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Precisa-se

1 janeiro, 2010

Precisa-se de novos seres humanos para 2010.

Que tenham força. E paciência. E sabedoria. E muita ousadia. E coragem, claro, para  nadar contra a eterna,  suja e cada vez maior,  maré de mesmice  que nos encharca, dia após dia, enjoativamente previsível, revoltantemente precisa, acintosamente presente…mas nunca indestrutível.

Precisa-se de respeito e tolerância. De humanidade. De humildade. Não de falsa e fajuta e egoísta humildade, mas da verdadeira, aquela que nos faz reconhecer nossos limites e falhas, criando assim maior aceitação e perdão, para nós mesmos e para os outros.

Precisa-se de mais bom humor, menos exigências e cobranças, menos convenções e mais espontaneidade, mais criatividade, mais arte, mais dança, mais sexo, mais amor, menos dor.

Somos produtos das regras que nós mesmos criamos e  aceitamos.

Reveja, reforme, reinvente, renove.

Renasça

Reviva

Realize

Rock’n roll…

Feliz 2010.

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Dente cariado (ou fragmentos de uma mente DDA-ísta)

16 dezembro, 2009

‘Cause I’ve prayed days, I’ve prayed nights
For the lord just to send me home some sign
I’ve looked long, I’ve looked far
To bring peace to my black and empty heart

(The Dancer – PJ Harvey)

Achei um começo de cárie no meu dente. Lá no fundo. Lá atrás, o último do lado esquerdo…ó… dá pra ver? Consigo sentir pra um treco ieênte-huando-eu-arrú-a-íngua. Que merda. Eu nunca tenho dente cariado. Nunca. Agora vou ter que ir na bosta do dentista. Mais um item pra lista de coisas que tenho que fazer e que só faz aumentar, aumentar, aumentar sem nunca chegar no “ganhar na Mega-Sena”…

Tô com raiva dessa gente. Porque esse diabo de cidade tem que ter tanta, tanta gente? Que porra é essa? Pequim? Todas as cabeças desse lugar poderiam explodir nesse exato momento. Cada uma delas. Os miolos voando e tingindo as paredes dos vagões do metrô de vermelho…aquele mar de sangue e pequeninos pedaços de ossos e carne em forma de camarõezinhos invadindo os trilhos….ah, menos a cabeça do condutor, claro. Ele vai ter que continuar a repetir: “Estação Trianon-Masp. Estação Brigadeiro, Estação Paraíso…” Rá. O Paraíso! E aí eu sairia pisando os miolinhos de todos com meus coturnos. Gabie, a estranha.

Tô estranha, sou estranha, na verdade. Tô é ficando paranóica. Tem um cara me seguindo. Ele ficou me olhando de um jeito esquisito e depois deu uma daquelas risadinhas macabras, saca? Não? Você é muito ingênuo, tsc. A porta abriu. Ele saiu atrás de mim..ó lá! Tenho que apertar o passo. Ele tá ficando pra trás. Eu sei, isso é uma tática. Ele quer que eu o perca de vista. Vou parar aqui, vou falar com esse cara: – “Oi … tem horas? Não? Pois é, eu também. Não tenho hora pra porra nenhuma. Eu sempre perco a hora aliás, eu passo da hora, eu extrapolo a hora, eu mato as horas, eu estico as horas, eu desperdiço as horas…as horas…essas malditas…. as horas…sou mastigada, engolida, consumida e regurgitada pela porra das horas…as horas são as Fúrias que nos perseguem dia após dia, saca? As Fúrias, não sabe? Fúrias são divindades das profundezas ctônicas, forças primitivas da natureza que sobrevoam um plano acima do nosso mas que aparecem por aqui pra se vingar de cada um de nós a fim de nos fazer pagar por nossos crimes hediondos…. e elas não vão descansar enquanto nosso sangue não for devidamente derramado de forma violenta e pavorosa, de preferência… sim, as horas….as horas são furiosas… mas obrigada de qualquer forma, o cara que também queria me esgoelar já se foi…tô mais tranqüila agora. Tchau!”

“Você vê os meus cachos? Me olhe de novo”– diz o outdoor idiota. Porque eu iria querer olhar pros seus cachos? Se você for interessante eu vou te olhar de qualquer jeito, mesmo você sendo careca, sua cacheada superficial. Eu vou olhar pra quem eu quiser, aliás. Eu vou olhar na tua cara e dizer tudo o que ta entalado aqui ó. Que você é um hipócrita. Você e esse seu retratinho de família feliz. Você é tão nojento. Você sempre disse: o segredo é nunca esperar nada de ninguém. Bem, eu o segui à risca, nunca esperei nada de você a não ser que fosse ao menos verdadeiro consigo mesmo e veja só, nem isso você conseguiu. Pobre diabo. Enjoei de você. Chega.

Eu tenho sérios problemas. Sérios problemas. Não deve ser normal uma pessoa ter zilhões de pensamentos por segundo sem que nenhum deles esteja necessariamente correlacionado. “I love when you can read my mind, honey”, Mallory disse pro Mickey e eles fuzilaram todos na loja. Lindo. “See you at the bitter end” diz o refrão…e depois tem aquele riff de guitarra…pananananannnnn. Eu te amo até a última batida do meu coração. Esse mosaico tem praticamente 2 mil seiscentos e sete pastilhas azuis. Não consegui me concentrar o bastante pra contar o resto. Estou com vontade de beber aquele novo refrigerante..como é que se chama? Ahh, H2O. Será que se eu chegar naquele bar e perguntar “Você tem H20?” – O cara vai me encher um copo daqueles de pinga com água da torneira e me dar? Bah, vai nada. Ele lá sabe o que é H20? Lá sabe que o corpo dele é composto de 70% disso? O restante é de merda, provavelmente.

O meu também. O meu aliás é exatamente o contrário. 70% de merda e o resto de água. É isso que corre em minhas veias. Água. Água suja. De fossa. Não, não. É esse lugar que tem cheiro de fossa. Esse lugar e esses prédios que se curvam sobre mim gritando – “Você não vai sair, não vai sair, não consegue, não vai conseguir. É um ratinho assustado que não consegue fugir da fuckin gaiola e volta ,sem ter escolha, praquela roda ridícula e corre, corre, corre…sem sair do lugar. Nisso se resume sua existência.”

O horizonte parece tão longe eu não consigo avistá-lo daqui. Preciso subir, subir..preciso olhar de cima, por cima. Lembra daquele dia no alto do prédio? Dava pra ver a cidade inteira…inteira. Um oceano de concreto coberto por uma névoa cinza. E chovia. E você disse: – “quero fazer amor com você aqui”. Você disse isso mesmo ou fui eu quem pensou? Nem sei…as ondas eletromagnéticas influenciaram minha memória.

Trinta anos e eu ainda me sinto tão deslocada nesse mundo como quando tinha quinze. Que ridículo. Quando é que vai acabar essa adolescência eterna? Essa maldita sensação de que estou sendo levada pela correnteza? De que todos cresceram e são adultos com suas vidas estabelecidas e eu fiquei, inclusive no que diz respeito ao tamanho….? Que horror, é o inferno isso, só pode ser. Onde eu assino o atestado de perdedora? Aqui na linha pontilhada? Não dá pra deixar só a impressão digital? Molho meu dedão na tinta preta e tchuf. Mais fácil. Odeio a curva do meu G…além disso eu misturo letras de forma e de mão. Isso deve ser um claro sinal de esquizofrenia. Tenho letra de estudante primária e pernas de moleque. Elas vivem roxas porque eu me bato involuntariamente nas coisas, tenho uma péssima noção espacial… tropeço, sou estabanada, destrambelhada, desorganizada, desarranjada. Disparatada.

Tenho a sensação de que tudo deu errado, sabe? Tudo. Eu tentei e tentei e tudo deu simplesmente errado. Eu só fiz o que eu quis, mas nada realmente saiu como eu quis. Meu sonhos sempre tiveram que ser adaptados. Versão Beta. Versão 3.5. Versão da putaqueopariu. Até quando eu quis me matar deu errado. RÁ! Não é o cúmulo? A adaptação do sonho de minha morte é o momento que estou vivendo agora.

E mais esse dente cariado. Tá ali, lá no fundo, do lado esquerdo…não tá doendo ainda, mas tá me incomodando. Não sei quando vou poder arrumá-lo. Não sei quando vou conseguir me arrumar. Preciso descansar. Eu quero tanto, tanto, tanto descansar. Eu fecho os olhos, mas eles estão em eternos R.E.M…queria voar, queria cair, sem nunca, nunca ter que atingir o chão. Eterna queda livre. Me sinto assim quando você me beija. Mas aí você vai embora e eu me espatifo. Eu sou suja e uma libertina. É o que todos pensam. Mas eu só sou uma menina. Uma menina com o dente cariado. Uma menina com alma senil. Viu? Nem isso se encaixa. Nem isso faz sentido. Assim como aqueles ditados bestas, já repararam? – “Ta com frio bota a bunda no rio..” Cacete se o sujeito tá com frio porque diabos vai botar a bunda num rio? Nunca entendi isso. Nunca.

Nunca entendi nada. Nada. Sempre me esforcei tanto, sempre fui tão fundo em tudo em todos…pra continuar sem resposta alguma. Nunca entendi, por exemplo, o porque de você não ter me deixado partir em 31 de novembro de 2003. Eu acordei entubada e sozinha. E adivinha? Três anos se passaram e eu continuo entubada e sozinha. E agora com um dente cariado. Saco. Ninguém nunca me amou como você. Não como você…porque você ainda insiste em mim? Porque quando eu paro e me pergunto qual a única razão de eu ainda estar aqui ouço você me dizer: “Porque eu ainda acredito em você?”

Porque eu ainda te ouço, aliás? Pensei que você tivesse se calado pra sempre. Mas acho que, por ter me afastado, me esqueci de quem você é. Você é o sempre. Você é o intangível. Você é o grande abismo. O tudo e o nada que me engole. Aquele mesmo, aquele que o bigodudo maluco disse que quando a gente olha pra ele, ele olha de volta pra gente… I can still feel you even so far away… I can still feel you. Tenho um dente cariado agora. Preciso de cuidado. Preciso. Cuidado. Cuida de mim. Tô quebrada. Boa noite.

(Da série: “Do tempo em que eu escrevia bons posts” data out/2006)

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O inferno de Gabi

16 dezembro, 2009

Um belo dia, lá pelos idos de 1300 e alguma-coisa-bem-enlameada-bárbara-e-sombria, um italiano percebeu que sua mísera existência se resumia a apenas ser grosso, fazer pizza e maldizer a Deus-e-o-mundo. Assim sendo, tomou uma atitude e teve a única e brilhante idéia de toda sua vida. Largou de bater na mulher e resolveu descontar a raiva que sentia da humanidade e do Fiorentina num livro. Daí nasceu A Divina Comédia, o primeiro livro da história a enganar o leitor usando o título como estratégia de vendas. Depois vieram outros como Sexo Anal, de outro italiano inútil, mas isso não vem ao caso.

Em A Divina Comédia, o narrador discorre simétrica e perversamente sobre uma suposta odisséia através do Inferno, Purgatório, até a conquista do Paraíso, por meio do viés leve e neutro dos dogmas católicos, descrevendo cada etapa da viagem, com uma ênfase especial na travessia do Inferno. O livro é rico em detalhes que, dentre outras coisas, serviram de inspiração para diversos artistas ao longo da história. Isso sem falar de sua influência direta sobre obras cinematográficas e literárias tais como os documentários Faces da Morte e os livros de Paulo Coelho e Bruna Surfistinha.

Dizem também que, na falta de uma Playboy da idade-média, Torquemada se deliciava lendo A Divina Comédia. Enfim, curiosidades à parte, o autor, o tal italiano maluco e, como era de se esperar, machista e retrógrado, imaginou o Inferno mais ou menos como uma loja de departamentos de 9 andares onde cada piso (que ele chama de círculo), dispõe de variadas sessões de tortura para as almas condenadas a passar ali a eternidade. Assim como acontece com o corpo dos travestis, a coisa vai piorando a medida que se desce: quanto mais perto do 1º círculo você for condenado, mas fodido estará.

Portanto, se o pior pecado cometido em vida foi, por exemplo, ter sido político no Brasil, você não pagará nada por isso, será condenado ao 9º círculo com direito a banho de ofurô à base de enxofre, massagem feita por demônias de três tetas e um vale-pizza de aliche no final.

Agora, se você tiver sido uma pessoa realmente maldosa, mesquinha e totalmente nefanda, que pagava devidamente seu imposto de renda e ainda por cima cometeu o deslize imperdoável de ter roubado doce no supermercado ou comprado DVD pirata no Stand Center, lamentamos, mas aí é caso de danação eterna com a certeza dos suplícios indescritíveis reservados aos condenados ao 1º círculo.

Pois bem, assim como Dante estava entediado resolveu rabiscar um livro e deu que ficou famoso, eu também resolvi arriscar e baseado em sua obra criar o meu próprio inferno. 9 círculos repletos das coisas mais horripilantes que existem. De acordo com a minha ótica, claro:

9° Círculo: – Quem for condenado a este círculo, passará a eternidade pisando em chão molhado de meia, tomando óleo de fígado de bacalhau, ouvindo o barulhinho de unha riscando o quadro negro, sentará ao lado de pessoas que dormem em cima dos outros no ônibus, sofrerá ataque de besouros gigantes, passará a eternidade em filas que se destinam a lugar algum e ouvirá folk e pop-folk perpetuamente em alto e bom som.

Joan Baez, Peter, Paul & Mary, Creedence, CSN&Y, Eagles, James Taylor, BJ Thomas, Johnny Rivers, 5th Dimension, The Grass Roots e similares. De preferência Bob Dylan, bêbado (afim de que não entendamos a poesia de suas letras …ué..mas isso já acontece!) tocando Jokerman…num repeat forever.

8° Círculo: – Neste círculo haverá um congestionamento eterno. Todos os tipos de veículos motorizados enfileirados ad infinitum, buzinando freneticamente, motoristas se xingando, crianças chorando, cachorros latindo (Só o som deles. Pq crianças e cachorros vão para o céu, claro), ônibus lotados, mega-caminhões carregados de esterco ou de animais fedorendos, soltando uma quantidade absurda de monóxido de carbono no ar deixando o ambiente totalmente negro e as pessoas cobertas de fuligem, guardinhas da CET multando compulsivamente e ao final de 24 horas de suplício, uma enchente, para fechar com chave de ouro. Ou seja, o 8° círculo será basicamente o centro de São Paulo na hora do rush. Só que para sempre. Bwahahaha…! (risada maléfica)

De trilha sonora, Teen bands: Menudo, New Kids on The Block, N’Sync, Backstreet Boys, Christina Aguilera, Britney,Boyzone, The Calling, KLB, Take That e similares

7° Círculo: – Aqui, num rompante Kubricquiano, as vítimas serão amarradas a cadeiras de cinema, frente à tela, terão seus olhos arregalados forçosamente por meio de ganchos e assistirão, numa sessão sem fim, aos piores filmes ever tais como: Anaconda, Mulher-Gato, A Reconquista, Corpo em Evidência, O Máscara, Titanic, Velozes e Furiosos, Billy Jean, Dungeons&Dragons, Street Fighter, Howard the Duck, Hudson Hawk, Cool as Ice (a vida de Vanilla Ice), Lambada, Juiz Dredd, Ishtar, Spice World (das Spice Girls), Os Vingadores, The Apple, filmes do Cheech & Chong e mais uma infinidade de porcarias, além de escatológicos do tipo sexo bizarro: Calígula, Saló – Os 120 Dias de Sodoma (heheh..quem diria Pasolini no inferno!!!…) e qualquer outro produzido pela Black Vomit Produções.
E atenção: Todos os filmes serão pontuados pelo maldito comercial das CASAS BAHIA com aquele moleque retardado se movimentando feito um esquizóide, e esgoelando-se ao repetir, para todo o sempre – “Quer pagar quanto”? “Quer pagar quanto?” ” QUER PAGAR QUAAAANTOOO?” –

6° Círculo: – Neste círculo haverá um repeteco sem-fim da muvuca que imperou no último show dos Rolling Stones em Copacabana, em fevereiro de 2006. Sem show, é claro. Dois milhões e meio de pessoas suadas, fedidas, bêbadas, com os nervos à flor-da-pele, milhares de ambulantes te atropelando a todo o momento gritando ofertas de produtos de baixa-qualidade, comidas que não matam a fome, e líquidos que não saciam a sede, debaixo de um sol de 50 graus, à frente de um palco estupidamente longínquo afastando completamente toda e qualquer possibilidade de se assistir a qualquer coisa que possa vir a se apresentar no mesmo, gente sendo roubada, esfaqueada, espremida, vexada, abusada, e oprimida permanentemente.

Trilha sonora: Sympathy for the Devil, entoada pelo próprio, é claro.

5° Círculo: – Neste círculo, estarão reunidos todos os tipos de freaks seguidores de ideologias malucas existentes no mundo. Até aí, tudo bem, o inferno é democrático (!) mas agora vem o pior de tudo: tentando convencer insistente e perpetuamente a todos os presentes de que seu estilo de vida e suas idéias sim, é que são verdadeiras, únicas e absolutamente corretas.

Hare Krishnas entoando seus mantras, batendo tambores e tocando aqueles pratinho-de-dedo irritantes, dizendo que tudo é uma questão de renúncia e paciência, tentando vender seus livrinhos à membros dos Hell’s Angels gordos, fedorentos, peludos sujos de graxa, com barbas e cabelos enormes, camisetas da Harley-Davidson e da Jack Daniel’s velhas e rasgadas, se entupindo de coca, meta-anfetaminas e cerveja, arrotando e peidando o tempo todo, cantando ‘Born to be Wild’ em volta de uma fogueira onde motocicletas queimam, enquanto se divertem batendo em hippies que, por sua vez, dançam pelados, emaconhados, dão flores pra todos, até pro capeta, fazem o sinal de paz e amor, enchem a cabeça de LSD, tomam banho de lama (só de lama) abraçam árvores, balbuciam canções do Greatful Dead em uma rodinha escrota de violão e se esmeram em tentar proferir frases inteiras e coerentes a fim de persuadir grupos de punks, skinheads, headbangers, góticos, xíitas, sunitas, membros da TFP, da Opus Dei, Rastafáris, Panteras Negras, Ku Klux Klan, obreiros da Igreja Universal do Reino de Deus, Membros de Torcidas Organizadas de Futebol, Comunistas-trotskistas, Yuppies, Feministas-mal-comidas, Machistas-mal-fodedores, Straight Edgers, Emo/hard/grind-cores e qualquer outro tipo de fanático-insuportável a parar de se se esmurrar mutuamente. Ufa…

No meio do bate-cabeça interminável, panfleteiros de rua ainda estendem folhetos ininterruptamente, perguntando: “Você gosta de teatro?” “Você gosta de arte?” “Já tirou sua pressão hoje?” “Já possui convênio médico?…

Trilha sonora: Heavy Metal melódico muuito ruim do tipo Helloween, Angra, Gamma Ray e quetais.(Entendeu agora o porque o povo manda os outros para “o quinto dos infernos?”….Ok. Péssima)

4° Círculo: – Viver no Brasil, sem a parte boa (er…qual é mesmo?) Corrupção, Violência, Picaretagem generalizada, Miséria, Falta de respeito, de vergonha na cara, de vontade de dar certo, de saneamento básico, de saúde, de comida, de dinheiro, de educação, de cultura, de progresso, de civilização. Nas televisões, só programação da Rede TV e programas femininos com fofocas das celebridades e culinária engordativa. Todos com intervalos dominados pelo Horário Eleitoral. Continuamente.

Trilha sonora: Axé, Corno-music sertaneja, Pagode-farofa, funk carioca e qualquer coisa da música nacional ruim o bastante a ponto de dar vontade de sair correndo e gritando em desvario quando se ouve…tipo…Calypso.

3° Círculo: – No terceiro círculo estão os vendedores de loja chatos e sem-noção. Daqueles que vivem te azucrinando enquanto você só está pesquisando preços ou apreciando algum item da vitrine.

“Não quer entrar?? “Gostou desse sapato? Eu pego um pra você” “Deseja alguma coisa? Temos ofertas maravilhosas no interior da loja”…Aí você cede à pressão e entra. Porque ceder à pressões é estar no inferno…

Está decidida quanto ao modelo, cor e tamanho do produto que deseja e o pede ao vendedor….aí começa punição propriamente dita.

Ele volta com algo completamente diferente do que você especificou e ainda o força a aceitar:- “Olha, eu olhei no estoque e não temos o sapato marrom 36 bico fino que você pediu, mas eu trouxe esse tênis Air Max Super Mega Blaster, verde-limão e magenta, número 42 e que eu tenho certeza de que vai ficar uma graça em você! Porque não prova? A forma é super pequena, você vai se surpreender…”

Trilha sonora – Música de elevador a saber: Barry Manilow, Enya, Air Supply, Bread, Toto, Chicago, Christopher Cross, Olívia Newton-John, Peter Cetera, Kenny G, e Gary Moore…pode ser música new age tb…

2° Círculo: – Festas chatas em geral: Festas de fim de ano no trabalho, festa de criança, festa de família com parentes chatos, festa em comemoração da escolha do funcionário do mês, festa-comício, festa para promoção de qualquer tipo de jabá, festa do caqui, festa do morango, festa do suspiro de Pirenópolis, quermesses (quermesse no Inferno? Pois sim!), baile da saudade, Simpósio de Ufologia Espiritualista, de Reiki e Meditação Transcendental, Encontro Nacional dos Amantes de Anime e Karaokê Oriental, Encontro dos Trekkers Out of this Fucking Word, Star Wars Maniacs, Senhor dos Anéis Freaks Incorporated, Nárnianos de Plantão, Harry-Potterianos Internacionais, Amantes da Filatelia, Adoradores da Numismática, Tarados pela Telecartografia, Templários do Séc XXI, Dos especialistas em Nós em Gravatas-Borboletas, Dos conhecedores Nigerianos de Iguarias Epônimas, Dos Bacharéis Nos Sistemas Decimais de Dewey, Reunião de Condomínio, Reunião Internacional dos Juízes de Críquete, Dos Tradutores Especializados em Termos Militares em Somali, Dos Padres Especializados em Terminologias de Tonsura, Dos Médicos Especializados na Virose do Mosaico-do-Fumo, Dos Antitransubstancionalistas Sesquipedalianistas Eternos, dos Professores Lucasianos, Dos Profundos Admiradores das Técnicas de Assassinatos nos Romances de Miss Marple, Dos Cantores De Gritos de Guerra de Clãs Escoceses…

Trilha sonora: Bandas Cover de Churrascaria, Ray Conniff, Liberace, Richard Clayderman, The Harmonicats, Boston Pop Orchestra e Mantovani.

1° Círculo: – Rua 25 de Março num sábado anterior ao natal. Salto agulha e espartilhos apertadíssimos para todo o sempre. Coca-cola e cerveja quente. Falta de energia elétrica quando você está no banho e com a cabeça ensaboada. Choque Elétrico, Legalismo, Moralismo, Hipocrisia Machismo, Racismo, Preconceito, Ignorância e correlacionados, Gente Retrógrada, Insensível, Todo o tipo de prisão do corpo e da alma. E-mails Power Point de Auto-Ajuda, Toda e qualquer falta de liberdade, Comida ruim, Colchão ruim, Perfume ruim, Mau hálito, Chulé, Sexo ruim, Ausência de sexo, Frigidez, Ejaculação precoce, Impotência, Pegação de pé generalizada, Caganeira, Depilação à cera, Exame ginecológico para mulheres e de próstata para os homens, Endoscopia, Sujeira, Fedor, a Sandy, a Xuxa e é claro, BARATAS!

Trilha Sonora: Músicas da Sandy & Junior tocadas naquelas flautinhas da Pça da Sé…

(da série:  “Do tempo em que eu escrevia bons posts – data 08/2006)

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Vida de baixo impacto

18 novembro, 2009

Colin Beaven é um cara corajoso. Cansado de engordar as estatísticas e fazer parte da população que mais polui o mundo (a saber: os americanos) propôs à sua família viver um ano de “baixo impacto” ao meio ambiente.

Não usou elevador, nem carro, nem táxi nem avião, não viu televisão e só fez refeições em casa, com alimentos comprados na feira local.

Beaven acabou escrevendo um blog que acabou virando um livro e, finalmente um documentário – No Impact Man

Sacrifícios à parte, a mudança radical de habitos fez o americano perder 9 (!) kgs sem ginastica alguma.

Sem falar do relacionamento em família, já que longe da TV tornou-se um pai muito mais participativo.

Acho digno e estou pensando seriamente em fazer igual.

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Acampamento do orgasmo

15 novembro, 2009

angelina

Se você não é chegada à vida selvagem, insetos, barracas e banho frio talvez mude de idéia com relação a acampamentos depois de ler esta breve nota.

Nos EUA, terra que dá origem aos maiores loucos e freaks do planeta, existe um acampamento focado em orgasmo, o Pussy Willow Ranch. Isso mesmo: um acampamento do orgasmo.

Mas não pense você que a equipe deste peculiar rancho é formada por atores pornô com barriga tanquinho que andam nus e livres pela floresta, de pau duro e gravatas borboleta, prontos a atender aos apelos carnais das acampantes.

Não, é tudo “muito profissional”. O acampamento foi desenvolvido por sexólogos para atender mulheres que tem dificuldade de alcançar o orgasmo.

Assistentes e auxiliares, chamados no acampamento de “deliberadores de orgasmo” munidos de luvas de borracha e muita boa vontade  “dão uma mãozinha” às mulheres que, desesperadas para aprender mais sobre si mesmas e seus corpos, sujeitam-se a sessões de masturbação assistida.

Os deliberadores garantem satisfação a toda prova: eles fazem as clientes do acampamento gozarem de uma a oito vezes por dia.

Meudeus, me fala se o mundo não tá acabando? A mulherada frígida tá se inscrevendo em acampamentos aonde aprendem a se masturbar? E para isso aceitam abrir as pernas para um total desconhecido vestido de branco, com luvas de borracha e dedo indicador besuntado de KY, numa ação totalmente automática, orgasmo on demand?

Ahhh shoot me and do it NOW!

Fiquei sabendo sobre esse tal rancho ao ler a entrevista da jornalista Mara Altman, a caçadora de orgasmo, na Marie Claire deste mês.

Eu, que ODEIO revista feminina, me interessei pelo exemplar de novembro porque já havia ouvido falar de seu livro “Thanks for Coming” e sua busca pelo orgasmo. Resumindo: a autora, então com 26 anos e transando há 10, de repente se deu conta de que nunca havia gozado na vida e partiu em busca do santo graal: o verdadeiro orgasmo.

Interessante, mas acabou descobrindo o óbvio: o orgasmo depende, em grande parte, de você e não só do outro.

Muito menos de se matricular em um acampamento de masturbação assistida.

Socorro.

A entrevista é tragicômica e você pode lê-la aqui:

http://tinyurl.com/ykwu3uo

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Arremedo de vida

15 novembro, 2009

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A cada dia que passa, eu, uma pobre e leiga observadora da natureza humana, ao invés de me surpreender fico cada dia mais…cínica e entediada com relação a nossa sociedade.

O mundo, que já era velho e sem porteira, agora está chato de galochas…e fedendo. Um lugar sacal de se viver. Implacável,  intolerante. Hipócrita, com essa onda interesseira e egoísta de politicamente correto que deixa todo mundo com medo de ser mal-interpretado e morto por conta de um comentário impulsivo e verdadeiro, o mundo está cada vez mais homogêneo, higienizado, pasteurizado, asséptico, enfadonho.

Foi imaginando  um futuro não muito brilhante para a humanidade que acabei me deparando com o filme “Os Substitutos”  (Surrogates- 2009) do diretor Jonathan Mostow ( O Exterminador do Futuro 3 – a Revolta das Máquinas). O filme foi baseado em uma história em quadrinhos em 5 edições, homônima, escrita por Robert Vinditti e ilustrada (muito bem ilustrada, aliás) por Brett Weldele, publicada pela Tops Shelf Productions , nos EUA em 2005/2006  e que conta com a participação do canastrão Bruce Willis em sua adaptação para as telonas.

Ao ler a sinopse, tive mais vontade de fazer o DVD de freesbie do que de assistí-lo, mas, como se tratava de uma HQ adaptada, eu, colecionadora e fã, não resisti e acabei assistindo.

The Surrogates tem como inegáveis referências demais obras da ficção científica que tem como prerrogativa um futuro distópico e surrel, tal como  1985 de George Orwell, Eu, Robô de Isaac Asimov, Blade Runner de Philip K. Dick, até o doce Wall-e da Disney/Pixar e Minority Report (também de K. Dick, adaptado para o cinema e dirigido por Steven Spielberg, em 2002).

A premissa é interessantíssima: No anos de 2025, os andróides já substituem os humanos em praticamente tudo. Ele funcionam como um tipo de “avatar”, corpos robóticos controlados mentalmente por humanos que, por medo de exposição aos perigos da vida real, trancafiaram-se em suas casas e através de um software controlam as ações e pensamentos de seus andróides “substitutos”, numa espécie de um live action de “Second Life”.

Por conta disso, os substitutos são perfeitos em tudo, aparência e comportamento. Ao andar na rua, você só se depara com super modelos e galãs de cinema, invencíveis, ilimitados, todos educadíssimos e com atitudes e comportamento totalmente premeditados por seus “players”. É o império da ordem e da perfeição. É um jogo, onde perdedores não existem. 

Os grandes traumas que assolam a raça humana estão todos resolvidos: simplesmente não existem. O sexo flui. Com a autoestima elevada, todo mundo se dá bem, pois ninguém mais corre o risco de fazer feio com um pretendente, que aliás, pode não ser o retrato fiel de seu andróide. Um homem velho, gordo e feio pode ter como “substituta” uma deliciosa modelo e conquistar um bonitão na noite, numa espécie de ilusão em massa, consentida. E quem vai ser o louco de querer saber a verdade?

Ignorância é felicidade.

Enquanto isso, humanos contrários à onda de substitutos vivem em guetos, do velho modo: reproduzindo-se e expondo seus corpos às agruras da vida. Vivendo a vida de verdade, e lutando contra a ameaça de coexistir com super-seres.

Mas (porque sempre existe um mas) a utopía da vida perfeita começa a ruir quando um terrorista humano desenvolve uma arma que quando disparada sobrecarrega o andróide, fritando o cérebro de seu comandante humano respectivamente. Ou seja: os humanos não estão mais a salvo no refúgio de suas casas.

Cabe ao agente do FBI interpretado por Bruce Willis, para variar, salvar a humanidade ao se deparar com problemas muito mais complexos  do que descrevia a vã filosofia da sinopse da película.

Recomendo fortemente.

O filme.

E a viver a vida também, claro : )

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Feliz Nat-“au”

30 outubro, 2009

Adiantado.

Mas é que não resisti…

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