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Unplug yourself

3 setembro, 2009

Semanas atrás aconteceu o que talvez tenha sido o primeiro suicídio online que tivemos notícia no Brasil.

Uma mulher de 33 anos, mãe de uma criança de 4, separada, ótima profissional, MBA em Harvard, bem de vida e, por um lúgubre acaso, ex-funcionária da empresa em que trabalho, postou sua última e derradeira mensagem através do site de relacionamentos Twitter, despedindo-se do ex-marido, dos amigos e deste mundo cruel, suicidando-se logo depois, tomando uma dose cavalar de remédios e enterrando uma faca no peito.

Parece uma adaptação barata de um romance de Nelson Rodrigues para os tempos de internet, mas não é não, meu povo.

É verdade. Infelizmente.

Isso me fez pensar, é claro, em uma torrente de coisas, idéias, teorias, conjecturas, conclusões e tudo me levou a uma única dedução : ela era sozinha. E isso, encabeçando uma outra cadeia imensa de fatos, sentimentos e  escolhas a levou a tomar esta trágica decisão.

Grande coisa. Todos somos sós, não é mesmo? Todos trazemos dentro de nós certa dose de solidão. Ela é necessária para que alcancemos o tão almejado e delicado equilíbrio emocional, inda mais nesses tempos doidos.

Acontece que esses tempos doidos dos quais tanto falo, justamente esses em que vivemos, onde mais do que nunca temos pleno e total acesso à qualquer tipo de informação e onde ferramentas que colaboram para a convivência, relacionamento, discussões e colaborações são cada vez mais usadas pelas pessoas, talvez figurem entre os tempos mais solitários que a humanidade já viveu.

Por incrível que pareça, quanto mais nos relacionamos virtualmente, menos isso acontece na vida real.

O fato da moça ter comunicado seu SUICÍDIO via Twitter foi a maior e mais triste prova disso.

E quanto menos reais os relacionamentos, mais fúteis, efêmeros e inúteis eles serão.

E mais solitários seremos.

Obviamente que, você que me lê nesse instante, deve saber que não é preciso estar desacompanhado para senti-se só. Estar, ficar e sentir-se sozinho pode ser uma experiência prazerosa e produtiva, tudo dependerá do controle do indivíduo sobre a própria solidão. E aí entramos em outra esfera, mais densa, poética e etimológica, a que separa solidão e solitude.

No português o significado das duas palavras ainda se embaralham, mas em inglês a definição de ambas é bem esclarecedora: solidão é estar só por força das circunstâncias. É sentir-se só, isolado, desacompanhado, abandonado. Pode também ser descrita ou sentida como falta de identificação compreensão ou compaixão alheia. “Loneliness”, seria  a palavra inglesa que mais se aproxima de nossa conhecida “solidão”.

Já solitude é o estado de se estar sozinho e afastado das outras pessoas, e geralmente implica numa escolha consciente, onde optamos por ouvir o silêncio de nossa alma, pela calma, pela continência de sentimentos, uma espécie de meditação, isolamento da realidade, mas com finalidade positiva. É o inusual e pouco usado/conhecido “aloneness”.

Assim, estar “alone” e “lonely” são duas condições diferentes. E talvez nossa vítima sofresse de ambas. Uma em razão da outra. Um reflexo de nossos tempos.

Talvez ela simplemente quisesse fugir, mas hoje em dia, nem isso mais é possível. Uma vez na internet, você pode ser encontrado, aonde quer que esteja.

E aí recorre-se ao escapismo. Que em grande escala acaba gerando alienação, perda de foco, falta de auto-conhecimento, ignorância, intolerância com o próximo e…solidão.

Outro dia, lendo uma pesquisa de produto para uma campanha  fiquei estarrecida com estatísticas que apontavam que 60% crianças brasileiras na faixa etária de 7 a 11 anos usavam ferramentas sociais online e games para “escapar” e “aliviar” as pressões do dia-a-dia. (me dou o direito de não citar nomes, nem da campanha nem do orgão de pesquisa)

60%…CRIANÇAS. Pressões do-dia-a-dia. Meudeusdoceu, se crianças de 7 a 10 anos precisam escapar da dura realidade que as cerca ( e eu fico aqui tentando imaginar qual seja) o que nos resta?

Eu trabalho cerca de 10h na frente do computador. Tenho casa, família e tento, a todo custo, manter uma vida social saudável. Eu só consigo isso me desconectando. Só me disciplinando a NÃO ligar o computador quando chego em casa. A não ficar tentada a mandar um e-mail, mais asséptico, muito mais rápido e indolor do que falar com meus amigos ao telefone, do que marcar um encontro.

Fiquei chocada com a morte brutal da garota. E muito mais, com a forma como foi anunciada. Um bilhete suicída virtual. O que pensaram seus amigos, “seguidores” e afins, quando leram a nota? Que ela estava brincando? Que estava sendo sarcástica? Que estava apenas se despedindo frugalmente, depois de um dia excruciante de trabalho?

O que se passa na cabeça deles agora?

Poderiam ter feito alguma coisa? Como não perceberem isso antes? Como poderiam ter impedido tal tragédia?

Não, nada poderia ter sido feito. Não virtualmente.

Apenas pessoalmente.

Mas isso, de se relacionar de verdade dá muito trabalho, não é mesmo?

Desconectar-se é preciso.

7 comentários

  1. Gabi, assino embaixo e por todos os lados, como diria o Milton Ribeiro. E é justamente por isso que estou me unlugando também, me desconectando desta virtualidade absurda.

    No começo tudo é engraçadinho, e as pessoas que se conhece realmente parecem inteligentes por aqui. Depois, começa-se a perceber que esta inteligência nada mais é do que uma capacidade mediana de usar o cérebro associada a um meio que embeleza, que dá a ilusão de que tudo pode ser útil, de que todos tem algo a dizer.

    Sim, todos tem algo a dizer, mas muito pouco se utiliza. No começo do twitter, fui incluindo todas pessoas que encontrava, pois achava que todas podiam somar algo. Ledo engano. Poucas conseguem, e meu tempo se esvaia, mais e mais.

    Hoje pouco leio blogs (a não ser quando recebo um toque), nunca mais faço visitas de cortesia (daquelas que, por trás, estão requisitando uma visita de retribuição) e percebi que para que, de fato, eu possa produzir e colaborar de forma real na vida das pessoas que sofrem ou que sentem não só esta solidão, esta solitude mas também outras formas de angústia, desvalia, ansiedade, preciso ocupar meu tempo de outra forma.

    Mas o que falo vale pra mim, e não é uma lição que necessariamente possa ser aplicada para você ou outra pessoa.

    O fato é: estou me desligando gradualmente de boa parte de minhas atividades virtuais. Passei adiante o editorial do Simplicíssimo (7 anos de literatura e cultura), dividi a responsabilidade do editorial do OPS! com o Ulisses, estou conseguindo ajuda do Serbão nas RP do OPS!, estou parando de utilizar e-mail (criei uma série de autoresponders solicitando que as pessoas me achem por outros meios, se realmente querem falar comigo) e assim por diante.

    E os frutos já estão amadurecendo. Os primeiros que provei estão saborosíssimos. Ainda tenho que adubar um pouco mais este meu pomar, mas pode ter certeza de que não me sinto sozinho.

    Obrigado pela belíssima reflexão que seu post me gerou.


  2. Medo aqui… Eu sou um bichinho esquisito. Sou solitária, naturalmente solitária, é como me sinto confortável sendo assim… No entanto, vivo degladiando com este conforto, nem tudo o que é confortável faz bem. Felizmente já perdi a ilusão que essa vitualidade toda é companhia, sei que não é, mas é escudo, não nego. Sei que não consigo viver só, preciso de gente pra não esquecer que sou gente. Gente escolhida a dedo e gente ao acaso, mas gente, mesmo quando, ou principalmente, quando não quero gente. Bom ler textos como este de vez em quando pra fazer com que eu não esqueça deste propósito e não me acostume a ser tão confortavelmente só!


  3. Seu texto está especular. Não somos computadores. Só PENSAMOS que somos. Para pior, nosso patrões também pensam assim. Estão errados. A vida é uma só.

    beijo


  4. Fiquei pensando sobre como a vida é frágil, de como tudo passa num piscar de olhos diante da gente, uma vida se foi sem ao menos podermos ajudar.
    Precisamos viver mais no mundo real e sair do mundo virtual, que acaba com a vida social de muitas pessoas.

    Adorei seu texto.

    Bjo
    @elidepiquena


  5. belo texto, belo blog


  6. Estou lendo seu post as 00h58 da quarta, depois de trampar o dia todo, e confesso que o liguei assim que cheguei pra “espairecer’.

    bj

    adorei o texto


  7. Um belo texto para tratar de um tema tão delicado.Eu já tava com saudades de passar por aqui, mas como vc sugeriu, de vez em quando é preciso desconectar..rs. Mas estou de volta. Parabéns pelo blog novamente, e passa lá no meu quando puder. Bj!



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