Archive for the ‘Pulp Fictions – pero no mucho’ Category

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Dente cariado (ou fragmentos de uma mente DDA-ísta)

16 dezembro, 2009

‘Cause I’ve prayed days, I’ve prayed nights
For the lord just to send me home some sign
I’ve looked long, I’ve looked far
To bring peace to my black and empty heart

(The Dancer – PJ Harvey)

Achei um começo de cárie no meu dente. Lá no fundo. Lá atrás, o último do lado esquerdo…ó… dá pra ver? Consigo sentir pra um treco ieênte-huando-eu-arrú-a-íngua. Que merda. Eu nunca tenho dente cariado. Nunca. Agora vou ter que ir na bosta do dentista. Mais um item pra lista de coisas que tenho que fazer e que só faz aumentar, aumentar, aumentar sem nunca chegar no “ganhar na Mega-Sena”…

Tô com raiva dessa gente. Porque esse diabo de cidade tem que ter tanta, tanta gente? Que porra é essa? Pequim? Todas as cabeças desse lugar poderiam explodir nesse exato momento. Cada uma delas. Os miolos voando e tingindo as paredes dos vagões do metrô de vermelho…aquele mar de sangue e pequeninos pedaços de ossos e carne em forma de camarõezinhos invadindo os trilhos….ah, menos a cabeça do condutor, claro. Ele vai ter que continuar a repetir: “Estação Trianon-Masp. Estação Brigadeiro, Estação Paraíso…” Rá. O Paraíso! E aí eu sairia pisando os miolinhos de todos com meus coturnos. Gabie, a estranha.

Tô estranha, sou estranha, na verdade. Tô é ficando paranóica. Tem um cara me seguindo. Ele ficou me olhando de um jeito esquisito e depois deu uma daquelas risadinhas macabras, saca? Não? Você é muito ingênuo, tsc. A porta abriu. Ele saiu atrás de mim..ó lá! Tenho que apertar o passo. Ele tá ficando pra trás. Eu sei, isso é uma tática. Ele quer que eu o perca de vista. Vou parar aqui, vou falar com esse cara: – “Oi … tem horas? Não? Pois é, eu também. Não tenho hora pra porra nenhuma. Eu sempre perco a hora aliás, eu passo da hora, eu extrapolo a hora, eu mato as horas, eu estico as horas, eu desperdiço as horas…as horas…essas malditas…. as horas…sou mastigada, engolida, consumida e regurgitada pela porra das horas…as horas são as Fúrias que nos perseguem dia após dia, saca? As Fúrias, não sabe? Fúrias são divindades das profundezas ctônicas, forças primitivas da natureza que sobrevoam um plano acima do nosso mas que aparecem por aqui pra se vingar de cada um de nós a fim de nos fazer pagar por nossos crimes hediondos…. e elas não vão descansar enquanto nosso sangue não for devidamente derramado de forma violenta e pavorosa, de preferência… sim, as horas….as horas são furiosas… mas obrigada de qualquer forma, o cara que também queria me esgoelar já se foi…tô mais tranqüila agora. Tchau!”

“Você vê os meus cachos? Me olhe de novo”– diz o outdoor idiota. Porque eu iria querer olhar pros seus cachos? Se você for interessante eu vou te olhar de qualquer jeito, mesmo você sendo careca, sua cacheada superficial. Eu vou olhar pra quem eu quiser, aliás. Eu vou olhar na tua cara e dizer tudo o que ta entalado aqui ó. Que você é um hipócrita. Você e esse seu retratinho de família feliz. Você é tão nojento. Você sempre disse: o segredo é nunca esperar nada de ninguém. Bem, eu o segui à risca, nunca esperei nada de você a não ser que fosse ao menos verdadeiro consigo mesmo e veja só, nem isso você conseguiu. Pobre diabo. Enjoei de você. Chega.

Eu tenho sérios problemas. Sérios problemas. Não deve ser normal uma pessoa ter zilhões de pensamentos por segundo sem que nenhum deles esteja necessariamente correlacionado. “I love when you can read my mind, honey”, Mallory disse pro Mickey e eles fuzilaram todos na loja. Lindo. “See you at the bitter end” diz o refrão…e depois tem aquele riff de guitarra…pananananannnnn. Eu te amo até a última batida do meu coração. Esse mosaico tem praticamente 2 mil seiscentos e sete pastilhas azuis. Não consegui me concentrar o bastante pra contar o resto. Estou com vontade de beber aquele novo refrigerante..como é que se chama? Ahh, H2O. Será que se eu chegar naquele bar e perguntar “Você tem H20?” – O cara vai me encher um copo daqueles de pinga com água da torneira e me dar? Bah, vai nada. Ele lá sabe o que é H20? Lá sabe que o corpo dele é composto de 70% disso? O restante é de merda, provavelmente.

O meu também. O meu aliás é exatamente o contrário. 70% de merda e o resto de água. É isso que corre em minhas veias. Água. Água suja. De fossa. Não, não. É esse lugar que tem cheiro de fossa. Esse lugar e esses prédios que se curvam sobre mim gritando – “Você não vai sair, não vai sair, não consegue, não vai conseguir. É um ratinho assustado que não consegue fugir da fuckin gaiola e volta ,sem ter escolha, praquela roda ridícula e corre, corre, corre…sem sair do lugar. Nisso se resume sua existência.”

O horizonte parece tão longe eu não consigo avistá-lo daqui. Preciso subir, subir..preciso olhar de cima, por cima. Lembra daquele dia no alto do prédio? Dava pra ver a cidade inteira…inteira. Um oceano de concreto coberto por uma névoa cinza. E chovia. E você disse: – “quero fazer amor com você aqui”. Você disse isso mesmo ou fui eu quem pensou? Nem sei…as ondas eletromagnéticas influenciaram minha memória.

Trinta anos e eu ainda me sinto tão deslocada nesse mundo como quando tinha quinze. Que ridículo. Quando é que vai acabar essa adolescência eterna? Essa maldita sensação de que estou sendo levada pela correnteza? De que todos cresceram e são adultos com suas vidas estabelecidas e eu fiquei, inclusive no que diz respeito ao tamanho….? Que horror, é o inferno isso, só pode ser. Onde eu assino o atestado de perdedora? Aqui na linha pontilhada? Não dá pra deixar só a impressão digital? Molho meu dedão na tinta preta e tchuf. Mais fácil. Odeio a curva do meu G…além disso eu misturo letras de forma e de mão. Isso deve ser um claro sinal de esquizofrenia. Tenho letra de estudante primária e pernas de moleque. Elas vivem roxas porque eu me bato involuntariamente nas coisas, tenho uma péssima noção espacial… tropeço, sou estabanada, destrambelhada, desorganizada, desarranjada. Disparatada.

Tenho a sensação de que tudo deu errado, sabe? Tudo. Eu tentei e tentei e tudo deu simplesmente errado. Eu só fiz o que eu quis, mas nada realmente saiu como eu quis. Meu sonhos sempre tiveram que ser adaptados. Versão Beta. Versão 3.5. Versão da putaqueopariu. Até quando eu quis me matar deu errado. RÁ! Não é o cúmulo? A adaptação do sonho de minha morte é o momento que estou vivendo agora.

E mais esse dente cariado. Tá ali, lá no fundo, do lado esquerdo…não tá doendo ainda, mas tá me incomodando. Não sei quando vou poder arrumá-lo. Não sei quando vou conseguir me arrumar. Preciso descansar. Eu quero tanto, tanto, tanto descansar. Eu fecho os olhos, mas eles estão em eternos R.E.M…queria voar, queria cair, sem nunca, nunca ter que atingir o chão. Eterna queda livre. Me sinto assim quando você me beija. Mas aí você vai embora e eu me espatifo. Eu sou suja e uma libertina. É o que todos pensam. Mas eu só sou uma menina. Uma menina com o dente cariado. Uma menina com alma senil. Viu? Nem isso se encaixa. Nem isso faz sentido. Assim como aqueles ditados bestas, já repararam? – “Ta com frio bota a bunda no rio..” Cacete se o sujeito tá com frio porque diabos vai botar a bunda num rio? Nunca entendi isso. Nunca.

Nunca entendi nada. Nada. Sempre me esforcei tanto, sempre fui tão fundo em tudo em todos…pra continuar sem resposta alguma. Nunca entendi, por exemplo, o porque de você não ter me deixado partir em 31 de novembro de 2003. Eu acordei entubada e sozinha. E adivinha? Três anos se passaram e eu continuo entubada e sozinha. E agora com um dente cariado. Saco. Ninguém nunca me amou como você. Não como você…porque você ainda insiste em mim? Porque quando eu paro e me pergunto qual a única razão de eu ainda estar aqui ouço você me dizer: “Porque eu ainda acredito em você?”

Porque eu ainda te ouço, aliás? Pensei que você tivesse se calado pra sempre. Mas acho que, por ter me afastado, me esqueci de quem você é. Você é o sempre. Você é o intangível. Você é o grande abismo. O tudo e o nada que me engole. Aquele mesmo, aquele que o bigodudo maluco disse que quando a gente olha pra ele, ele olha de volta pra gente… I can still feel you even so far away… I can still feel you. Tenho um dente cariado agora. Preciso de cuidado. Preciso. Cuidado. Cuida de mim. Tô quebrada. Boa noite.

(Da série: “Do tempo em que eu escrevia bons posts” data out/2006)

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Rosas selvagens

28 maio, 2009

 

Eu, sincera e verdadeiramente espero que esteja tudo bem. Sério. Espero que você tenha achado seu caminho, que tenha encontrado alguém que te ame – e que você ame de volta, apesar de, para você, isso ser irrelevante – que tenha descoberto o sentido da vida e a salvação nas artes e na poesia, na fruição estética que tanto buscamos, em vão, como todo o resto…

Espero, francamente, que esteja ganhando dinheiro e gozando a vida. A vida, essa vadia infrene, essa algoz monstruosa, essa colombina de humor sombrio que nos faz engasgar com seu confete e que depois nos deixa perdidos, bêbados e sozinhos no salão, depois da festa…

A vida…

Pois é, apareci depois de tanto tempo, “um fantasma infausto de sua vida pregressa” como você gosta de inflar o peito e encher essa sua boca pra falar. Essa sua boca cheia de dentes alvos, que exibe esse seu sorriso ceshiriano, besta, mascarado, blasé. Esse sorriso lindo.

Essa sua boca…

Só passei pra dizer que, enfim, depois de tudo dito, não dito e maldito finalmente acabou. Não resta pedra sobre pedra, literalmente.

Espero que você esteja no controle de suas ações e dessa sua boca.  Veja bem o que você vai me falar…
Sabe, se você estivesse aqui, digo, fisicamente presente, se eu não estivesse feito uma idiota aqui, de pé, na chuva, apertando o botão desta porra de porteiro eletrônico sob o risco de levar um choque, se tivesse culhão o bastante para me olhar nos olhos, eu te diria para sair na chuva e… sentir a brisa.

Porque a chuva, a brisa, ah, seriam coisas concretas, capazes de tocar sua pele, já que memórias…

Memórias, meu amigo, não são reais.

Não há mais nada.

Se você quiser dar uma olhada no terreno onde antes havia nossa casa, bem, deixei um papel com algumas instruções… não sobrou quase nada, você não vai se achar, enfim…

Demoliram a garagem e nosso antigo quarto. Como não retiramos mais nada, e nenhum de nós deu as caras ou mencionou algo à demolidora eles… derrubaram tudo e…

Soterraram.

Soterraram móveis, roupas e tudo mais que havia, mas! Não, não fique triste.

Sobraram algumas fotos e aquele maldito buquê de rosas selvagens para alimentar sua pira funerária…

Porque você não desce? Porque não me olha na cara? Você sempre, sempre saiu pela tangente, nunca enfrentou nada, você…

Você saiu…

Está frio, estou batendo os dentes. E, eu só passei pra deixar alguns papéis e oficializar a condição.

Não há mais nada.

Tchau.

(Conto baseado na canção “Dog Roses” do disco Neptune, da banda britânica The Duke Spirit)

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Mãos atadas

26 dezembro, 2007

Eu, hoje, me vejo nua, sozinha e fria amarrada com as mãos às costas num quarto escuro.

Eu, que sempre achei um meio pra tudo e em tudo, não vejo nada, me encontro sem jeito e não enxergo caminhos.

Eu, que sempre lutei pelos meus sonhos, hoje só os contemplo e espero, impotente e inerte. Como uma criança que pula e se estica em vão, tentando alcançar algo que está além de suas forças.

Esses sonhos, por sua vez, flutuam ao meu redor lentos e etéreos como bolhas de sabão ou como peças de um móbile sem graça que o destino me preparou. São como instantâneos pregados numa parede branca, alegrando-a por poucos minutos, mas que imediatamente perdem a cor, queimando-se num fragor prateado, fundindo-se numa só coisa alva, infinita e indefinida, me deixando sem ação, sem direção, sem solução, sem intenção.

Me sinto de mãos atadas. Presas às amarras e escolhas da vida.

Não sei quem sou agora, nem quem fui, nem quem serei daqui para frente… e isso me assusta.

Só sei que hoje sou crisálida, ninfa paralisada num casulo verde e viscoso sem saber se vai virar borboleta ou enfim morrer meio lagarta.

Logo eu, que sempre me bastei, me garanti, me satisfiz, me fiz e refiz em mim mesma…

Logo eu, sempre tão fiel a mim e a meus princípios, encontrei você e me achei em ser sua.

Nego ao meu ego e me apego a ti.

Logo eu, que nunca fui frágil, agora me vejo escrava da sorte… e assim enfraqueço.

O que faço agora? Estou de olhos vendados na contramão de uma auto-estrada.

Porque ousei trilhar esse caminho e pago por isso.

Porque escolhi me perder de mim mesma para me achar em ti.

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Sliding doors I

21 agosto, 2007

Cenas interessantes do metrô:

Um senhor, muito distinto, de terno e gravata, atendendo ao telefone:

-Alou? Alou? – segura o telefone com a mão direita e com a esquerda cobre o outro ouvido.

-A ligação tá ruim. Quem é? Alou? Ah…oi! A paz do senhor, irmão! Oi..alou? alou? – faz caretas, tira o telefone do ouvido, olha para o visor, volta a encostá-lo no ouvido.

-Aaaalou! A paz do senhor irmão! A PAZ DO SENHOR IRMÃO! – aumenta a voz enquanto, com uma das mãos, faz uma concha junto à boca e o bocal do telefone.

-EU FALEI A PAZ DO SENHOR IRMÃO! -grita. Todos em volta, olham.

-AH, CARALHO, VAI TOMAR NO CU! – afasta o telefone do ouvido, o desliga num ímpeto, o guarda no bolso do terno e desce na próxima estação.

 

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Memento Mori

16 janeiro, 2007

Outra manhã em São Paulo. O tempo é aquela coisa indefinida: não chove e nem faz sol, de vez em quando um pé de vento desarruma os cabelos, você nunca sabe se leva blusa ou sai só de camiseta, se leva guarda-chuva ou se arrisca a voltar ensopado, se o trânsito vai atrapalhar sua vida ou se finalmente vai conseguir chegar a tempo ao trabalho. Por mais que todos os dias pareçam iguais, tudo pode acontecer.

Abigail acorda cedo. Hoje vai ao médico, o que é um evento, pois nunca sai de casa. Gosta de supervisionar e dar pitacos na faxina de Lurdes, sentar-se frente à televisão e acompanhar as receitas de Ana Maria Braga e o jornal do meio-dia, enquanto tricota uma malha interminável para o filho e reclama da política brasileira.

De vez em quando troca meia hora de prosa com a vizinha, Dna Guiomar, mas na verdade a acha muito futriqueira e intrometida.

A consulta é um check -up, com  Doutor Afonso, em seu consultório em Pinheiros. Ela gosta de Afonso, é um bom menino e a trata com muito carinho e atenção há vários anos.

-Parabéns Dona Abigail, 76 anos e uma saúde perfeita! Não há nada de errado com a senhora, está tudo como deve estar nessa idade. Só continue atenta à diabetes e ao colesterol, sempre. Logo logo e a senhora chega aos cem!

Sai do consultório tranquila, apesar da cidade fervilhar à sua volta. Observa e sente os elementos urbanos da megalópole infrene: prédios altos, pessoas correndo de um lado para outro, as parcas e mirradas árvores, o barulho constante do enorme canteiro de obras, ao longe.

Era tudo diferente em seu tempo de menina. No entanto, orgulha-se por estar viva, por ter vivido e sobrevivido às mudanças da vida, do mundo, de sua cidade.

Se dá conta do horário e apressa o passo. Seu filho Pedro ficou de pegá-la logo ali, na Rua Capri e ele está sempre com pressa, não gostaria de atrapalhá-lo de modo algum. Os jovens estão sempre com pressa…

Chegou antes do filho, no final das contas. Olha o relógio: 15h. Está exatamente onde haviam combinado: 15h na Rua Capri, em frente à casa amarela. Não custa nada esperar, oras.

Suspira e sorri, calma, levando a mão espalmada acima dos olhos, para protege-los do sol, enquanto olha para o fim da rua. 

É um belo dia afinal…

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La vérité

14 dezembro, 2006

Duas e meia da manhã e eu aqui. Isso não  é lugar para uma moça… ok, soou como algo que minha mãe diria, mas tudo bem. Estou sendo generosa comigo mesma usando o termo ‘moça’, claro. Há um espelho na minha frente, e apesar das muitas garrafas coloridas encostadas nele ainda consigo ver meu reflexo. Envelhecido. Patético. Triste. Sorrio torto e levanto um brinde a  mim mesma.Viva a decadência! Tim-tim.

O barman está absorto assoviando uma melodia idiota e enxugando copos. Vira e mexe enche o meu com mais uma dose sem perguntar nada, sem ao menos me olhar na cara. Ele sabe o que quero e preciso, vem e me dá. Não me deixa faltar nada, absolutamente nada. Não torra meu saco com conversinhas sobre o tempo ou futebol  nem vem com aquelas cantadas vergonhosas e deprimentes que dão vontade de vomitar. Não. Ele chega, olha meu copo, enche e volta a pegar o pano de louça. Não trocamos palavra. É, com certeza, a melhor relação que já tive na vida.

Esse lugar é como minha casa. Eu o freqüento já há um bom tempo. Nas noites de quinta e sábado acontece o baile da terceira idade. Adoro ver a felicidade no rosto dos velhinhos. Eles têm uma certa ingenuidade, ou vai ver é uma espécie de sacanagem light, daquelas inofensivas, do tipo que não existe mais no mundo.

Fico aqui, braços cruzados sobre a ponta esquerda do balcão forrado de couro carcomido, bebendo e observando a entrada dos velhacos. Eles invadem o recinto faceiros, sorridentes, excitados feito pré-escolares em dia de excursão.

Os homens chegam com seus chapéus panamá, calças de tergal vincadas, bocas arreganhadas mostrando as dentaduras frouxas ou os dentes de ouro, e as senhoras com seus vestidinhos de jérsey, excesso de rouge nas bochechas e grandes brincos pesando nos lóbulos moles das orelhas.

Parecem querer continuar a viver só para aproveitar momentos como esse. E ainda por cima agem como adolescentes contraventores, comprando Viagra escondido com o barman como se fossem comprimidos de ecstasy. É divertido.

Me enternece ver tanta energia, alegria, esperança. Me impressiona pensar que talvez eles sejam duas ou três décadas mais velhos do que eu e no entanto possuem muito mais vontade de viver…

Estendo o copo para o barman…

Durante os outros dias da semana é tudo a mesma coisa. Um lugar fechado, escuro, cheirando a mofo e álcool, não muito bem frequentado, com bebida barata e música brega. Mas gosto daqui…me parece confortável. Acolhedor seria a palavra exata.

Eu poderia estar em qualquer outro lugar. Poderia estar aprendendo alguma coisa, fazendo algum curso, pintura em porcelana, linguagem de surdo-mudo, sei lá… poderia fazer um trabalho voluntário, cuidar de pessoas tetraplégicas, trocar fraldões e garantir meu lugar no céu, se é que existe um. 

Ou poderia estar em casa, lavando, passando e limpando, dando comida pro gato e vendo “A Tarde é Sua, com Maria Dulce” na TV, recebendo minha aposentadoria e gastando-a  inteira na compra de remédios e sopas de saquinho. Eu poderia. Mas não estou.

Estou nessa poçilga, enchendo a cara, inchando, aplacando minha amargura, sedando minha consciência, destruindo meus neurônios…tentando te apagar da memória. Porque você está gravado em cada uma de minhas células. Está imerso em cada poro da minha pele. Seu gosto está preso em cada uma de minhas papilas gustativas e seu cheiro impregnado em minhas narinas.

A verdade é que eu deixei você me destruir quando partiu. É isso. Não consegui, lutei e perdi, me deixei dominar e mergulhei num poço sem fundo…essa é a verdade.

Clichê até medula. A vida é estupidamente clichê, por vezes… A verdade está nos clichês.

Escolhemos ou somos escolhidos? O corpo domina a mente ou a mente domina o corpo? Temos mente? Temos corpo? Algo nos pertece de fato? Qual é a verdade, afinal? Existe uma? Várias?

A verdade… a verdade…a verdade está entre o décimo quinto e o trigésimo drink….

 E eu preciso descobri-la….

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Se cada dia cai…

29 novembro, 2006

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)