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Toda forma de poder

15 maio, 2009

 

Humberto Gessinger, o líder, crooner e letrista da banda gaúcha Engenheiros do Hawai não passa, nem de longe, no meu rol de ídolos do rock. Mas, tenho que reconhecer que, entre rimas fáceis, mal-ajambradas e muitas vezes ridículas, ele certamente produziu algumas pérolas de franca inspiração, tal como a letra da canção que empresta seu título a esse post –

Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Toda forma de conduta se trasforma numa luta armada. A história se repete mas a força deixa a história mal contada… o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada. É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada. Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada. –

Fui convidada pelo meu ilustre amigo-blogueiro-e-colega-de-faculdade, Alexandre Inagaki a uma blogagem coletiva referente à lembrança dos três anos de ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital) à cidade de São Paulo, em maio de 2006.

Me lembro como tudo começou. Literalmente por conta da transferência dos líderes da facção (entre eles: Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola) para a prisão interiorana de Presidente Wenceslau e para a sede do Deic, aqui perto de casa em Santana, zona norte da capital.

Por conta disso, policiais, civis e praticamente toda a cidade de São Paulo, mais de 18 milhões de habitantes, uma das maiores cidades da América Latina, se viu à mercê de um grupo que, guardadas as devidas proporções, não fez nada mais nada menos qu aterrorizar a população, assassinando policiais, civis, estipulando “toque de recolher” e depredando patrimônio público, como forma de retaliação, revolta e demonstração de poder, num jogo desonesto, desumano, egoísta, tirano.

Se isso não é uma forma de terrorismo, me expliquem então o que é, porque acho que não entendi.

Na época foi o maior bafafá e assuntos públicos antigos e inacabados inevitavelmente vieram à tona. A questão da reforma do sistema prisional, do treinamento e ação policiais, reforma do judiciário, violação e limites dos direitos humanos no sistema carcerário, o governador na época (Cláudio Lembo) declarando que os ataques “eram previsíveis”, a opinião pública questionando: “se eram previsíveis porque não foram impedidos?” E enfim, como tudo no Brasil, muito barulho por nada. Não aconteceu nada, não deu em nada.

Vidas foram tiradas – estivessem elas envolvidas ou não, certas ou não, não cabe a nós o julgamento de pena de morte. Não cabe à ninguém. Cabe a nós medidas legais compatíveis com os crimes e não justiça pelas próprias mãos, porque esse caminho é tortuoso, cheio de atalhos, relatividades, ambiguidades – a cidade sitiada, pessoas apavoradas e, vejam só: pra nada.

Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada. Ontem, uma criança de 11 meses foi atirada, em chamas, pela janela de um ônibus na zona leste de SP (como bem me disse o Mr. Music).

 O que vai acontecer depois disso? Nada.

Você leu isso no jornal e provavelmente nem se lembra mais. O jornal vai virar banheiro de cachorro, embrulho de peixe…e esse bebê? Vai virar o quê? Um cidadão de bem? Ou um outro Marcola, revoltado, com 90% do corpo queimado, insandecido e doente para descontar na SOCIEDADE QUE NÃO FEZ NADA?

Literalmente nada. Nem a favor dele, nem contra ele.

 “Ou morre-se como herrói ou vive-se o bastante para se tornar o vilão?”.

É uma espiral descendente constante, é um Oroboros de erros, é a lei do eterno retorno, é um inferno perene.

Tudo por conta de jogos de poder. O poder público versus a polícia, versus criminosos versus á sociedade civil versus criminosos versus a policia versus o poder público.

Eu respeitei os toques de recolher na época e fiquei sabendo de colegas que tiveram membros da família, que faziam parte da Polícia Civil, mortos nos ataques.

Mas eu respeitei por medo. O medo é uma forma de poder. Um dos recursos mais utilizados no Brasil, aliás…e como disse o filósofo bufão, Humberto Gessinger : “toda forma de poder é uma forma de morrer por NADA”.

Yeah, yeah.

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