto de consideração e carinho e resolvi aparecer, munida de presente (comprei uma camiseta com os dizeres “I’m a Star!”, ela adorou!) e violão para animar a festa. Os outros dois transex me levaram até o prédio onde moravam, onde todos estavam nos esperando para cantar parabéns.

Quando avistei o prédio, respirei fundo. Tratava-se do esqueleto de um prédio inacabado, somente a estrutura, completa e inconsequentemente habitada, onde tapadeiras de madeira e restos de material de construção faziam as vezes das paredes. Uma verdadeira favela vertical. Fui em frente.

Enquanto subia os primeiros degraus atenta, com medo de que algum objeto não identificado atingisse minha cabeça e que a escada onde estava pisando simplesmente se esfarelasse, fui observando o que parecia ser, para mim, até então, o verdadeiro retrato da miséria humana.

Algumas pessoas tinham espaços delimitados, outras, no entanto, habitavam em áreas comuns, como corredores. E neles, bebês e crianças de colo choravam, mulheres cozinhavam em fogareiros no chão e homens assistiam televisão, como se estivessem no conforto de uma sala de estar. Famílias de 5, 6, 7 pessoas habitavam espaços de cerca de 50 metros quadrados, a rede elétrica e o sistema hidráulico eram mambembes e precários. Alguns possuiam chuveiros, e os que não, pagavam uma taxa diária aos vizinhos para usufruir de seu banheiro e banhos quentes.

Era surpreendente, mas havia um síndico, que atuava mais como juiz de paz da comunidade do que qualquer outra coisa e tentava resolver problemas do tipo: “essa mulher fica trazendo homens aqui e transando a noite inteira, não deixa a gente dormir em paz!”  ou “Ela roubou o meu frango, por isso eu matei o gato dela” – isso tudo na frente das crianças.

Varais eram estendidos à revelia. Era preciso abrir caminho entre as roupas para conseguir seguir em frente.

Fui subindo e subindo e percebi que haviam verdadeiros apartamentos totalmente acabados, aqui e ali. Com portas de madeira envernizadas, campainhas e tapetes com dizeres: “Welcome”.

“Ah, esses daí são dos traficantes, ninguém mexe com eles” – me disse o transex. Resolvi ser sábia e fazer a mesma coisa.

Chegamos finalmente ao apartamento, um quadrado apinhado de móveis e gente. Havia apenas uma mesa de jantar e um módulo de armários no que parecia ser a cozinha. Não me lembro de ter visto pias ou algo do tipo. Sem geladeiras e fogão também. Não havia qualquer tipo de sofá, só beliches. Cerca de 3, se não me engano, o que tornava o local ainda mais claustrofóbico. Guarda-roupas também eram inexistentes. As roupas jaziam dobradas em malas, no chão e embaixo das camas.

Ali moravam 6 transex, num local onde duas pessoas já se sentiriam acuadas. Todos eles vindos do Nordeste; dois do Maranhão, dois da Bahia, um da Paraíba e outro do Ceará.  Pagavam 300 reais pelo aluguel do “apartamento”, mas me contaram que haviam outros ali que chegavam a 700 reais. Fiquei pensando que tipo de pessoa moraria num local daqueles tendo condições de pagar 700 reais num apartamento.

Me lembrei dos traficantes e juntei os pontos. Mais do que uma casa, aquele local era um verdadeiro esconderijo.

Fui pedindo licença em meio ao amontoado de gente na tentativa de dar os parabéns ao aniversariante e de ter a chance de finalmente entregar-lhe o presente.

E o quadro com o qual me deparei foi talvez o mais chocante que vi até então.

O aniversariante estava sentado em sua cama, recostado em travesseiros e seu rosto, ainda hoje, não consigo encontrar palavras para descrevê-lo.

Fiquei ali parada, com o presente nas mãos, mas não me contive e perguntei, desesperada o que havia acontecido.

Ela havia acabado de sair do hospital. Na noite anterior havia sido espancada por dois policiais que a abordaram na rua com a ameaça de levá-la presa por prostituição.

A barganha foi feita em troca de sexo. Para não levá-la presa, os dois policiais exigiram praticar sexo no transex, o estupraram com o cassetete e depois bateram nele até transfigurá-lo. Seu rosto era uma massa disforme de carne e hematomas. Eu só conseguia identificar a boca porque essa ainda mexia, apesar de faltar alguns dentes.

O transex tinha silicone industrial no corpo e este havia se deslocado em verdadeiras bolotas espalhadas pela extensão de sua pele.

Fui arrebatada dali. Parecia estar no inferno. Apesar disso, todos conversavam alegremente e bebiam refrigerante. Um outro disse que aquilo era comum, que eles eram “vaso ruim” e não quebravam. Comecei a ficar sem ar, dei-lhe o presente e estava prestes a inventar uma desculpa para sair correndo dali, mas senti sua mão na minha e aquilo, de alguma forma, me trouxe de volta à realidade.

Ela sorriu a boca desdentada e o rosto irreconhecível e disse ter gostado muito de eu ter ido ao seu aniversário. Disse que minha presença era importante e que ela estava ansiosa por me apresentar às amigas.

Elogiou minha voz  para as colegas e pediu para que eu cantasse uma canção. Eu enrolei, disse que depois eu cantaria. Na verdade me senti constrangida e pequena ali, incapaz, indefesa, covarde, fraca. Iria começar a chorar se cantasse e não queria isso.

Depois de um tempo razoável, decidi finalmente que precisava ir. Dei-lhe um abraço, pedi para que se cuidasse.

Nunca mais a vi. Nunca mais voltei.

Nunca mais fui a mesma.

Estou escrevendo finalmente isso pois toda vez que me deparo com alguma situação de miséria penso em todos com quem convivi ali. Não consigo deixar de pensar neles.

Seu nome era Rose. Na verdade era Robério ou Rogério, não me lembro bem, mas ela gostava que todos a chamassem de “Rose”.

Era alta, encorpada, cabelos longos pretos encaracolados, sorriso fácil e vaidosa.

E eu espero, sinceramente, que ela esteja bem.

11 comentários

  1. Gabs, pensei em falar de uma ou outra experiência, mas tudo pareceu pequeno diante do que você disse. Então só registro o quanto me tocou o teu relato, e silencio, respeitosamente.

    Bjs


  2. Meu Deus, Gabriela… Chorei! Putz, terminei o texto agradecendo a Deus por ter meu teto, ainda que cheio de goteiras. Beijos agradecidos pela injeção de realidade na veia.


  3. Você já me contou essa história uma vez, mas ainda me arrepia.

    Dá um chacoalhão, como se a miséria estivesse sempre a espreita, um vulto pronto para nos decepar a cabeça.

    Não sei porque essas pessoas fazem essas escolhas. Não sei quem são os culpados. Vai ver não deve ser escolha, deve ser falta de.

    Mas ficou claro que é possível ter dignidade e encontrar carinho e amor até no inferno. O amor vence SEMPRE.

    bj


  4. É isso aí, expurgue, tira pra fora e bate na mesa. Sem escrever, sem expor, a gente enlouquece um pouco. beijos.


  5. Quem sai ileso de uma experiência dessa, não pode ser humano. Saber que existem pessoas que se deixam tocar e permitem que sua vida seja transformada pela experiência do outro, me faz acreditar que esse mundo ainda tem jeito.
    O texto é tocante. E seu coração, mesmo sem te conhecer, também.
    Beijoca


  6. eu acredito que depois disso você nunca mais tenha sido a mesma.
    há tantas “roses” no meio da dor.
    estou arrepiada, chocada, tocada, doída, sensibilizada…
    beijo


  7. Seu texto é um choque de realidade. Triste, absurda, humana… essencialmente humana. Mudou um pouco de mim também.


  8. A violência e a miséria são deploráveis. Só com um relato destes para percebermos o quanto somos alienados. Parabéns.
    bj


  9. Gabi, voce è mesmo grande. Nos feitos e na narrativa. Pois è, o contato dos mundos paralelos è sempre surpreendente. Essa gente feita de antimatèria que gravita em torno a nòs nos desconforta mas ainda bem que tem sempre o toque das maos que liga tudo. Uma hora te conto minhas historias de viajante de mundos. Mas quando? Diga. Beijos


  10. Emocionante. Que legal. Sempre te li neste espaço. Gostava muito do seu texto mas no fundo te achava um pouco fútil (até impliquei com vc uma vez por causa do Lula, mídia etc), típica paulistana classe média alta. Quanto estava enganado. Linda mesmo a sua atitude. Um grande abraço.


  11. parabéns e obrigado pelo relato.



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